André Turquetto, CEO da Veloe: “O CEO tem duas funções básicas: cuidar de gente e cuidar de futuro” (Exame/Divulgação)
Repórter
Publicado em 17 de setembro de 2026 às 06h01.
Toda carreira cobra seus pedágios. Para André Turquetto, CEO da Veloe, um dos mais caros apareceu justamente quando ele conquistou a posição que havia buscado: a cadeira de CEO.
Depois de construir uma carreira de décadas no mercado financeiro, com passagens por instituições como Citibank, BankBoston e BlackRock, Turquetto decidiu que estava pronto para assumir a liderança da Veloe em fevereiro de 2011.
Era fevereiro de 2021 quando ele próprio levantou a mão para a posição e apresentou ao grupo um plano para integrar os negócios de mobilidade e gestão de frotas.
A conquista, no entanto, veio acompanhada de uma cobrança que ele mesmo impôs.
“Veio uma autocobrança desumana. Eu pensava que eu não poderia falhar com esses caras que confiaram em mim, e nem com as pessoas que estão lá na Veloe e me receberam. Não posso, não é permitido,” conta Turquetto.
O resultado foi uma combinação de ansiedade, pressão e sinais físicos de que algo não estava bem.
Turquetto contou a história durante um encontro do Clube CHRO, realizado em 27 de agosto, em São Paulo, no restaurante Rubayat, diante de C-levels de recursos humanos, com patrocínio da Alelo e da Elofy by Zucchetti.
Participantes do Clube CHRO em São Paulo: evento realizado pela EXAME reúne C-Levels de RH para debater e compartilhar ideias do setor (Exame/Divulgação)
O limite chegou durante um evento para cerca de 150 executivos C-level, em Foz do Iguaçu.
Turquetto estava no palco para uma apresentação de apenas cinco minutos quando desmaiou.
“No meio de um pitch bobo de cinco minutos, eu não consegui, desconectei mesmo. Eu desmaiei na frente de todos, fiquei sem chão. Eu tinha uma certa consciência, mas zero controle. E assusta, porque eu nunca tinha passado por isso,” diz.
Na época, segundo o executivo, burnout ainda não fazia parte das conversas sobre trabalho com a frequência de hoje.
“Eu não sabia o que era burnout, naquela época não se falava disso. E quando você vive a coisa ali, é muito impactante.”
O primeiro sentimento não foi apenas medo. Foi vergonha.
Diante de uma plateia formada por outros executivos, Turquetto acreditou que aquele episódio poderia comprometer a imagem profissional que havia construído durante anos.
“O primeiro efeito foi a vergonha. Pensei na minha reputação sendo arranhada na frente de todos,” diz.
A reação imediata foi querer sair do evento. A esposa, Patrícia, que acompanhava a apresentação, o convenceu a permanecer.
“Ela só olhou para mim e falou assim: ‘Você não vai embora, você fica, porque vai ser importante você ficar’.”
O executivo ficou e depois disso começou a olhar para a liderança com um novo olhar.
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A compreensão do que havia acontecido demorou mais.
Turquetto conta que levou tempo até conseguir separar o episódio de uma suposta perda de reputação. Com terapia, passou a enxergar o acontecimento de outra forma.
“Hoje eu entendo que não foi uma crise reputacional. Aquilo foi uma crise do meu ego. Não tinha a ver com reputação.”
A partir daí, decidiu fazer algo que poderia parecer contraditório para um executivo preocupado com a própria imagem: contar o que havia acontecido.
Primeiro, compartilhou a experiência com o grupo executivo durante um team building. Depois, levou a história aos liderados. “Contei a história inteira, o que eu sentia, o que eu vivia.”
Segundo Turquetto, a reação foi diferente daquela que temia.
“Eu só senti conexão absoluta. ‘Ah, se esse cara está dizendo, está contando aqui tudo isso, cara, por que não eu?’ Aí você fica sabendo da história de N pessoas iguais a você.”
A experiência também mudou sua interpretação sobre vulnerabilidade no ambiente corporativo.
“Vulnerabilidade sai do livro, texto e vai para o dia a dia. O que é vulnerabilidade? Você dizer a real, falar as coisas que aconteceram, se abrir, colocar os problemas", diz o CEO. “Chamar para a ação e dividir isso fortalece a liderança e fortalece o grupo.”
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A crise não surgiu isoladamente. Anos antes, Turquetto já havia sentido o impacto físico e mental de uma rotina internacional intensa.
Na BlackRock (gestora de investimentos), ocupou posições com responsabilidades sobre diferentes mercados e uma agenda marcada por deslocamentos entre países.
O que no início parecia sedutor (viagens, contatos com executivos globais e exposição a grandes nomes do mercado) passou a cobrar um preço.
“As viagens começaram assim, era muito prazeroso no início. Depois me cansou muito. As idas e vindas, muitas vezes não sabia se estava chegando no aeroporto ou se estava saindo.”
Naquele momento, Turquetto também enfrentava decisões pessoais importantes. A mãe ficou gravemente doente e passou um período internada em UTI. Ao mesmo tempo, sua esposa teve uma gravidez complicada, que exigiu repouso.
O executivo tinha diante de si a possibilidade de continuar construindo uma carreira nos Estados Unidos, por meio da BlackRock, mas decidiu voltar ao Brasil.
“Muitas vezes eu penso: o que poderia ser? Eu me pego pensando. E depois eu falo: não, o que deveria ser é isso, e não me arrependo da minha escolha”, diz o executivo.
A trajetória de Turquetto começou longe da cadeira de CEO.
Carioca, se mudou ainda criança para Campinas e começou a carreira no setor financeiro. Passou por diferentes áreas, de back-office e estratégia a seguros, marketing, produtos, canais e qualidade.
A sucessão de funções ajudou a formar uma visão menos linear sobre crescimento profissional.
“A nossa carreira não é uma linha reta, então a gente vai por tentativa e erro.”
Em outro momento da trajetória, chegou a deixar uma posição justamente quando se sentia reconhecido profissionalmente.
Para ele, permanecer apenas porque tudo está funcionando também pode se transformar em uma armadilha.
“É até mais difícil você tomar a decisão de saída no ápice, porque a gente tem a questão do orgulho. Cuidado com a felicidade absoluta, porque depois tem mais downside do que upside.”
Hoje, sua definição sobre a função de um CEO passa menos pelo cargo e mais pelas pessoas que lidera.
“O CEO tem duas funções básicas: cuidar de gente e cuidar de futuro.”
A experiência com o burnout também aparece nos pequenos rituais que Turquetto adotou para organizar a própria rotina.
Ele acorda cedo para levar os filhos à escola, passeia com o cachorro e evita começar o dia mergulhado no celular e nas redes sociais.
“Eu entendi ao longo dos últimos anos que tirar aquele ímpeto de redes sociais te dá um respiro, te dá uma tranquilidade de espírito muito grande.”
O CEO também procura definir mentalmente cinco questões que não pode terminar o dia sem resolver e filtrar compromissos que considera pouco relevantes.
Fora do trabalho, desenha, lê literatura e tenta reservar espaço para a família. Para ele, esses hábitos não estão desconectados da liderança.
Turquetto também rejeita a ideia de que uma liderança mais humana seja sinônimo de menor exigência.
“Não é um contrato de permissividade nem licença para ser medíocre. É o contrário. Uma liberdade guiada, mas é uma liberdade que você exerce na confiança.”
O evento contou com a presença de nomes de peso no cenário corporativo brasileiro, com representantes de empresas como: