Carreira

O problema não é a Geração Z ou os 60+: é a sua vaga

Antes de perguntar por que as pessoas não se adaptam às nossas vagas, talvez seja hora de perguntar se as nossas vagas se adaptaram às pessoas e aos novos tempos

Mercado de trabalho: "Não há motivo para preservar trabalho inútil apenas para treinar alguém. Mas, se retirarmos os primeiros degraus da escada, teremos de criar outra maneira de ensinar alguém a subir", escreve Rodrigo Dib (Paulo Whitaker/Reuters)

Mercado de trabalho: "Não há motivo para preservar trabalho inútil apenas para treinar alguém. Mas, se retirarmos os primeiros degraus da escada, teremos de criar outra maneira de ensinar alguém a subir", escreve Rodrigo Dib (Paulo Whitaker/Reuters)

Rodrigo Dib
Rodrigo Dib

Especialista em mercado de trabalho

Publicado em 17 de setembro de 2026 às 11h31.

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Em praticamente todo fórum de que participo, o papo acaba chegando ao mesmo lugar: geração Z, CLT, inteligência artificial, gente mais velha no mercado e tecnologia substituindo humanos. Talvez tenhamos falado demais sobre gerações e pouco sobre o problema real: continuamos desenhando vagas para um trabalhador padrão que já não existe.

De um lado, temos jovens chegando ao primeiro emprego com enorme familiaridade com tecnologia, mas com lacunas importantes de formação. O PISA 2025, divulgado agora em setembro, mostra uma contradição interessante: 48% dos estudantes brasileiros de 15 anos relataram usar chatbots de IA pelo menos uma vez por semana para aprender, mas apenas 28% alcançaram pelo menos o nível básico de proficiência em matemática. Em leitura, foram 49%.

A tecnologia chegou mas a base não.

E esse jovem entra num mercado que automatiza justamente parte das tarefas pelas quais gerações anteriores aprenderam a trabalhar. Pesquisa, planilha, relatório, tentativa, erro, correção. Não há motivo para preservar trabalho inútil apenas para treinar alguém. Mas, se retirarmos os primeiros degraus da escada, teremos de criar outra maneira de ensinar alguém a subir.

Além disso, precisamos olhar para a vaga que estamos oferecendo.

Uma pesquisa nacional realizada pelo Instituto Locomotiva para o CIEE, com mais de 8 mil jovens de 14 a 24 anos, mostrou que oportunidade de crescimento é o principal fator para escolher uma empresa, citada por 54%. Boa remuneração e benefícios aparecem depois, com 43%, e ambiente de trabalho agradável, com 31%. Além disso, 98% dizem querer trabalhar em organizações que incentivam seu desenvolvimento profissional.

Não é exatamente o retrato da geração que “não quer nada”, como eu canso de repetir por aí.

Mas quero ir além dos jovens.

Na outra ponta, o Brasil tinha 22,2 milhões de pessoas com 60 anos ou mais em 2012. Em 2024, eram 34,1 milhões, crescimento de 53,3%. Esse grupo já representa 19,7% da população brasileira em idade de trabalhar.

E existe algo que deveria chamar nossa atenção. No segundo trimestre de 2025, a informalidade era de 40,1% entre trabalhadores de 18 a 24 anos e chegava a 53,3% entre os 60+. Entre 25 e 39 anos, era de 34%. As duas pontas da vida profissional estão justamente entre as mais expostas à informalidade.

Talvez o erro esteja em continuar olhando para essas pessoas como gerações antes de enxergá-las como pessoas em diferentes momentos da vida.

Uma pessoa de 20 anos começando a carreira, uma mãe de 35 retornando ao mercado, alguém de 48 mudando de profissão e um profissional de 65 que quer ou precisa continuar trabalhando podem até realizar a mesma função. Mas dificilmente chegarão a ela com as mesmas necessidades, disponibilidade, repertório e expectativa.

O curioso é que as empresas entendem perfeitamente esse raciocínio quando querem vender.

'Desempacotar' a vaga

Nenhuma grande empresa trata um consumidor de 20 anos, uma mãe de 35 e alguém de 65 como se fossem exatamente a mesma pessoa. Estuda comportamento, renda, necessidade, canal, ocasião de consumo. Muda produto, comunicação, experiência e até a forma de pagamento.

Somos sofisticados para entender consumidores e ainda muito padronizados para entender trabalhadores.

Quando chega a hora de contratar, muitas vezes fazemos o caminho inverso. A vaga vem praticamente pronta: oito horas, cinco dias por semana, determinada jornada, determinado modelo de gestão, determinada expectativa de carreira. Depois procuramos alguém que caiba nela.

E, quando o encaixe não acontece, culpamos a geração.

Geração Z não quer trabalhar.” “O profissional mais velho não entende de tecnologia.” “Jovem não fica.” “60+ não acompanha mudança.”

São atalhos que transformam a idade em personalidade.

Não estou defendendo criar “vaga para jovem” e “vaga para velho”. Isso seria apenas substituir um estereótipo por outro.

Estou propondo desempacotar a vaga. Isso é flexibilidade real.

Primeiro, entender o que realmente precisa ser feito. Quais competências são indispensáveis? O que exige presença física? Qual jornada a operação realmente necessita? Quanto de autonomia é possível? Quanto acompanhamento aquela pessoa precisa? Existe mais de uma maneira de entregar o mesmo resultado?

Depois, olhar para quem pode fazer esse trabalho.

Um jovem começando provavelmente precisará de mais acompanhamento, formação, feedback e perspectiva de crescimento. Estágio e aprendizagem fazem ainda mais sentido num mundo em que a IA começa a retirar tarefas que antes serviam como degraus de formação.

Um profissional mais experiente pode buscar autonomia, previsibilidade, contato com pessoas ou simplesmente uma oportunidade de continuar produzindo e usando o repertório que acumulou.

Pense num supermercado. Por que uma posição de atendimento ou caixa precisa ser imaginada automaticamente para um jovem? Um profissional maduro pode ter exatamente o repertório, a disponibilidade e o interesse que aquela operação procura. Em outra função, o jovem pode ser excelente, desde que encontre alguém disposto a formá-lo.

E vale para quem estuda, para quem tem filhos, para quem está mudando de carreira e para quem quer continuar trabalhando depois dos 60.

A função pode ser a mesma. Jornada, autonomia, formação, acompanhamento e expectativa de carreira não precisam ser e isso não tem a ver com idade e sim com momento de vida. Pessoas da mesma idade podem estar em momentos de vida absolutamente opostos.

Eu começaria por três movimentos simples: descrever vagas pelas competências realmente necessárias, e não por um perfil imaginário de trabalhador; admitir formatos diferentes para realizar o mesmo trabalho quando a operação permitir; e cobrar dos gestores duas responsabilidades que estamos abandonando, formar quem começa e aproveitar melhor quem já percorreu muita estrada.

Isso não significa adaptar qualquer vaga a qualquer pessoa. Há trabalhos que exigem presença, horários e competências específicas. Significa apenas parar de transformar hábitos antigos de contratação em requisitos que ninguém mais questiona.

O mercado mudou. A população mudou. A tecnologia mudou. As pessoas vivem, estudam, cuidam dos filhos, envelhecem e constroem carreira de formas diferentes.

Talvez a vaga também precise mudar.

Falar sobre o futuro do trabalho não é falar de jovem. É falar de todos nós.

Antes de perguntar por que as pessoas não se adaptam às nossas vagas, talvez seja hora de perguntar se as nossas vagas se adaptaram às pessoas e aos novos tempos.

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