Na base analisada pela VR, o comércio varejista é o setor que mais concentra trabalhadores na escala de seis dias de trabalho e apenas uma folga (Delmaine Donson/iStockphoto)
Repórter
Publicado em 15 de janeiro de 2026 às 12h59.
A escala 6x1 desponta como o regime que mais concentra excesso de jornada e amplia riscos trabalhistas e financeiros no Brasil. É o que revela um levantamento da VR, empresa de soluções para trabalhadores e empregadores, com base em dados de quase 33 mil companhias que utilizam seus serviços de RH Digital da companhia.
Até outubro de 2025, essas empresas acumularam cerca de 136 milhões de horas extras, geradas por mais de 1 milhão de trabalhadores formais que registram ponto pelo SuperApp VR, entre outros sistemas. O volume chama atenção não apenas pelo impacto na saúde dos profissionais, mas também pelos riscos jurídicos e financeiros para os negócios.
Segundo o estudo, pessoas nesse regime representam:
O cenário reforça a necessidade de atenção à Gestão de Riscos Ocupacionais (GRO), um dos pilares da atualização da NR-1, que passa a valer a partir de maio de 2026 e amplia a responsabilidade das empresas sobre riscos físicos, ergonômicos e psicossociais no trabalho.
Para Cássio Carvalho, diretor-executivo de negócios da VR, os impactos da nova norma tendem a aparecer primeiro nos setores com jornadas intensivas, alta rotatividade e pressão operacional constante.
"Varejo, logística, transporte, call centers, indústria e serviços essenciais costumam concentrar maior exposição a riscos psicossociais, como sobrecarga, metas agressivas e menor previsibilidade de jornada."
A NR-1, de acordo com o executivo da VR, não cria novos riscos, ela só torna visível aquilo que já existe.
"Por isso, os setores que já operam no limite sentirão antes a necessidade de estruturar melhor a gestão da jornada, o acompanhamento de indicadores e a atuação preventiva das lideranças."
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Na base analisada pela VR, o comércio varejista é o setor que mais concentra trabalhadores na escala de seis dias de trabalho e apenas uma folga. Dados de 2024 da própria VR já indicavam que mais da metade das empresas que adotam o modelo pertencem ao varejo, seguidas por alimentação, administração, hotelaria e outros segmentos que, em muitos casos, sequer operam com escalas bem definidas.
Para Carvalho, o problema vai além da legislação e passa por uma mudança de mentalidade na gestão.
“A gestão de jornada não pode ser tratada como custo operacional, e sim como um indicador de sucesso para o empregador. Quando a liderança entende isso, abre espaço para práticas automatizadas de escala e gestão, que poupam tempo dos profissionais de Recursos Humanos e ainda protegem tanto as pessoas quanto os resultados”, afirma.
Segundo cálculos do Painel de Impacto Social da VR, clientes que utilizam os serviços de RH Digital economizaram mais de R$ 1 bilhão até novembro deste ano com redução de processos trabalhistas, turnover e falhas no controle de jornada.
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Um dos dados mais contundentes do levantamento desmonta a ideia de que jornadas mais longas garantem maior produtividade e sobrevivência do negócio. O cruzamento das informações mostra justamente o oposto: empresas com jornadas mais intensivas tendem a durar menos.
Entre as companhias que fecharam as portas, 42% tinham predominância de trabalhadores em escala 6x1, com tempo médio de vida de cinco anos. Já entre aquelas que operavam majoritariamente em escala 5x2, que representam 33% da base analisada, a sobrevivência é maior, com média de sete anos de operação, segundo o estudo da VR.
Para Carvalho, os dados reforçam que discutir jornada de trabalho deixou de ser apenas uma pauta de bem-estar e passou a ser um tema estratégico, diretamente ligado à sustentabilidade dos negócios — especialmente em um contexto de endurecimento regulatório, com a NR-1, e maior fiscalização sobre saúde mental e riscos psicossociais no trabalho.
O primeiro passo, segundo Carvalho, é conhecer o próprio risco, e isso começa pelo uso inteligente dos dados de jornada.
“Antes de qualquer mudança estrutural, a empresa precisa identificar onde estão os excessos — horas extras recorrentes, jornadas prolongadas, acúmulos de banco de horas e picos operacionais mal distribuídos”, afirma.
A partir desse diagnóstico, o executivo afirma que é possível ajustar escalas, automatizar controles e redistribuir cargas de trabalho de forma mais eficiente.
“Em muitos casos, reduzir excessos melhora produtividade, diminui afastamentos e reduz custos ocultos", afirma o executivo, que reforça que a NR-1 estimula exatamente esse olhar: eficiência com sustentabilidade, não à custa da saúde das pessoas.
O principal alerta do executivo é: saúde mental não é mais um tema periférico.
“Ela se tornou um fator direto de risco humano, jurídico e financeiro. Ignorar sinais como aumento de afastamentos, excesso de jornada e sobrecarga emocional significa assumir riscos cada vez maiores para o negócio.
Para Carvalho, a NR-1 deixa claro que prevenir é uma responsabilidade de gestão. As empresas que se anteciparem, estruturando processos, capacitando lideranças e usando dados para tomada de decisão, não apenas estarão em conformidade, mas serão mais resilientes e sustentáveis no longo prazo.