Carreira

Na era da IA, o que vai diferenciar um profissional? CEO e CHRO apontam as habilidades mais valiosas

André Turquetto e Alejandra Nadruz apontam as habilidades que devem ganhar espaço no mercado de trabalho durante o Clube CHRO da EXAME

André Turquetto, CEO da Veloe, e  (Exame/Divulgação)

André Turquetto, CEO da Veloe, e (Exame/Divulgação)

Publicado em 17 de setembro de 2026 às 06h02.

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Quanto mais a inteligência artificial avança sobre tarefas antes executadas exclusivamente por profissionais, mais uma pergunta ganha espaço dentro das empresas: o que continuará diferenciando uma pessoa no mercado de trabalho?

Para André Turquetto, CEO da Veloe, parte da resposta pode estar justamente em competências que não costumavam ocupar o centro dos currículos corporativos.

“A comunicação é fundamental. Você escrever bem, falar bem, corretamente, se explicar, conseguir ter clareza nas coisas que você passa”, afirma o executivo.

Ao lado dessa capacidade, Turquetto aposta em profissionais capazes de construir pensamento próprio.

“Pessoas com capacidade de pensar diferente das outras. Porque pensar com uma manada é o que mais tem”, diz. Para ele, uma sociedade marcada pela velocidade das redes sociais e pelo consumo de conteúdos cada vez mais curtos pode tornar a capacidade de aprofundamento ainda mais relevante.

A avaliação foi feita durante o Clube CHRO, realizado pela EXAME em 27 de agosto, no restaurante Rubayat, em São Paulo. O encontro reuniu executivos de recursos humanos para discutir os desafios da liderança e contou também com a participação de Alejandra Nadruz, CHRO da Starian.

Participantes do Clube CHRO em São Paulo: CEO e CHRO ficam na mesma mesa e comentam os desafios atuais e futuros do mercado de trabalho (Exame/Divulgação)

O novo luxo profissional pode ser o repertório

A discussão sobre o futuro do trabalho levou Turquetto a defender algo aparentemente distante do universo corporativo: um mergulho maior em áreas como artes e humanidades.

Segundo o CEO, profissionais capazes de se instruir continuamente e construir repertório por meio da literatura, história, filosofia, música e artes podem ganhar importância conforme tarefas mais racionais são incorporadas pela tecnologia.

“Pessoas que têm capacidade de se auto-instruir e mergulhar nas humanidades, nas artes, seja qual for: tocar um violão, uma flauta, fazer uma pintura, ir a um museu, entender uma obra de arte”, afirma.

Para ele, esse repertório pode se tornar uma espécie de “luxo” profissional.

“As humanidades não [vão sumir]. Eu tendo a acreditar que ciências sociais, antropologia, história, filosofia são as áreas do conhecimento que vão ser o verdadeiro luxo daqui para frente”, afirma Turquetto.

Para o CEO, o luxo vai ser vai ser tempo, vão ser as humanidades de uma maneira geral.

"Porque compreender o ser humano, entender a partir do ser humano é onde se gera valor. O resto vai ser comoditizado.”

A tese também passa pela forma como as empresas recrutam.

Na avaliação do CEO, insistir sempre nos mesmos perfis — profissionais da mesma indústria, com experiências semelhantes e trajetórias previsíveis — pode limitar a capacidade das organizações de encontrar novas respostas.

“O quanto muitas vezes a gente não quer tomar risco porque fica insistindo nas mesmas figuras, porque o cara é da indústria, porque o cara tem um track record aqui. [...] Você vai querer tirar fórmulas diferentes de uma coisa que é requentada?”, afirma.

Para a CHRO, adaptabilidade será mais importante

Na visão de Alejandra Nadruz, o profissional do futuro também precisará aprender a conviver com mudanças constantes.

A executiva cita o conceito de growth mindset (mentalidade de crescimento) como uma das características que podem ganhar importância.

“As pessoas vão precisar ter esse growth mindset, sem dúvida nenhuma. Esse que fracassa e se levanta. Mas fracassa de novo e se levanta. Fracassa de novo e se levanta. Muita coragem. Porque o mundo está ficando mais complexo”, afirma.

Essa percepção já interfere nas contratações da Starian, empresa de tecnologia.

O avanço da inteligência artificial, segundo Nadruz, está mudando o perfil comportamental buscado pela empresa, especialmente entre profissionais de tecnologia.

“O perfil muda das pessoas que a gente está contratando. Na parte comportamental: adaptabilidade, learning agility, ambidestria”, afirma. A transformação chegou também às posições de gestão. “Temos líderes que são totalmente híbridos. Eles lideram AIs e lideram seres humanos no momento.”

A resistência à IA veio justamente da tecnologia

A experiência da Starian também mostra que a adoção da inteligência artificial dentro das empresas nem sempre segue o caminho mais óbvio.

Nadruz conta que a companhia chegou a se declarar uma empresa “AI first”, mas percebeu uma reação inesperada entre os funcionários.

