Carreira

Expediente até 15h e licença de 14 meses: ‘A vida não é só trabalho’, dizem brasileiras na Noruega

Brasileiras que vivem no país europeu contam como jornadas mais curtas, segurança e equilíbrio entre carreira e família mudaram sua relação com o trabalho

Camilla Wirtti, brasileira que vive na Noruega com a família: "Na Noruega, o trabalho faz parte da vida. Ele não é a vida” (Arquivo pessoal /Divulgação)

Camilla Wirtti, brasileira que vive na Noruega com a família: "Na Noruega, o trabalho faz parte da vida. Ele não é a vida” (Arquivo pessoal /Divulgação)

Publicado em 5 de julho de 2026 às 12h41.

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A cultura de trabalho nos países nórdicos costuma chamar atenção pelo equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Na Finlândia, por exemplo, a semana média de trabalho é de 35,6 horas, uma das mais curtas da União Europeia, segundo a Eurostat. Na Noruega, a lógica não é muito diferente: apenas 1% dos empregados trabalham jornadas muito longas, abaixo da média da OCDE.

Neste domingo, 5, Brasil e Noruega se enfrentam pelas oitavas de final da Copa do Mundo. Enquanto milhões de brasileiros torcem pela classificação da seleção, outros acompanham a partida de um jeito diferente: vivendo do outro lado do Atlântico – e torcendo pela seleção brasileira, é claro.

É o caso da mineira Raquel Fernandes Batista Araújo, de 46 anos, vice-presidente global de Comunicação, Marketing e Engajamento da Scatec, e de Camilla Wirtti, de 41 anos, agente administrativa. Em momentos diferentes da vida, elas trocaram o Brasil pela Noruega e descobriram uma cultura de trabalho que coloca o tempo livre, a família e a qualidade de vida no mesmo patamar da produtividade.

"Na Noruega, o trabalho faz parte da vida. Ele não é a vida”, diz Camilla.

Veja também: Finlândia lidera ranking de felicidade em 2026. Veja quais são os 10 países mais felizes do mundo

Sair do trabalho às 15h muda a rotina

Recém-formada, Camilla chegou à cidade de Stavanger em 2007. O plano era permanecer apenas um ano.

Ela queria viver uma experiência internacional que fosse além do turismo. Queria aprender um novo idioma, conhecer outra cultura e entender como funcionava o cotidiano em outro país.

Dezenove anos depois, continua morando na Noruega, casou e teve filhos.

Um dos aspectos que mais mudou sua percepção sobre trabalho foi justamente a rotina dos escritórios.

"Não é incomum que quem trabalha em escritório termine o expediente entre 15h e 16h. Isso faz uma diferença enorme na rotina das famílias."

Segundo ela, o horário permite buscar os filhos na escola, levá-los às atividades extracurriculares e ainda participar dos chamados dugnads, mutirões voluntários organizados por escolas, clubes esportivos e associações locais.

"Na prática, muitas dessas atividades simplesmente não funcionariam sem a participação dos pais."

Veja também: O que está em jogo entre Brasil e Noruega no campo dos negócios

Camilla Wirtti, de 41 anos, agente administrativa, com o marido e as duas filhas, na Noruega (Arquivo pessoal/Divulgação)

Licença parental de até 14 meses

Outro benefício que chamou sua atenção foi a política de licença parental.

Quando nasceu a primeira filha, Camilla e o marido optaram por cerca de 14 meses de licença remunerada com 80% do salário.

Na segunda gestação, escolheram 1 ano de afastamento recebendo 100% da remuneração.

Parte desse período é obrigatoriamente reservada ao outro responsável e não pode ser transferida.

"Vejo isso como um incentivo para que os dois pais participem ativamente dos primeiros meses de vida da criança e evita que apenas a mãe fique afastada do mercado de trabalho."

Ela afirma que a atuação dos sindicatos também contribui para esse cenário.

"Os sindicatos negociam salários, garantem boas condições de trabalho e oferecem apoio quando necessário. Isso traz uma sensação de segurança muito grande."

