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A joalheria italiana que quer construir o próximo grande grupo de luxo

Fundada em 1924 e nunca vendida a um conglomerado, a Damiani comprou a Baume & Mercier da Richemont e sinaliza que tem um plano diferente para crescer

Fachada da boutique da Damiani em Milão; o grupo opera mais de 140 pontos de venda em Europa, Ásia, Oriente Médio e Américas (Divulgação)

Fachada da boutique da Damiani em Milão; o grupo opera mais de 140 pontos de venda em Europa, Ásia, Oriente Médio e Américas (Divulgação)

Gustavo Frank
Gustavo Frank

Jonalista colaborador

Publicado em 29 de junho de 2026 às 10h15.

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Em 2019, os irmãos Guido, Silvia e Giorgio Damiani retiraram a empresa da família da Bolsa de Milão. Desde o IPO, em 2007, as ações haviam perdido mais de 75% do valor. A família pagou cerca de 0,855 euros por ação no processo de recompra, encerrou o ciclo como empresa aberta e passou a operar sob uma estratégia de crescimento própria.

A Damiani foi fundada em 1924 em Valenza, no Piemonte, região que concentra a maior tradição de ourivesaria da Itália. Enrico Grassi Damiani começou com uma oficina artesanal; seu filho Damiano a transformou nos anos 1960 ao introduzir preços fixos e catálogos ilustrados, práticas incomuns no setor na época. Hoje, na terceira geração, os três irmãos comandam um grupo que inclui as marcas de joalheria Salvini, Bliss, Calderoni, a vidraria artística Venini de Murano e a rede multimarca Rocca, além da própria Damiani.

O grupo fechou o ano fiscal encerrado em março de 2025 com receita consolidada superior a 380 milhões de euros, crescimento de mais de 10% sobre o exercício anterior, num contexto em que o mercado de luxo global registrou desaceleração generalizada.

Fora da lógica dos conglomerados

Damiani

Os irmãos Guido, Silvia e Giorgio Grassi Damiani, terceira geração à frente do grupo italiano fundado em 1924 em Valenza, no Piemonte (Divulgação)

Enquanto a maior parte das grandes marcas de joalheria e relojoaria de alto padrão foi absorvida ao longo das últimas décadas pela LVMH, pela Richemont ou pela Kering, a Damiani nunca aceitou uma oferta de venda. É a única empresa de joalheria com mais de cem anos de história ainda controlada integralmente pelos herdeiros do fundador. Essa independência, que num primeiro momento pareceu uma limitação de escala, tornou-se uma vantagem de posicionamento num mercado cada vez mais concentrado.

O crescimento após a saída da bolsa foi sustentado por três vetores: expansão internacional, fortalecimento da operação própria e uma série de aquisições de marcas com histórico relevante. A rede Rocca, comprada por 7 milhões de euros em 2008, se tornou um dos pilares da distribuição multimarca do grupo. A Venini, adquirida em 2016, diversificou o portfólio para além da joalheria. A empresa acumula 18 prêmios Diamonds International Awards, o maior reconhecimento global em alta joalheria.

A Baume & Mercier como ponto de inflexão

Baume & Mercier

O Clifton Baumatic, um dos modelos mais vendidos da Baume & Mercier, relojoaria suíça fundada em 1830 que a Damiani deve incorporar ao seu portfólio ainda em 2026 (Divulgação)

Em janeiro de 2026, a Damiani anunciou a aquisição da Baume & Mercier, relojoaria suíça com quase 200 anos de história, até então pertencente à Richemont. Os termos financeiros não foram divulgados. Para a Richemont, que vinha tentando reposicionar a marca no segmento de luxo acessível sem sucesso, a venda refletiu uma estratégia de concentração em marcas do alto padrão, como Cartier e Van Cleef & Arpels. A Baume & Mercier registrava receita estimada de 100 milhões de euros e resultado operacional negativo dentro do grupo suíço.

Para a Damiani, a operação representa um passo relevante, uma vez que a Baume & Mercier tem forte presença na Itália e opera principalmente via distribuição multimarca, modelo já dominado pelo grupo através da Rocca. A aquisição, cujo fechamento está previsto para os próximos meses, adiciona manufatura suíça ao portfólio italiano e expande o grupo para um segmento de relojoaria no qual tinha presença limitada. A Richemont permanecerá prestando serviços operacionais à Baume & Mercier por pelo menos 12 meses após a conclusão do negócio.

Portfólio em expansão

O grupo planeja usar sua rede de distribuição para ampliar a visibilidade da Baume & Mercier, além de abrir boutiques monomarca em localizações estratégicas ao longo do tempo. A movimentação insere a Damiani numa categoria distinta: em um grupo multimarca com ativos em joalheria, relojoaria, vidro artístico e distribuição de luxo.

A estrutura lembra, em escala reduzida, o modelo dos grandes conglomerados, mas com uma diferença de gestão que a família faz questão de preservar. "Somos a única empresa internacional de joalheria com um século de história ainda totalmente gerida pelos herdeiros do fundador", afirma o grupo em seu posicionamento institucional.

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