Álbum de família da Catena Zapata: divergências familiares (Pedro Fadanelli/Divulgação)
Especialista em vinhos
Publicado em 16 de agosto de 2026 às 10h00.
Em São Paulo, poucos dias depois do Dia dos Pais, Giuliana Ferreira, embaixadora da Catena Zapata no Brasil, abriu cinco garrafas para uma pequena mesa de convidados. Três delas contavam uma história que atravessa quatro gerações e, de certa forma, cada uma carregava no rótulo uma discordância familiar que ajudou a mudar o vinho argentino.
Talvez a mais simbólica seja a garrafa dedicada a Nicola Catena, o bisavô. O rótulo conta a história em espanhol: “Contam que meu bisavô Nicola preferia a Bonarda, enquanto seu filho mais velho, meu avô Domingo Vicente, se inclinava pelo Malbec.” A frase é assinada por Laura Catena, hoje um dos principais nomes da quarta geração da família.
Poucos rótulos de vinho começam contando uma divergência entre pai e filho. Esse começa.
Nicola Catena deixou a Itália no fim do século 19 e se estabeleceu em Mendoza. Em 1902, plantou seu primeiro vinhedo de Malbec, quando dificilmente alguém poderia imaginar que aquela uva se tornaria, décadas depois, praticamente sinônimo do vinho argentino.
Existe, porém, um detalhe interessante nessa história: Nicola tinha uma predileção pessoal pela Bonarda, variedade que durante décadas ocupou um papel importante nos vinhedos argentinos, normalmente associada a vinhos de consumo cotidiano.
Enquanto o Malbec se tornava progressivamente parte da história comercial da família, a Bonarda permanecia ligada ao gosto pessoal de Nicola. Mais de um século depois, seu nome voltou para uma garrafa.
O Nicola Catena Bonarda é elaborado a partir de uma parcela histórica da família, com vinhas antigas e baixos rendimentos, e passa 18 meses em carvalho francês. Na taça, a história ganha outro significado. Não é apenas uma homenagem ao fundador, mas a recuperação de uma preferência que atravessou gerações sem desaparecer.
Talvez esse seja um dos aspectos mais interessantes das empresas familiares longevas. Nem tudo precisa virar produto imediatamente. Algumas ideias simplesmente precisam sobreviver tempo suficiente para encontrar seu momento.
Domingo Vicente, filho mais velho de Nicola, casou-se com Angélica Zapata em 1934, união que ajudaria a formar o nome pelo qual conhecemos a vinícola hoje. O rótulo da garrafa que leva suas iniciais recupera justamente esse momento: seu desenho foi inspirado no convite de casamento de Domingo e Angélica, preservando elementos da tipografia e da estética daquele documento familiar.
Domingo também levou o negócio iniciado pelo pai a outra escala e ficou conhecido pela habilidade de combinar vinhos de diferentes parcelas.
Mas uma das histórias que melhor o define aconteceu anos depois. Durante um período de forte instabilidade econômica na Argentina, o custo para colher as uvas havia se tornado maior do que o valor que elas poderiam gerar. Nicolás Catena, seu filho, formado em economia, fez as contas e recomendou que o pai simplesmente não colhesse naquele ano.
Domingo ouviu e colheu mesmo assim. A decisão dificilmente caberia em uma planilha. Para ele, abandonar a vinha porque aquela safra não fazia sentido financeiramente significava colocar em risco algo construído durante décadas.
A garrafa DV Catena que provamos em São Paulo parece carregar um pouco dessa lógica. É um Malbec elaborado a partir de uvas de dois vinhedos históricos da família, Angélica e La Pirámide. Não se trata apenas da variedade, mas da combinação entre lugares diferentes, uma continuação da forma como Domingo entendia o vinho. Algumas gerações são lembradas por romper. Outras, por sustentar.
A história muda novamente com Nicolás Catena. No início dos anos 1980, durante um período como professor visitante na Universidade da Califórnia, em Berkeley, ele acompanhou de perto o que estava acontecendo em Napa Valley.
Produtores californianos começavam a mostrar que Cabernet Sauvignon e Chardonnay feitos fora da Europa poderiam disputar espaço entre os grandes vinhos do mundo. Nicolás voltou para Mendoza convencido de que a Argentina poderia seguir um caminho semelhante.
A decisão seguinte mudaria a trajetória da família. Ele começou a abandonar o modelo baseado em grandes volumes de vinho de mesa para concentrar esforços em vinhos de maior qualidade. Depois veio outra aposta. No início dos anos 1990, a família avançou para zonas cada vez mais altas de Mendoza e, em Tupungato, a quase 1.500 metros de altitude, nasceu o vinhedo Adrianna, batizado em homenagem à filha caçula de Nicolás.
Naquele momento, plantar uvas naquela altitude parecia uma decisão pouco óbvia e havia dúvidas até sobre a capacidade de amadurecimento das uvas.
O tempo mostrou outra coisa. Adrianna se transformaria em uma das propriedades mais importantes da família e ajudaria a colocar no centro da discussão algo que hoje parece natural quando falamos de Mendoza: altitude, temperatura, solos e parcelas específicas importam tanto quanto a variedade plantada.
Curiosamente, apesar de toda a associação que posteriormente se formaria entre Catena e Malbec, uma das grandes ambições pessoais de Nicolás era o Cabernet Sauvignon. Ele queria provar que a Argentina também poderia produzir um Cabernet capaz de ser colocado à mesa ao lado de grandes tintos internacionais.
No final dos anos 1990 nasceu o Nicolás Catena Zapata, inicialmente construído majoritariamente sobre Cabernet Sauvignon, acompanhado por uma pequena parcela de Malbec. A mensagem era clara: o objetivo já não era apenas produzir um grande vinho argentino. Era produzir um grande vinho, independentemente da origem.
Entre os vinhos daquela noite em São Paulo estava também uma interpretação recente dessa história: o Nicolás Catena Zapata A Resurrection and Homage to the Pre-Phylloxeric Blend, safra 2021. O projeto parte de seleções massais de vinhas não enxertadas e olha para um período anterior à filoxera, a praga que transformou profundamente a viticultura europeia no século 19.
Há algo interessante nessa inversão. Durante muito tempo, produtores do chamado Novo Mundo olharam para a Europa tentando entender como reproduzir seus grandes vinhos.
Aqui, a lógica é outra. O olhar continua voltado para a Europa, mas para uma Europa que praticamente deixou de existir. De certa forma, é a mesma inquietação que levou Nicolás à Califórnia quarenta anos antes: olhar para fora para entender melhor o que poderia ser feito em Mendoza.
Ao final da degustação, fiquei pensando menos nas diferenças entre as garrafas e mais no que elas diziam sobre a família. Nicola, Domingo e Nicolás não repetiram exatamente o caminho de quem veio antes.
Nicola começou uma história com o Malbec, embora guardasse uma predileção pela Bonarda. Domingo expandiu o negócio e, em um momento difícil, preferiu colher quando os números diziam o contrário. Nicolás mudou novamente a direção da empresa, reduziu o foco em volume e começou a procurar lugares onde até o amadurecimento das uvas era colocado em dúvida.
Três gerações, três momentos diferentes e três maneiras de carregar o mesmo sobrenome. Talvez seja essa uma das partes mais difíceis da sucessão familiar e uma das menos discutidas. Herdar não significa necessariamente continuar fazendo aquilo que seu pai fazia. Às vezes, preservar um legado exige justamente ter liberdade para discordar dele e, ainda assim, continuar colocando o mesmo nome na garrafa.