Veja também: ‘Trabalhar na Finlândia é ter a vida pessoal respeitada’, diz brasileira

Segurança foi o primeiro choque

A trajetória de Raquel começou de forma diferente. Ela chegou à Noruega em 2020, no início da pandemia, quando o marido foi expatriado. A família se mudou para Sandefjord, cidade localizada a cerca de uma hora e meia de Oslo.

O primeiro impacto não aconteceu no escritório. Foi na rua.

"Eu pegava trem todos os dias e via pessoas deixando computador, celular e bolsa no banco para ir ao banheiro. Ninguém mexia."

Outra cena que chamou sua atenção foram os bebês dormindo do lado de fora de cafeterias enquanto os pais permaneciam dentro dos estabelecimentos.

"Para eles isso é absolutamente normal, é uma forma de cuidar da saúde da criança e eles não se sentem inseguros com essa prática."

Raquel Fernandes Batista Araújo, de 46 anos, vice-presidente global de Comunicação, Marketing e Engajamento da Scatec, empresa de energia norueguesa (Arquivo pessoal /Divulgação)

A vida continua depois do expediente

A diferença entre Brasil e Noruega também aparece na organização do dia.

Enquanto no Brasil Raquel saía do escritório às 18h30 para conseguir buscar as filhas na creche antes do fechamento, na Noruega praticamente todas as famílias encerram o expediente muito mais cedo.

"As creches normalmente fecham às 16h30. Isso faz com que praticamente todo mundo saia do trabalho entre 15h30 e 16h."

Segundo ela, o próprio sistema foi desenhado para que as pessoas tenham tempo para cuidar da família e da casa.

Mas há desafios de viver no país nórdico. "No inverno, além das tarefas de casa, ainda precisamos tirar quase um metro de neve da entrada antes de sair."

O maior desafio é fazer amigos

Além do clima que costuma ter um frio prolongado, mudar de país traz outros desafios. Camilla lembra que o início foi marcado pela saudade da família, pela adaptação ao idioma e à alimentação.

Na avaliação dela, existe um fator determinante para quem pretende morar fora.

"Quando você decide fazer parte da sociedade, aprende o idioma, entende a cultura e deixa de comparar tudo com o Brasil, a adaptação acontece."

Raquel também destaca a dificuldade inicial de criar vínculos.

"O brasileiro tem um jeito muito caloroso. Isso faz falta”, diz. "Os noruegueses são mais reservados no começo, mas quando você conquista uma amizade, ela costuma durar a vida inteira."

Entrar no mercado leva tempo

Outro obstáculo encontrado por Raquel foi conseguir espaço no mercado de trabalho.

Segundo ela, boa parte das vagas nem chega a ser anunciada.

"Depois descobri que cerca de 80% das oportunidades são preenchidas por indicação."

Isso torna a construção de networking ainda mais importante para quem chega ao país. Ao mesmo tempo, ela acredita que os brasileiros carregam uma vantagem competitiva.

"O brasileiro é muito criativo e aprende a resolver problemas rapidamente. Isso é muito valorizado aqui."

Na visão da executiva, essa capacidade tende a ganhar ainda mais importância em um momento em que a Noruega acelera sua transição energética e precisa formar novos profissionais para diferentes setores da economia.

Veja também: O benefício número 1 que mantém as pessoas felizes no trabalho, segundo executiva da Finlândia 

A visão do que é sucesso mudou

Mesmo depois de quase duas décadas vivendo na Noruega, Camilla pensa em passar uma temporada mais longa no futuro no Brasil.

"Gostaria que minhas filhas conhecessem melhor nossa cultura, nossa família e as experiências que fizeram parte da minha infância."

Raquel compartilha sentimento parecido. Ela afirma que sente saudade do calor humano brasileiro, mas considera que o equilíbrio entre carreira, família e qualidade de vida encontrado na Noruega compensou a mudança.

"Você percebe que produtividade não significa passar mais horas trabalhando. A vida continua depois que o expediente acaba. E isso faz toda a diferença," diz Raquel.

Neste domingo, elas estarão na torcida pelo Brasil. Mas, vivendo há anos na Noruega, carregam também um aprendizado do país europeu: sucesso profissional não se mede apenas pelas horas trabalhadas, e sim pela capacidade de conciliar carreira, família e qualidade de vida.

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