Messi: rotina reconstruída do zero resultou em menos lesões (Justin Setterfield/Getty Images/AFP)
Especialista em mercado de trabalho
Publicado em 13 de julho de 2026 às 11h00.
Aos 39 anos, Lionel Messi se tornou nesta Copa o maior goleador da história dos Mundiais, com 21 gols somando todas as edições, marca construída ao longo de seis torneios e vinte anos. Aos 41, Cristiano Ronaldo virou o único jogador a marcar em seis Copas diferentes. São recordes que nenhum resultado, desta ou de qualquer outra Copa, apaga.
E enquanto eles entravam para a eternidade, boa parte do mundo seguia acreditando que sucesso é um evento. Um dia de sorte. Um momento de genialidade.
Calma lá.
O que esta Copa escancarou não é um milagre da longevidade. É um extrato bancário. Cada gol desses veteranos é o saque de um depósito feito em silêncio, longe das câmeras, ao longo dos cerca de 1.460 dias que separam uma Copa da outra. A Copa não premia quem chega. Premia quem chegou pronto.
Comece pelo português. A dieta de Cristiano Ronaldo bane açúcar, álcool, leite e qualquer alimento processado, em pelo menos seis refeições por dia. O sono é tratado como treino, fracionado em cinco ciclos de uma hora e meia. Em casa, ele mantém uma clínica particular de regeneração: crioterapia, oxigênio hiperbárico e exames frequentes de sangue e hormônios.
Resultado medido, não estimado: o monitoramento da WHOOP, empresa de tecnologia esportiva que acompanha seus dados, apontou idade biológica de 28,9 anos num corpo de mais de 40. Perguntado sobre o segredo, ele não citou equipamento. Citou uma palavra: “O mais importante é a consistência.”
Agora o argentino, que tem a história mais reveladora, porque nem sempre foi assim. Na juventude, Messi comia mal e ele mesmo admite: chocolates, alfajores, refrigerante. Sofria crises de vômito durante os jogos. Em 2015, procurou o especialista Giuliano Poser e reconstruiu a rotina do zero: cortou ultraprocessados, refrigerante e pizza, fez correção postural e trabalho preventivo. As lesões despencaram.
E Poser resumiu o projeto numa frase que vale por este artigo inteiro: “Não vou melhorar um fenômeno como Messi. Mas podemos fazer com que ele siga sendo o Messi durante mais tempo.”
A constância não cria o talento. Ela estica o talento no tempo.
E se você acha que isso é coisa de veterano, olhe para o algoz do Brasil. Erling Haaland, 25 anos, autor dos dois gols que eliminaram a Seleção nas oitavas, come cerca de 6 mil calorias por dia com cardápio que inclui fígado e coração bovinos, dorme com uma fita na boca para respirar pelo nariz, usa óculos que bloqueiam a luz azul das telas e declarou num documentário que “dormir é a coisa mais importante do mundo”.
E antes que alguém aponte que a Noruega caiu diante da Inglaterra na fase seguinte, é esse o ponto: constância não é garantia de taça, porque taça tem sorte, pênalti e arbitragem no meio. Constância é garantia de estar na briga. Haaland vai voltar. Quem apostou tudo no improviso é que não sabe se volta.
Repare num detalhe que desmonta o maior mito da nossa era. Esses craques têm, somados, mais de um bilhão de seguidores, e uma única publicação patrocinada rende milhões e milhões de dólares para Cristiano e Messi. Segundo o ranking da Hopper HQ, ambos têm os posts mais caros do planeta.
Ainda assim, Messi quase não posta a própria rotina. Eles não vivem das redes. As redes é que vivem deles. O feed é consequência do trabalho, nunca o trabalho.
Sei o que você vai dizer. E o Romário de 94? Boêmio assumido, avesso a treino, melhor jogador daquela Copa.
É verdade, e é honesto reconhecer: talento importa, e muito. Uma meta-análise publicada em 2022 na Perspectives on Psychological Science, cobrindo mais de 6 mil atletas, entre eles 772 dos melhores do mundo, mostrou que volume de treino, sozinho, não separa os campeões dos demais. O gênio existe.
Mas repare: Romário decidiu uma Copa aos 28. Messi quebrou recordes na sexta dele, aos 39. O gênio sem rotina ganha um capítulo. O gênio com rotina ganha o livro inteiro.
Agora saia do gramado e olhe para o seu trabalho, porque a regra é idêntica. Há mais de trinta anos a psicologia organizacional pesquisa qual traço de personalidade mais prevê desempenho profissional, e a resposta se repete desde o estudo clássico de Barrick e Mount, em 1991, confirmada de novo em 2022 no Journal of Applied Psychology: conscienciosidade. Em português claro, disciplina, organização e persistência. Não é carisma. Não é QI. É a capacidade de fazer bem feito, todo dia, inclusive quando ninguém está olhando.
Aqui cabe a objeção mais legítima de todas: é fácil ter essa rotina com chef particular, cientista do sono e milhões no banco. O jovem que encara condução lotada, boleto vencendo e prazo apertado não tem como replicar a estrutura de um clube europeu e nem consegue fazer tantas escolhas a longo prazo.
Verdade. Mas a provocação nunca foi sobre recursos. É sobre princípio. Ninguém precisa da rotina perfeita de um atleta de elite. Precisa proteger, nas pequenas escolhas diárias que estão sob o seu controle, aquilo que ninguém protege por você: a seriedade com que trata o próprio trabalho e, naquilo que for possível, priorizar a consistência em vez do imediatismo.
O que constrói trajetórias não é a pergunta “o que eu ganho hoje”, é a pergunta “o que eu estou construindo com o que faço hoje”. Escolha imediata dá resultado que evapora. Escolha consistente constrói caminho que sustenta.
Constância é uma vantagem competitiva que não dá para comprar quando você quiser.
E aqui mora uma esperança que me anima. Endrick, aos 20 anos, contou que segue uma rotina quase militar inspirada no Cristiano Ronaldo. Repare no que ele escolheu copiar. Não foi a comemoração nem o barulho. Foi o hábito.
Todo jovem escolhe seus espelhos, e essa talvez seja a decisão de carreira mais importante que alguém toma antes dos 20: se espelhar em quem constrói ou em quem prioriza aparecer. Torço muito para que dê certo, por ele e pelo que representa.
Você não controla o dia da sua final. Não escolhe quando a grande oportunidade aparece. A única coisa que está na sua mão é chegar nela pronto ou chegar nela devendo. E quando a conta dos quatro anos anteriores vence, não existe genialidade de última hora que pague.
No fim de toda Copa, alguém ergue uma taça e o mundo chama aquilo de momento mágico. Não caia nessa. Título é circunstância. Recorde de longevidade é o único troféu que não se conquista num dia bom: se conquista em milhares de dias bons, enfileirados, quando ninguém está olhando.