Roupas de treino: desempenho pode custar saúde da pele (Getty Images)
Colaboradora
Publicado em 5 de março de 2026 às 07h06.
O exercício físico deixou de ser uma parte da rotina e se tornou um pilar de identidade que se reflete, principalmente, nas roupas de treino. Mais que confortáveis ou bonitas, elas agora precisam ser versáteis, tecnológicas, com tecidos respiráveis e, ao mesmo tempo, resistentes contra o sol, o suor, o odor e o desgaste do tempo.
No entanto, todo esse ganho em desempenho pode vir acompanhado de um custo invisível. Isso porque determinados tecidos e acabamentos químicos usados nessas roupas podem alterar o microbioma da pele, de acordo com uma reportagem do Financial Times.
A ciência tem avançado no entendimento do microbioma da pele. Não é apenas uma barreira, mas sim um ecossistema vivo, com mais de um trilhão de microrganismos, comparável em complexidade ao microbioma intestinal. Ela excreta suor e toxinas, mas também absorve o que entra em contato — na maior parte do tempo, tecidos sintéticos cheios de compostos químicos.
Durante um treino intenso, a roupa esportiva fica colada ao corpo e em contato contínuo com a pele. O calor e o suor se acumulam, enquanto o tecido carrega vários compostos químicos para repelir água e neutralizar odores, que vão desde metais pesados a antimicrobianos e formaldeído. Toda essa "mistura" pode alterar o microbioma da pele e aumentar o risco de inflamações, como dermatite e acne.
Entre os compostos mais estudados estão os PFAS — os chamados "químicos eternos", presentes em diversos tipos de roupa — e os ftalatos, plastificantes usados para dar flexibilidade e durabilidade aos tecidos. Pesquisas já documentaram riscos cancerígenos, de toxicidade reprodutiva e de desregulação endócrina dessas substâncias. Um estudo recente da Universidade de Birmingham mostrou que os PFAS conseguem atravessar a barreira da pele.
"Materiais sintéticos tendem a abrigar mais bactérias patogênicas que podem ser transferidas dos seus tecidos para a sua pele", afirmou Rosie Broadhead, cientista têxtil e fundadora da Skin Series, ao Financial Times. "Quanto mais barato o produto, mais barata a química — e é aí que surgem as preocupações com a toxicidade", disse Matthias Foessel, diretor executivo da Beyond Surface Technologies, ao jornal.
Abrir mão dos sintéticos não é tão simples. O Gore-Tex impermeável, o Lycra e o spandex elásticos, o náilon que absorve o suor — são invenções do século 20 que transformaram o esporte. Ninguém quer um sutiã esportivo sem sustentação, uma camiseta de corrida que encharca com o suor ou que não protege contra o sol. A questão é outra: como seguir batendo metas e evoluindo sem arriscar a saúde da pele?
Charles Ross, especialista em design de roupas esportivas no Royal College of Art, aponta os biopolímeros como uma das apostas mais promissoras. São moléculas de origem natural que substituem derivados do petróleo. Ainda exigem processamento químico, mas reduzem o impacto ambiental. "Embora apresentem pouca mudança para a saúde humana, são muito melhores para a saúde do planeta", disse ao Financial Times.
Derivados de resíduos agrícolas, esses materiais já aparecem em produtos como as roupas esportivas sem costura da linha 365 da Pangaia, feitas a partir de feijões de mamona. O obstáculo, diz Ross, é a escala: ainda custam mais caro do que os concorrentes petroquímicos. A expectativa é que o Acordo Verde da UE para Têxteis, previsto para 2028, deve criar incentivos regulatórios que acelerem essa transição.
O principal desafio do setor continua sendo a elasticidade. A exposição Performance without Toxicity, realizada na Mills Fabrica, em Londres, reúne parte das soluções em desenvolvimento para substituir as fibras tradicionais.
O maior produtor mundial de spandex, a sul-coreana Hyosung, desenvolveu o regen Biomax Elastane — um polímero parcialmente derivado do milho. Em breve, a empresa deve lançar uma versão baseada em cana-de-açúcar, com projeção de corte maior nas emissões de carbono.
Ainda este ano, a Lenzing deve lançar uma cápsula de ioga com misturas de Tencel, Ecovero e regen Bio Elastane. Na disputa pelo substituto do náilon, a marca japonesa Goldwin desenvolveu, em parceria com a J.L-A.L, uma jaqueta fleece livre de plástico que combina um material proteico fermentado da Spiber com a PlaX, fibra à base de plantas.
Para quem não quer esperar pela próxima geração de materiais, opções já existem. Fibras celulósicas como viscose, bambu e algodão orgânico estão disponíveis em marcas como Mover, Community Clothing, Icebreaker e BAM, que oferecem linhas de desempenho — a maioria com uma pequena dose de spandex.
A Beyond Surface Technologies, de Foessel, criou ainda dois acabamentos que controlam umidade a partir de microalgas e sementes de plantas. "Em desempenho e durabilidade, eles são equivalentes aos acabamentos derivados do petróleo", afirmou Foessel ao Financial Times.
Nos esportes aquáticos, o neoprene — feito a partir de petróleo e de difícil decomposição — começa a ser substituído pelo Yulex, uma borracha natural. Segundo a oceanógrafa e mergulhadora livre Aline Carrier, o material "oferece maior flexibilidade nos ombros e mantém melhor seu isolamento e flutuabilidade em profundidade". A alternativa já está disponível em marcas como Finisterre, Patagonia e Wallien.
Calçados representam o desafio mais complexo do setor, já que são compostos por camadas de materiais distintos e a durabilidade é inegociável. A Vivobarefoot, que defende que os tênis convencionais desconectaram biomecanicamente o pé humano do solo, investe pesado em bioalternativas. A All Birds usa SweetFoam, derivado de cana-de-açúcar, nas palmilhas da linha Tree Glider, cujos cabedais são feitos de fibras de eucalipto e as solas, de borracha natural.
A Circle Sportswear foi mais longe com o Supernatural Runner: um tênis em que 75% dos materiais têm origem biológica, que combina entressolas PLNT-Foam, lã e borracha natural.
A Skin Series parte de uma premissa diferente no setor: e se a roupa beneficiasse a saúde da pele? Com base em estudos que demonstram que o tecido cutâneo responde a pró-e prebióticos, a marca criou fios a partir de proteína de soja e fibras de algas marinhas.
Ao entrar em contato com a pele, bactérias nativas presentes nesses fios se ativam, bloqueiam odores e, segundo a empresa, estimulam a renovação celular e fortalecem o sistema imunológico da pele. A elasticidade, nesse caso, não vem do elastano, e sim da tecnologia de tricô e combinação de painéis. O resultado é uma coleção 100% natural, sem polímeros de origem fóssil.
Apesar das alternativas, ainda é difícil competir em preço com os derivados do petróleo. "São ótimos produtos, mas com pouca aplicação agora. Mas sem inovações, sem tentar algo novo, a situação nunca avançará", disse Ross ao Financial Times. A principal aposta do especialista? "Filmes não newtonianos da Rheon Labs. Trata-se de um gel macio que endurece ao receber uma força imediata: imagine caneleiras ou protetores de críquete macios para correr; ou um gorro de tricô com a mesma proteção de um capacete rígido".