No sharenting, o desafio é equilibrar o desejo de guardar e compartilhar memórias com o direito das crianças à privacidade (Kiddle Pass/Shutterstock)
Plataforma de conteúdo
Publicado em 23 de agosto de 2026 às 07h00.
Por Ana Bia Medeiros — Líder em Educação na Kiddle Pass*
Há uma cena que se tornou comum na infância contemporânea: uma criança sopra as velas do aniversário, alguém pega o celular, registra o momento e, antes mesmo de o bolo ser servido, aquela imagem já está nas redes sociais.
O primeiro dia de aula, a viagem em família, a fantasia da festa, a brincadeira engraçada, a frase inesperada.
Pequenos momentos que, durante gerações, ficavam restritos ao álbum de família, agora podem alcançar centenas — ou milhares — de pessoas em poucos segundos.
Não há, em princípio, nada de errado em querer guardar ou dividir essas lembranças. O problema começa quando esquecemos que existe uma diferença fundamental entre registrar uma infância e torná-la pública.
É nesse espaço que surge o sharenting, termo criado a partir da combinação das palavras inglesas share (compartilhar) e parenting (parentalidade), usado para descrever o compartilhamento, por pais e responsáveis, de informações, fotos e vídeos dos filhos na internet.
O fenômeno não é exatamente novo. O que mudou foi a dimensão que ele ganhou. Antes, uma fotografia infantil tinha um alcance limitado pelo próprio álbum em que era guardada.
Podia passar pelas mãos de avós, tios e amigos próximos, ser revisitada anos depois e permanecer como uma memória essencialmente familiar.
Hoje, uma fotografia pode deixar de ser apenas uma lembrança no instante em que é publicada.
Ela pode ser compartilhada, copiada, armazenada, reproduzida fora de contexto e permanecer circulando muito depois de a criança ter crescido. Uma decisão tomada em poucos segundos pode acompanhar aquela pessoa por anos.
E é justamente por isso que o sharenting merece ser discutido não como uma questão de certo ou errado, mas como uma nova responsabilidade que surgiu com a vida digital.
A intenção dos pais, na maioria das vezes, é afetiva. Compartilha-se porque há orgulho, carinho, entusiasmo. Porque aquele primeiro dia de aula parece importante demais para ficar apenas na memória. Porque determinada frase foi engraçada. Porque registrar a infância é também uma maneira de celebrar o tempo.
Mas boas intenções não necessariamente eliminam os efeitos de uma exposição.
Uma criança pode achar uma fotografia divertida aos seis anos e se sentir constrangida com ela aos quinze. Um vídeo publicado como uma brincadeira pode ganhar outro significado quando chega às mãos de colegas.
Uma informação aparentemente banal sobre rotina, escola ou localização pode revelar muito mais do que os pais imaginavam.
A questão, portanto, não é simplesmente o que estamos publicando. É também quem terá de conviver com essa publicação no futuro.
Essa talvez seja uma das grandes particularidades da infância na era digital: muitas crianças começam a construir sua identidade online antes mesmo de terem consciência de que possuem uma.
Quando chegam à adolescência, algumas já carregam uma espécie de arquivo público da própria infância. Fotos, vídeos, histórias, comentários e características pessoais foram registrados por outras pessoas. A narrativa começou antes que elas pudessem participar dela.
É uma situação que não existia para as gerações anteriores. E isso traz uma pergunta difícil: até que ponto os adultos têm o direito de contar publicamente a história de uma criança que ainda não pode decidir como quer ser apresentada ao mundo?
Não se trata de defender que toda fotografia infantil seja inadequada ou que famílias devam abandonar as redes sociais. Tampouco de transformar a parentalidade digital em uma coleção de proibições.
Trata-se de reconhecer que a privacidade também é uma forma de cuidado.
Ela se sentiria confortável vendo essa foto daqui a dez anos? Estamos preservando sua dignidade? A publicação revela uma informação que deveria permanecer privada? Estamos compartilhando uma memória ou transformando um momento íntimo em conteúdo?
São perguntas simples, mas que ajudam a deslocar o centro da decisão: do desejo do adulto de compartilhar para o direito da criança de construir, no seu próprio tempo, a própria identidade.
Porque existe uma diferença importante entre registrar uma infância e definir, por antecipação, como aquela infância será lembrada pelos outros.
A tecnologia tornou muito mais fácil guardar memórias. Mas também tornou muito mais fácil ultrapassar os limites entre o que é íntimo e o que é público.
Por isso, falar sobre sharenting é, no fundo, falar sobre uma nova dimensão do cuidado parental. Em um mundo em que quase tudo pode ser fotografado, publicado e compartilhado, proteger também significa saber o que não precisa ser transformado em conteúdo.
A infância não precisa ser escondida para ser protegida. Mas talvez precise, cada vez mais, ser lembrada de que nem toda memória precisa de uma audiência.
*Ana Bia Medeiros é mãe da Antonella e do Alexandre, educadora parental, especialista em desenvolvimento infantil e educação inclusiva. Como Líder de Educação da Kiddle Pass, é responsável pela curadoria pedagógica e pelo desenvolvimento de experiências de aprendizagem que unem tecnologia, criatividade e inovação.