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A sauna faz mesmo bem para a saúde? Veja mitos e verdades

Prática finlandesa foi redescoberta pela indústria de bem-estar e é uma das apostas do setor para os próximos anos

Saunas: cardiologistas explicam mitos e verdades sobre a prática (Othership)

Saunas: cardiologistas explicam mitos e verdades sobre a prática (Othership)

Marina Semensato
Marina Semensato

Colaboradora

Publicado em 6 de abril de 2026 às 09h01.

A sauna voltou ao radar do bem-estar global. O mercado em crescimento, impulsionado pela mudança de comportamento da população — que agora trata o autocuidado como parte da rotina, e não uma exceção — deu uma nova chance à prática finlandesa milenar para se tornar a "queridinha do momento". O interesse não vem só da experiência em si, mas da ideia de que ali existe um combo de benefícios concentrados, que vão desde a saúde da pele até do coração.

Uma das práticas mais antigas de higiene e bem-estar que se tem conhecimento, tanto que consta na Lista de Patrimônio Imaterial da UNESCO, a sauna surgiu na Finlândia há cerca de 9 mil anos. Foi criada por povos nômades pré-históricos e até hoje é um símbolo ativo da cultura do país — lá, existem cerca de 3 milhões de saunas para 5,6 milhões de habitantes. Há fontes que apontam o surgimento da prática na China, onde teriam objetivos medicinais e espirituais.

Com o tempo, o hábito se espalhou e ganhou novas formas. No Império Otomano, evoluiu para o banho turco. No Japão, se aproximou das fontes termais. Nos Estados Unidos, entrou no universo dos spas.

No Brasil, a prática chegou ainda na década de 1920 com imigrantes finlandeses e, por décadas, ficou associada a clubes ou balneários. Agora, um século depois, a sauna conta com versões mais urbanas, integradas à rotina — de academias a cafeterias que oferecem sauna no pós-treino. Em cidades como São Paulo, isso já aparece em novos espaços voltados a banhos e relaxamento.

No auge do mercado de bem-estar

Mesmo com essas adaptações históricas, a sauna sempre esteve associada a algum tipo de benefício, seja ele físico, mental, espiritual e social. Sendo assim, o raciocínio por trás da sua redescoberta pelos entusiastas do bem-estar é básica. Em uma rotina corrida, as pessoas querem desacelerar, descansar, se cuidar, se desconectar do mundo e, se possível, fazer tudo isso ao mesmo tempo.

A sauna, por enquanto, parece ser um dos poucos lugares que concentram essa experiência em um único momento. E vai na linha da obssessão pelo mercado de bem-estar no mundo. A economia global do setor movimentou US$ 6,8 trilhões em 2024 e deve se aproximar de US$ 10 trilhões até 2029, segundo o Global Wellness Institute. No Brasil, o mercado soma US$ 96 bilhões e lidera a América Latina.

Em um recorte mais específico, o mercado mundial de saunas e spas deve crescer US$ 1,23 bilhão entre 2024 e 2029, com taxa anual de 5,4%, segundo a consultoria Technavio. O avanço é puxado principalmente pelos setores de turismo e hotelaria, que incorporam esse tipo de experiência aos serviços oferecidos.

Mitos e verdades sobre a sauna

Na mesma velocidade em que cresce o interesse pela sauna, se espalham também algumas ideias imprecisas. Uma delas, e talvez a mais famosa, é de que o calor seja capaz de "desintoxicar" o corpo. Apesar de popular, essa associação não se sustenta do ponto de vista médico, explica o cardiologista Breno Gestal, do Alta Diagnósticos, à EXAME.

"Chamar sauna de 'desintoxicação' é um mito comum. Do ponto de vista médico, quem exerce essa função são principalmente fígado e rins. O suor elimina basicamente água e sais, não toxinas em quantidade relevante", diz.

O cardiologista Gustavo Lenci Marques, da plataforma Doctoralia, segue na mesma linha: suar mais não significa eliminar toxinas. "Alguns defendem que a temperatura poderia induzir a produção de proteínas de choque térmico que auxiliariam no reparo celular, mas esse é um conceito bem distante da evidência clínica", pontua.

Os médicos explicam que sim, a sauna é capaz de causar uma sensação de alívio e relaxamento — a resposta subjetiva que acaba sendo interpretada como "limpeza" do corpo.