“A gente chegou, se declarou: a gente é AI first. Somos uma empresa com uma cultura AI first. Agora a gente deve se retratar disso, porque sabe uma interpretação que os colaboradores fizeram? ‘Se vocês são AI first, vocês não são people first’. Olha os trade-offs e os dilemas das coisas”, afirma.

Outro paradoxo apareceu na adoção das ferramentas.

Segundo a CHRO, inicialmente foram justamente profissionais de tecnologia que apresentaram maior resistência à IA, enquanto áreas como vendas, marketing e experiência do cliente demonstravam interesse maior.

“No início, foram meus desenvolvedores os que mais tiveram resistência ao uso de inteligência artificial”, afirma. Após anos de letramento e investimento em ferramentas, segundo Nadruz, o cenário mudou e a área passou a apresentar alta adoção da tecnologia.

Carreira internacional exige mais do que inglês

A adaptabilidade defendida por Nadruz vem também da própria trajetória.

A executiva, que nasceu no Paraguai, vive há 18 anos no Brasil e construiu uma carreira internacional que passou por diferentes mercados. Ao falar sobre profissionais que desejam trabalhar fora do país, ela faz um alerta: dominar outro idioma ou acumular conhecimentos técnicos pode não ser suficiente.

“As pessoas, quando começam a pensar em uma carreira internacional, começam muito por hard skill: ‘vou aprender inglês, vou aprender esta metodologia’. Se sustenta muito mais com inteligências comportamentais”, afirma.

Entre elas, Nadruz cita a capacidade de se adaptar, interpretar diferentes cenários e abandonar certezas diante de novos contextos.

“Uma carreira internacional se sustenta muito mais pelo comportamental do que pelo técnico”, afirma.

O CEO precisa cuidar de gente - e do futuro

A discussão sobre habilidades humanas também chega ao topo das organizações.

Turquetto passou a maior parte da carreira no setor financeiro, com experiências em instituições como Citibank, BankBoston, Itaú e BlackRock. Embora nunca tenha trabalhado formalmente no RH, diz que a cadeira de CEO o aproximou definitivamente da gestão de pessoas.

Para ele, existem duas atribuições essenciais para quem ocupa o comando de uma empresa.

“Tem duas funções básicas do CEO: cuidar de gente e cuidar de futuro. E tudo se encaixa nisso”, afirma.

Cuidar de gente, segundo o executivo, significa reunir profissionais competentes em torno de um projeto comum. Cuidar do futuro significa questionar até mesmo aquilo que atualmente funciona.

“Transformar o futuro questionando o presente. Que presente? Mais difícil [é] o presente que está dando certo”, afirma.

Essa liderança, porém, não deveria significar controlar como cada funcionário executa o trabalho.

Turquetto defende uma espécie de “liberdade guiada”, na qual autonomia e cobrança coexistem.

“Não é um contrato de permissividade nem licença para ser medíocre. É o contrário. Uma liberdade guiada, mas é uma liberdade que você exerce na confiança”, afirma.

CEO e RH precisam olhar juntos para o futuro

Para Nadruz, é justamente nesse ponto que a relação entre CEO e CHRO ganha importância.

A executiva afirma que projetos de cultura não deveriam ficar restritos ao departamento de recursos humanos. Em uma experiência anterior de parceria com um CEO, diz que os processos de RH podiam ser delegados, mas a responsabilidade pelas pessoas continuava compartilhada.

“Um projeto de cultura não é um projeto da área de gente. O projeto de cultura é um projeto da liderança, de gente e cultura e de recursos humanos”, afirma a CHRO.

Ela também vê o RH como contraponto à pressão de curto prazo que recai sobre o principal executivo.

“A conversa da liderança de gente e cultura com o CEO precisa falar de gente e precisa falar de futuro, porque o CEO é extremamente demandado pelo presente”, afirma. “Demandado por entregar resultado do mês, por entregar resultado do ano, por bater a meta do ano. E eu acho que o RH tem que dar as condições para que ele pense no futuro. Essa é a melhor proposta de valor que um RH pode dar.”

No fim do encontro, os dois executivos resumiram essa relação em duas palavras.

Questionada sobre o que o RH espera de um CEO, Nadruz respondeu: “corresponsabilidade”.

Quando a pergunta foi invertida, Turquetto escolheu “transparência”.

“No sentido de honestidade absoluta, de dizer o que precisa ser dito”, afirmou o CEO. “Isso é difícil. E aí só se faz na confiança.”

Empresas presentes no clube CHRO SP (agosto/2026):

O evento contou com a presença de nomes de peso no cenário corporativo brasileiro, com representantes de empresas como:

  • AGV
  • Alelo
  • BTG Pactual
  • CI&T
  • CIATC
  • Copastur
  • Direcional Engenharia
  • Elofy by Zucchetti
  • Eztec
  • Grupo Fleury
  • Hugo Boss
  • Michael Page
  • Oitchau
  • Stone
  • We Capital 

Veja imagens do Clube CHRO em São Paulo (agosto/2026):

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