Exame Logo

Fenômeno de massas, "Star Wars" é analisado filosoficamente

Os seis episódios já lançados arrecadaram no total mais de US$ 4 bilhões, e isso sem contar o faturamento do mercado de DVDs e o merchandising

Star Wars: parte do sucesso da saga está exatamente nessa profundidade ideológica que vários autores analisam (Edgar Su / Reuters)
DR

Da Redação

Publicado em 1 de dezembro de 2015 às 10h19.

Madri - Pioneiro na aproximação da ficção científica ao grande público, "Star Wars" é muito mais do que um simples 'produto comercial' - a saga intergaláctica criada por George Lucas é um mito cultural para várias gerações, que já foi examinado à luz do feminismo, da filosofia oriental e do capitalismo global.

Os seis episódios já lançados arrecadaram no total mais de US$ 4 bilhões, e isso sem contar o faturamento do mercado de DVDs e o merchandising, terreno em que Lucas também foi um visionário.

Porém, parte do sucesso da saga está exatamente nessa profundidade ideológica que vários autores analisam no ensaio "Star Wars: Filosofia rebelde para uma saga de culto", publicado pensando na estreia de "Star Wars: O Despertar da Força", o sétimo episódio, dirigido por J.J Abrams.

O próprio Lucas, em diferentes entrevistas, admitiu entre suas influências filmes como "A Fortaleza Escondida" (1958), de Akira Kurosawa, e leituras de Joseph Campbell sobre mitologia, religião e do conceito da viagem do herói, e que o capacete e a máscara de Darth Vader, o maior ícone da saga, foram inspirados no Japão feudal.

A ideia da Força como campo de energia criado por todas as coisas vivas, como definiu Yoda quando treinava Luke Skywalker, tem reminiscências do que os taoístas chamam "tao", uma "força em contínua mudança que sempre flui, que pode ser forte e frágil, controlada e arrasadora".

Yoda também transmitiu a Luke doutrinas de inspiração budista, como observou Julien R. Fielding, especialista em estudos religiosos, como viver sempre "no presente" e ser controlado, paciente, abnegado, equilibrado e compassivo.

"O medo da perda é um caminho em direção ao Lado Negro", "O medo leva à raiva, a raiva ao ódio e o ódio ao sofrimento", e "a morte é uma parte natural da vida", são algumas das frases mais destacadas do mestre jedi.

Um dos temas mais evidentes da saga é o poder e a valorização do indivíduo.

Tony M. Vinci, especialista em literatura popular e editor do ensaio, revela a virada que Lucas dá neste sentido desde a trilogia original, apologia da rebeldia individual, até os episódios mais recentes, muito mais conservadores.

Essa transição refletiria a profunda mudança cultural vivida nos Estados Unidos desde os contestadores anos 70 - o primeiro filme é de 1977 - à década de 90, com o capitalismo global e o conformismo já assentados.

Nos três primeiros filmes, as estruturas políticas muito organizadas (o Império) se identificam com o mal, porque destroem o indivíduo, enquanto a ação individual, representada em Luke e, sobretudo, em Han Solo, simboliza o caminho rumo ao heroísmo, guiado pela intuição e pela rebeldia.

Muito se escreveu, neste sentido, sobre a visão profética de Lucas, já que o Império foi entendido nos últimos anos como uma alegoria das grandes empresas, dos Estados Unidos como potência mundial ou do que paradoxalmente chegou a ser a própria franquia de "Star Wars".

No entanto, nos filmes dos anos 90, com a democracia, primou o controle institucional.

O apoio ao "status quo" é a principal responsabilidade do indivíduo. Anakin submete todas suas decisões à consulta do Conselho Jedi. Adeus à rebeldia.

Até a Força se institucionaliza, a serviço de uma elite cultural. E os jedi, que já não são marginalizados, parecem ter como único objetivo manter aos poderosos e prevenir resistências à República, lembrou Vinci.

Outro terreno em que se registra uma clara involução dos filmes mais recentes em relação à trilogia original é o do feminismo.

A princesa Leia (Carrie Fisher) foi um ícone de uma feminilidade alternativa.

Resolvida e decidida, sarcástica e até autoritária, sua ousada personalidade se afasta dos estereótipos de figura maternal ou de jovem alegre e bonita inocente.

E, o que é mais importante, assinalou Diana Domínguez, sua ousadia nem se amansa nem é punida, como costumava ser habitual no cinema.

O roteiro de "O Despertar da Força", um dos filmes mais esperadas dos últimos tempos, é guardado a sete chaves por seus responsáveis. Tudo o que se sabe é que se passa 30 anos depois de "O Retorno de Jedi".

Os trailers, calculadamente lançados pela Lucasfilm, deixam no ar uma estética similar à trilogia original e uma história tenebrosa em que um dos personagens é arrastado para o Lado Negro, como aconteceu com Anakin Skywalker/Darth Vader.