Quando o assunto é coração e circulação, a resposta é mais interessante. Giestal afirma que já existe evidência de benefícios cardiovasculares associados ao uso de sauna, sobretudo da sauna finlandesa, a versão seca e de alta temperatura. Segundo ele, durante a sessão há dilatação dos vasos, aumento da frequência cardíaca e melhora do fluxo sanguíneo, numa resposta fisiológica que lembra um exercício leve.

Mas o médico faz uma ressalva: não se trata de uma associação de causa e efeito. Ele explica que pessoas que frequentam sauna costumam ter um estilo de vida saudável, e esse contexto pode influenciar os resultados. "Na prática, a sauna pode ser vista como um complemento interessante para a saúde cardiovascular, mas não substitui exercício físico, controle de fatores de risco ou acompanhamento médico", diz.

Já Marques adota uma visão mais conservadora. Segundo ele, o principal efeito comprovado é pontual, em que a vasodilatação reduz a pressão enquanto a pessoa está na sauna, mas não há evidência consistente de benefícios duradouros. "Boa parte dos estudos sofre com viés. Quem frequenta sauna costuma já ser mais saudável", diz.

Outra ideia muito propagada entre os fãs da sauna é que ela emagrece. Mas os dois médicos discordam e apontam que a perda de peso após a sessão é basicamente água. "A pessoa sua, desidrata e observa uma redução imediata, mas esse peso tende a retornar após reidratação. Não há impacto relevante na perda de gordura corporal", diz Giestal.

É para todo mundo?

Também é importante entender que a sauna não funciona da mesma forma para todo mundo. Embora seja segura para a maioria, há contraindicações e situações que exigem cuidado, já que o calor intenso deixa o corpo sob estresse, explicam Giestal e Marques.

Giestal cita doenças cardiovasculares recentes ou não controladas, como infarto, angina instável e estenose aórtica grave. Ele também alerta para casos de pressão muito baixa, desidratação, febre e consumo de álcool antes da sessão.

Marques segue na mesma linha e acrescenta insuficiência cardíaca entre os quadros que exigem atenção. A combinação com álcool aparece como um dos principais riscos, por aumentar a chance de queda de pressão e desidratação.

Há ainda situações que pedem avaliação individual, como idosos mais frágeis, gestantes e pessoas em uso de determinados medicamentos, como diuréticos ou remédios para pressão.

Também não existe um tempo único que funcione para todos. Quem está começando deve ir aos poucos, com sessões mais curtas, de 5 a 10 minutos, e avançar conforme a tolerância. Em geral, períodos de até 15 a 20 minutos são bem tolerados por pessoas saudáveis, com hidratação adequada e sem excessos, diz Giestal.

Faz bem mesmo ou é só moda?

"Acredito que um pouco dos dois, pois tem benefício real, mas também um efeito de tendência. A sauna promove relaxamento, sensação de recuperação, melhora transitória da circulação e já conta com uma base científica em saúde cardiovascular. Ou seja, não é apenas moda", responde Giestal.

O médico ressalva, no entanto, que existe a tendência no setor do bem-estar de valorizar cada vez mais a performance e, consequentemente, o descanso, o sono e os hábitos de autocuidado no geral. "Existe fundamento fisiológico real, e o interesse atual também acompanha esse movimento de estilo de vida voltado ao bem-estar, inserido na cultura do wellness, que valoriza equilíbrio, saúde e qualidade de vida, algo que considero extremamente positivo para a saúde e a longevidade", conclui.

Já Marques, por outro lado, ainda vê a prática com um olhar mais cético. O médico aponta para a popularização do "biohacking" e táticas para a longevidade, que impulsionaram essa busca por rituais de bem-estar. "Os ganhos reais são bem limitados do ponto de vista de estudos, muito mais conceituais ou estudos de observação. Vale lembrar que boa parte dos estudos que demonstram benefício da sauna entra no viés do usuário saudável, em que pessoas mais saudáveis frequentam mais saunas, e não que a sauna faça pessoas mais saudáveis", diz.

"Um exemplo é o que ocorre na Finlândia. Quem frequenta sauna 4 a 7 vezes por semana na Finlândia? Geralmente são pessoas com maior nível socioeconômico, que têm tempo disponível, menos estresse laboral e, provavelmente, melhores hábitos alimentares. É muito difícil isolar se o benefício vem do calor ou se a sauna é apenas um marcador de um estilo de vida privilegiado e saudável. As diretrizes não recomendam intervenções onde o fator de confusão é tão alto", afirma o cardiologista.

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