Casual

Expansão da Pinacoteca cria corredor cultural no centro de São Paulo

Pinacoteca é vizinha do Parque da Luz e do Museu da Língua Portuguesa; região ainda tem o centro cultural Casa do Povo e a Sala São Paulo

Fachada Pinacoteca Contemporânea. (Christina Ruffato/Divulgação)

Fachada Pinacoteca Contemporânea. (Christina Ruffato/Divulgação)

AO

Agência O Globo

Publicado em 10 de janeiro de 2023 às 10h02.

Última atualização em 10 de janeiro de 2023 às 10h39.

Priorizar nos meus resultados Google

No dia do seu aniversário, São Paulo ganhará de presente o maior museu em área expositiva do país e o segundo da América Latina, atrás apenas do Nacional de Antropologia, do México. Mas uma das ambições centrais da Pina Contemporânea, terceira unidade da Pinacoteca do Estado de São Paulo, a partir de 25 de janeiro aberta ao público, ultrapassa suas dimensões: a instituição mira na criação de um corredor cultural informal nos bairros da Luz e do Bom Retiro, no coração da cidade, e um salto de usuários dos cerca de 600 mil deste ano para 1 milhão de pessoas já em 2023.

A ideia é que o roteiro e o aumento de visitantes contribuam para a revitalização da zona central da capital paulista, vitimada pela violência, o aumento de pessoas em situação de rua e a venda e consumo de drogas, especialmente o crack.

— A Pina Contemporânea permitirá uma nova ligação da Estação da Luz (trem e linhas 1 e 4 do metrô), por dentro do Parque da Luz, à Estação Tiradentes (Linha 1 do metrô) e ao Museu de Arte Sacra, com o usuário passando por nossos prédios — conta Jochen Volz, diretor da Pinacoteca.

A imagem de corredor cultural cunhada por Volz não é gratuita. Sonho antigo do museu inaugurado em 1905, a Pina Contemporânea teve projeto inspirado no Sesc Pompeia e seus aparelhos culturais, que desaguam em uma mesma rua interna. A Pinacoteca é vizinha do Parque da Luz e do Museu da Língua Portuguesa, criado na estação inaugurada em 1865. Mas uma esticada de poucos quarteirões acima inclui o centro cultural Casa do Povo (na Três Rios) e, na direção oposta, a Sala São Paulo (na Júlio Prestes), uma das mais importantes casas de concerto das Américas.

—Todas estas instituições, é claro, já são importantes por si só. Nos propomos a ajudar na articulação entre elas. Pensamos o novo prédio a partir da criação de um caminho, por isso o projeto se abre para o parque. — diz o diretor da Pinacoteca, que pondera: — Obviamente, temos a noção que a mera implantação de uma instituição não modificará sozinha o coração da cidade. A estratégia precisa ser maior, incluindo também o que está fora do nosso alcance, como a segurança pública.

O alemão radicado no Brasil, há cinco anos e meio à frente da Pinacoteca, após longa passagem como diretor artístico do Instituto Inhotim e curadorias de edições das bienais de Veneza e de São Paulo, conta que a instituição já iniciou conversas sobre gestão conjunta de parte do Parque da Luz e a segurança no entorno da Pina com a prefeitura da capital e o novo governo Tarcísio de Freitas (Republicanos). E frisa que a reabertura do Museu da Língua Portuguesa, no fim de julho do ano passado, foi um passo importante para que “nos sentíssemos menos como ilhas”, aumentando o fluxo de público “apesar da Covid-19 e do agravamento da tragédia social na região”.

— Propositadamente, o novo prédio não tem uma entrada clássica, com escadaria, como a sede principal. A estrutura é aberta, necessidade enfatizada pela pandemia. Estamos, na prática, expandindo o Parque da Luz, e esperamos que os frequentadores do primeiro Jardim Botânico da cidade se apropriem do novo espaço, de uma forma ainda mais natural do que já fazem hoje com a Pinacoteca — diz.

