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Como uma garrafa de uísque virou uma obra de arte de 1 milhão de libras

The Macallan 1926 com rótulo de Valerio Adami se tornou o destilado mais caro já vendido em leilão — e revela a lógica do mercado de luxo

Publicado em 5 de setembro de 2026 às 08h07.

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Talvez vocês conheçam o artista Valerio Adami. Senão, eu conto. Valerio Adami nasceu em 17 de março de 1935, na Bolonha. Estudou na Accademia di Brera e passou pelo ateliê de Felice Carena. Conviveu com gente importante, como Derrida, Italo Calvino e Carlos Fuentes. Tornou-se uma figura importante do movimento de Figuração Narrativa Europeia – que, como você já deve ter presumido pelo nome, apontava para o lado oposto da tendência da época, que era a abstração.

Adami pintou também algumas obras bem reconhecíveis. Uma delas, ironicamente, batizada de My Father Was an Alcoholic (Study), além de uma série de retratos de intelectuais da época que, propositalmente, tinham pouca fidedignidade. Com o tempo, suas obras se valorizaram. A tal tela que referenciava os hábitos etílicos de seu progenitor, por exemplo, foi vendida por mais de 20 mil libras em um leilão da Dorotheum, em 2026. E teve outro, que chegou a mais de 90 mil libras. Mas, curiosamente, o trabalho mais caro já leiloado com participação de Adami foi, na verdade, uma garrafa. Mais de um milhão de libras.

Corta para a The Macallan, em 1936. Sob o comando de Janet Harbinson, um barril de carvalho europeu que antes fora usado para maturar vinho jerez foi preenchido com new-make da destilaria. Foi o cask número 263, que passou sessenta anos maturando naqueles úmidos armazéns em Speyside. Até que, finalmente, em 1986, ele foi considerado pronto para o engarrafamento.

Ocorre que, depois de seis décadas em um barril, boa parte do líquido havia evaporado. O conteúdo todo rendeu apenas quarenta garrafas de The Macallan 60 anos 1926. Mas elas não foram todas engarrafadas com um mesmo rótulo. 14 integraram a linha Fine & Rare, os vintages da The Macallan. 12 entraram para a coleção Peter Blake; duas jamais receberam rótulos. E, por fim, 12 delas foram estampadas com uma ilustração de Valerio Adami, feita sob encomenda para a marca.

A valorização dos The Macallan Valerio Adami é quase surreal. Dez anos após seu lançamento, em 1996, uma garrafa foi vendida em Londres por 12 mil libras. O que é bastante dinheiro, mas nada próximo do que atingiria em seguida. Em 2018, uma garrafa atingiu 815 mil libras em um leilão em Hong Kong. Pouco tempo depois, no mesmo ano, outra chegou a 907 mil libras, pela Whisky Auctioneer.

Mas o salto verdadeiramente absurdo aconteceu em 18 de novembro de 2023, na Sotheby's de Londres. A estimativa era de 750 mil a 1,2 milhão de libras. Porém, a tal garrafa 12 de 12 terminou em dois milhões, cento e oitenta e sete mil e quinhentas libras – assim, por extenso, para fins de dramaticidade. Não foi apenas o uísque mais caro da história, mas a garrafa de vinho ou destilado mais cara já vendida em leilão.

Essa garrafa teve, inclusive, uma particularidade. Antes do leilão, ela voltou para a The Macallan, onde foi recondicionada. A destilaria trocou sua rolha e recolou os cantos do rótulo. Retirou também um mililitro do líquido, para compará-lo, em análise laboratorial, com outro The Macallan 1926.

E sei lá se um uísque de dois milhões de libras já não é surreal o bastante. Mas, para mim, o mais surpreendente é a diferença para uma obra original do artista. Porque, apesar de levar seu nome, os The Macallan Valerio Adami não são, propriamente, obras dele. São reproduções, impressas, de uma obra criada por ele. Gravuras de uma série. Isso diz muito sobre a indústria do uísque e sobre o desejo de possuir coisas exclusivas. Mas, também, fala bastante sobre o universo da arte. Talvez, a parte mais importante aqui seja colocar sua obra no lugar certo.

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