Reserva Nacional de Samburu, no Quênia, entrou pela primeira vez na Not Hot List da Intrepid e recebe apenas entre 30 mil e 40 mil visitantes por ano (Reprodução/Instagram)
Jonalista colaborador
Publicado em 14 de setembro de 2026 às 17h07.
Todo ano fica mais difícil escapar das filas em pontos turísticos consagrados. Em Roma, a Fontana di Trevi reúne cerca de 30 mil pessoas por dia, volume suficiente para lotar duas vezes a arena O2, em Londres. Paris, Barcelona e Amsterdã enfrentam pressão parecida, com bairros inteiros reformulando regras de acesso para dar conta do fluxo de visitantes.
Como resposta a esse cenário, a operadora britânica Intrepid Travel divulgou a nona edição do seu relatório anual Not Hot List, reunindo dez destinos considerados prontos para receber mais turistas sem repetir os gargalos das cidades mais visitadas do mundo.
A lista foi construída em parceria com a agência de tendências de viagem Globetrender, que cruzou dados de chegadas internacionais de 2025 com informações sobre infraestrutura, conectividade aérea, hospedagem e proteção ambiental de cada região.
Os critérios de seleção seguem os mesmos das edições anteriores. Cada destino precisa receber menos visitantes do que lugares comparáveis, ter capacidade instalada para absorver um crescimento na demanda e oferecer algum motivo novo para a viagem em 2027, seja uma rota aérea recém-aberta, um evento cultural ou uma trilha inaugurada.
A reserva queniana abriga a girafa reticulada, uma das espécies que formam os "Cinco Especiais de Samburu" (Pexels)
O primeiro lugar do ranking é a Reserva Nacional de Samburu, no Quênia, que recebe entre 30 mil e 40 mil visitantes por ano, uma fração dos 300 mil turistas que passam anualmente pela Reserva Nacional de Maasai Mara, no mesmo país. A região abriga espécies pouco vistas em outros parques quenianos, reunidas no que os guias locais chamam de "Cinco Especiais de Samburu": a girafa reticulada, a zebra de Grevy, o avestruz somali, o órix da Somália e o gerenuco, antílope de pescoço longo.
Na Geórgia, a cidade montanhosa de Mestia também entrou na lista pela combinação entre paisagem preservada e nova infraestrutura de acesso. O guia local Merab Mchedliani, que atua na região, descreve os moradores de Svaneti como pessoas dedicadas a fazer os visitantes se sentirem acolhidos. A Intrepid lançou uma trilha de nove dias pela Transcaucasian Trail, que passa pela geleira Chalaadi antes de seguir até a vila de Ushguli, aos pés do Monte Ushba.
Outro nome que chamou atenção foi Whitehorse, no território canadense de Yukon. Segundo o CEO da Intrepid, James Thornton, dos mais de 20 milhões de visitantes internacionais que chegaram ao Canadá em 2025, apenas cerca de 700 mil, ou 3,5% do total, seguiram até Yukon. Para Thornton, a inclusão de um país considerado tradicional mostra que ainda existem regiões pouco exploradas mesmo dentro de destinos já consolidados no mapa turístico global.
Na América do Sul, a Carretera Austral, no Chile, aparece como alternativa às rotas mais concorridas da Patagônia. São 1.240 quilômetros de estrada cortando fiordes, geleiras e florestas na porção sul do país, um trajeto que segue pouco percorrido se comparado a outros pontos turísticos chilenos.
Liepāja, na Letônia, será Capital Europeia da Cultura em 2027 e deve receber mais de 500 eventos culturais ao longo do ano (Wikimedia Commons)
A cidade portuária de Liepāja, na Letônia, foi eleita Capital Europeia da Cultura de 2027 e deve sediar mais de 500 eventos culturais ao longo do ano. Em 2025, a cidade registrou 119.840 pernoites de turistas, número que a operadora espera ver crescer com a programação cultural e a diversificação do turismo letão, hoje concentrado majoritariamente em Riga.
Já a região de Dalsland, na Suécia, ficou mais acessível depois da inauguração de uma conexão ferroviária direta de 600 quilômetros entre Malmö e Oslo, em junho de 2026. A chamada "região dos lagos" sueca recebeu 320 mil visitantes em 2025, contra quase 16 milhões registrados em Estocolmo no mesmo período.
A lista ainda inclui o Pekoe Trail, no Sri Lanka, trilha que atravessa plantações de chá e florestas de neblina no centro do país, e as terras altas do norte da Jordânia, região com pousadas administradas por comunidades locais e projetos de turismo de base comunitária. Dili, capital do Timor-Leste, e a ilha grega de Alonnisos, conhecida por abrigar uma população de focas-monge em risco de extinção, fecham a seleção de 2027.
A gerente-geral de experiências da Intrepid, Erica Kritikides, afirmou que o objetivo do relatório é ajudar viajantes a repensar como e para onde viajam. A operadora cita como referência o efeito de edições anteriores da lista: depois que a região paquistanesa de Gilgit-Baltistan apareceu no ranking, as reservas da empresa para o destino cresceram 67%, enquanto as reservas para o Quirguistão subiram 62% após sua inclusão em anos anteriores.