Uma das apostas imediatas é que o público prestará mais atenção às 32 esculturas do acervo do museu instaladas no Parque da Luz há mais de 30 anos pelo ex-diretor da Pinacoteca Emanoel Araújo, que morreu em setembro. Elas serão parte inevitável do percurso de quem quiser passar de uma unidade a outra, com obras de, entre outros, Victor Brecheret, Amilcar de Castro, Tunga e José Resende.

Um investimento de R$ 85 milhões (R$ 55 milhões do estado e R$ 30 milhões doados pela família Gouveia Telles, da Ambev), a Pina Contemporânea tem projeto assinado pelos mineiros Arquitetos Associados, responsáveis pelo traço de galerias de Inhotim, e da nova sede do Museu do Pontal, inaugurada no ano passado no Rio.

O novo prédio mantém parte da estrutura da Escola Estadual Prudente de Morais, projeto de Francisco Ramos de Azevedo (1851-1928), arquiteto também responsável pela sede principal do museu, inspirada no neoclássico. Em 1998, a sede teve a reforma assinada por Paulo Mendes da Rocha (1928-2001) e ganhou seu celebrado desenho atual. O colégio foi transferido em 2015 para um prédio maior no Bom Retiro.

A Pina Contemporânea vai aumentar consideravelmente a área de exposição do acervo da instituição (a capacidade atual é de menos de 10%) e terá cafeteria, salas multiúso, com varanda e terraço, uma praça integrando seus dois blocos e um subsolo aberto para o Parque da Luz, onde ficará a Grande Galeria. Também será o novo endereço da Biblioteca Walter Wey, uma das mais importantes do gênero na América Latina, e do Centro de Documentação da Pinacoteca, hoje abrigados no Pina Luz.

E, se indica no sobrenome que irá apresentar mais atrações da arte que se faz agora — a abertura ficará por conta da sul-coreana Haegue Yang, celebrizada por instalações que desafiam os sentidos, e de uma coletiva com o acervo do museu — a nova Pina também contará com duas salas de oficinas educativas e socioculturais, decidida a tratar, e não só na teoria, dos problemas ao seu redor.

LEIA TAMBÉM

Maior e mais caro iate do mundo custará R$ 43,6 bilhões
Com preços de até R$ 54 mi, mercado de iates tem fila de espera no país

Oficinas para sem-teto

As oficinas que hoje acontecem no auditório fechado do prédio histórico contarão, espera o comando da casa, com presença ainda maior de moradores do entorno da Pinacoteca, inclusive os em situação de rua. No início do mês, o museu lançou “99%, a cachaça da amizade”, publicação que reúne xilogravuras produzidas por pessoas sem-teto que participaram das oficinas da Ação Extramuros na Casa de Oração do Povo da Rua, espaço mantido pela Arquidiocese de São Paulo. E o zine “Foco no olhar”, em parceria com a Associação Agentes da Cidadania — Coletivo Mulheres da Luz, com fotografias feitas por mulheres em situação de vulnerabilidade social que trabalham e vivem nos arredores do museu.

— São projetos e construções de longo prazo, que agora terão ainda mais visibilidade. A Pinacoteca quer ser, cada vez mais, um museu global de arte brasileira, e a Pina Contemporânea chega para refletir sobre o que significa ser um museu nos dias de hoje, além de nossas paredes. A porosidade com a cidade será nosso norte — diz Volz.

Conheça a newsletter da EXAME Casual, uma seleção de conteúdos para você aproveitar seu tempo livre com qualidade.

Acompanhe tudo sobre:ArteSão Paulo capitalMuseus

Mais de Casual

Emmy 2026: veja os indicados nas principais categorias

De campeão do mundo a sócio na Toscana: a trajetória italiana de Claudio Taffarel

A boutique da Chanel que não vende peças da grife

O bairro de Londres que virou ponto turístico graças a Ted Lasso