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A nova aposta da Uber: safáris de carro

Serviço que permite agendar passeios no Parque Nacional de Nairóbi pelo aplicativo completa um ano sob pressão dos guias quenianos e sem a marca estampada nos veículos

Guias quenianos temem que a Uber derrube os preços e concentre a clientela dos safáris após se estabelecer no Parque Nacional de Nairóbi (Pexels)

Guias quenianos temem que a Uber derrube os preços e concentre a clientela dos safáris após se estabelecer no Parque Nacional de Nairóbi (Pexels)

Gustavo Frank
Gustavo Frank

Jonalista colaborador

Publicado em 29 de setembro de 2026 às 07h00.

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Depois de oferecer passeios de trenó na Finlândia, voos de balão na Turquia, roteiros de champanhe em vinhedos franceses e travessias pelas dunas de Dubai, a Uber levou o cardápio de experiências turísticas para a savana africana. Desde setembro do ano passado, usuários em Nairóbi podem reservar pelo aplicativo um safári no parque nacional da cidade, em veículos 4x4 conduzidos por guias licenciados, com a mesma lógica de quem chama um carro para o aeroporto.

O público-alvo inclui executivos em viagem que querem uma pausa entre reuniões, turistas de passagem pela capital antes de seguir para o interior e quenianos que moram na cidade e nunca viram de perto a fauna do país. As excursões de três horas partem de cerca de US$ 150 (aproximadamente R$ 780), e os passeios noturnos, de US$ 300 (cerca de R$ 1.560). Os guias tradicionais cobram até US$ 195 (R$ 1.014) por meio período, e visitantes de fora da África pagam ainda uma taxa de entrada de US$ 80 (R$ 416), seja qual for o canal de reserva.

O cenário ajuda a explicar a aposta. Com cerca de 117 quilômetros quadrados de savana e mata, o Parque Nacional de Nairóbi fica na borda da cidade, próximo a dois aeroportos, e reúne leões, zebras, girafas-masai e rinocerontes que podem ser fotografados com os prédios do centro ao fundo.

Carros sem adesivo

O turismo movimentou cerca de US$ 12 bilhões (R$ 62,4 bilhões) no Quênia em 2025, o equivalente a 10% do PIB do país (Pexels)

Um ano depois do lançamento, a operação segue discreta. Segundo o The Wall Street Journal, a Uber tirou sua marca das laterais dos veículos para não acirrar o conflito com os guias locais, que enxergaram na novidade uma ameaça a um ofício praticado há décadas. Imran Manji, gerente-geral da empresa na África Oriental e um dos criadores do serviço, disse ao jornal que a segurança de motoristas, guias e passageiros passou a ser prioridade diante do risco de retaliação contra carros identificados.

Boa parte da revolta inicial nasceu da suposição de que motoristas comuns do aplicativo, muitas vezes em sedãs compactos, entrariam no parque sem preparo para lidar com os animais. A Autoridade Reguladora do Turismo do Quênia esclareceu depois que apenas guias licenciados e veículos aprovados poderiam participar, de acordo com a associação da categoria, quando as ameaças contra quem aderisse já tinham se espalhado. "Ninguém teve coragem de sair com adesivos da Uber por causa da reação dos guias", afirmou ao WSJ Felix Migoya, presidente da Associação de Guias e Motoristas de Turismo da África Oriental, que reúne mil profissionais em Nairóbi.

Wilson Kuria, guia que organizou um abaixo-assinado contra o serviço, teme que a empresa derrube os preços e concentre a clientela quando estiver estabelecida no parque. Ele admite que a chegada da tecnologia ao setor parece inevitável e avalia que a iniciativa pode fracassar se a opinião dos guias for ignorada.

Demanda sem oferta

A Uber não informa quantas viagens foram feitas. A Associação de Operadores de Turismo do Quênia acredita que alguns motoristas aderiram de forma discreta, enquanto o Serviço de Vida Selvagem do Quênia, que administra o parque, diz não ter identificado veículos ligados ao projeto. Em agosto, quando grande parte dos guias segue para a Reserva Maasai Mara durante a migração de gnus e zebras, usuários esperavam até meia hora no aplicativo antes de receber o aviso de que não havia carros disponíveis, situação que se repetiu em setembro.

A empresa também precisou contornar a falta de sinal de celular em áreas do parque, distribuir smartphones aos operadores e adaptar os passeios noturnos, que exigem reserva com dias de antecedência por causa das checagens de segurança e dos limites de capacidade adotados contra a caça ilegal.

O turismo movimentou cerca de US$ 12 bilhões (R$ 62,4 bilhões) no Quênia em 2025, o equivalente a 10% do PIB, e sustenta 1,8 milhão de empregos, segundo o Conselho Mundial de Viagens e Turismo. O país é um dos quatro mercados africanos em que a Uber ainda opera, ao lado de Gana, Egito e África do Sul, depois da saída de Nigéria, Uganda, Tanzânia e Costa do Marfim. A europeia Bolt anunciou um produto semelhante logo após a rival, suspendeu os planos e afirma que pretende lançar o Bolt Safari até o fim do ano. Enquanto isso, a Uber diz que a maioria dos operadores já aceitou o serviço e concentra a divulgação no aeroporto internacional de Nairóbi.

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