Veja também

Madri - Pioneiro na aproximação da ficção científica ao grande público, "Star Wars" é muito mais do que um simples 'produto comercial' - a saga intergaláctica criada por George Lucas é um mito cultural para várias gerações, que já foi examinado à luz do feminismo, da filosofia oriental e do capitalismo global.

Os seis episódios já lançados arrecadaram no total mais de US$ 4 bilhões, e isso sem contar o faturamento do mercado de DVDs e o merchandising, terreno em que Lucas também foi um visionário.

Porém, parte do sucesso da saga está exatamente nessa profundidade ideológica que vários autores analisam no ensaio "Star Wars: Filosofia rebelde para uma saga de culto", publicado pensando na estreia de "Star Wars: O Despertar da Força", o sétimo episódio, dirigido por J.J Abrams.

O próprio Lucas, em diferentes entrevistas, admitiu entre suas influências filmes como "A Fortaleza Escondida" (1958), de Akira Kurosawa, e leituras de Joseph Campbell sobre mitologia, religião e do conceito da viagem do herói, e que o capacete e a máscara de Darth Vader, o maior ícone da saga, foram inspirados no Japão feudal.

A ideia da Força como campo de energia criado por todas as coisas vivas, como definiu Yoda quando treinava Luke Skywalker, tem reminiscências do que os taoístas chamam "tao", uma "força em contínua mudança que sempre flui, que pode ser forte e frágil, controlada e arrasadora".

Yoda também transmitiu a Luke doutrinas de inspiração budista, como observou Julien R. Fielding, especialista em estudos religiosos, como viver sempre "no presente" e ser controlado, paciente, abnegado, equilibrado e compassivo.

"O medo da perda é um caminho em direção ao Lado Negro", "O medo leva à raiva, a raiva ao ódio e o ódio ao sofrimento", e "a morte é uma parte natural da vida", são algumas das frases mais destacadas do mestre jedi.

Um dos temas mais evidentes da saga é o poder e a valorização do indivíduo.

Tony M. Vinci, especialista em literatura popular e editor do ensaio, revela a virada que Lucas dá neste sentido desde a trilogia original, apologia da rebeldia individual, até os episódios mais recentes, muito mais conservadores.

Essa transição refletiria a profunda mudança cultural vivida nos Estados Unidos desde os contestadores anos 70 - o primeiro filme é de 1977 - à década de 90, com o capitalismo global e o conformismo já assentados.

Nos três primeiros filmes, as estruturas políticas muito organizadas (o Império) se identificam com o mal, porque destroem o indivíduo, enquanto a ação individual, representada em Luke e, sobretudo, em Han Solo, simboliza o caminho rumo ao heroísmo, guiado pela intuição e pela rebeldia.

Muito se escreveu, neste sentido, sobre a visão profética de Lucas, já que o Império foi entendido nos últimos anos como uma alegoria das grandes empresas, dos Estados Unidos como potência mundial ou do que paradoxalmente chegou a ser a própria franquia de "Star Wars".

No entanto, nos filmes dos anos 90, com a democracia, primou o controle institucional.

O apoio ao "status quo" é a principal responsabilidade do indivíduo. Anakin submete todas suas decisões à consulta do Conselho Jedi. Adeus à rebeldia.

Até a Força se institucionaliza, a serviço de uma elite cultural. E os jedi, que já não são marginalizados, parecem ter como único objetivo manter aos poderosos e prevenir resistências à República, lembrou Vinci.

Outro terreno em que se registra uma clara involução dos filmes mais recentes em relação à trilogia original é o do feminismo.

A princesa Leia (Carrie Fisher) foi um ícone de uma feminilidade alternativa.

Resolvida e decidida, sarcástica e até autoritária, sua ousada personalidade se afasta dos estereótipos de figura maternal ou de jovem alegre e bonita inocente.

E, o que é mais importante, assinalou Diana Domínguez, sua ousadia nem se amansa nem é punida, como costumava ser habitual no cinema.

O roteiro de "O Despertar da Força", um dos filmes mais esperadas dos últimos tempos, é guardado a sete chaves por seus responsáveis. Tudo o que se sabe é que se passa 30 anos depois de "O Retorno de Jedi".

Os trailers, calculadamente lançados pela Lucasfilm, deixam no ar uma estética similar à trilogia original e uma história tenebrosa em que um dos personagens é arrastado para o Lado Negro, como aconteceu com Anakin Skywalker/Darth Vader.

Acompanhe tudo sobre:ArteCinemaEntretenimentoFicção científicaFilmes

Mais lidas

exame no whatsapp

Receba as noticias da Exame no seu WhatsApp

Inscreva-se

Mais de Casual

Mais na Exame