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Opinião: Os dados não contam tudo que se precisa saber sobre IA

Em meio à automação crescente, líderes precisam resgatar contexto, escuta ativa e pensamento crítico

Dados não contam tudo sobre IA (Gorodenkoff/Shutterstock)

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Publicado em 21 de agosto de 2026 às 17h00.

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Por Patrícia Fumagalli*

Vivemos uma era de obsessão sem precedentes por enormes volumes de dados, dashboards reluzentes, relatórios em tempo real e modelos de linguagem generativa, que nos inundam a cada segundo com a promessa sedutora de respostas imediatas. No entanto, em meio a essa avalanche de números e resumos automatizados, uma verdade desconfortável se impõe no topo das organizações: dado não é inteligência.

A inteligência verdadeira não nasce do mero volume de dados acumulados em um repositório, mas da capacidade humana de interpretar contextos, decodificar nuances comportamentais e fazer as perguntas certas.

Foi exatamente no centro dessa provocação que nos reunimos recentemente no painel sobre os sinais qualitativos que mudam decisões nas empresas, onde tive a oportunidade de debater esse cenário ao lado de Thiago Barra, CMO da Swile e fundador da Digital Florest, e com a mediação precisa de Laura Dias, Head de Estratégia e Insights da Prefeitura do Rio de Janeiro.

Naquele encontro, ficou claro que a proliferação das inteligências artificiais generativas e dos modelos de linguagem está redefinindo a tomada de decisão corporativa e exigindo um resgate urgente do olhar clínico e da escuta ativa como ativos insubstituíveis dos negócios.

O risco da automação sem pensamento crítico

Antigamente, quando dizíamos que alguém funcionava como uma máquina, estávamos elogiando sua eficiência e precisão. Hoje, em um mundo saturado de automação, parecer uma máquina deixou de ser uma virtude.

As ferramentas de inteligência artificial trouxeram a impressão de que estamos infinitamente mais bem informados, mas essa abundância costuma ser uma ilusão. A tecnologia frequentemente amplifica um problema estrutural enquanto nos dá a falsa sensação de que ele diminuiu, nos afastando do esforço analítico primário.

Como bem provocou Thiago Barra durante o nosso debate, antes mesmo do estopim dos modelos de linguagem, o mercado já estava perigosamente propenso a terceirizar o raciocínio crítico para os sistemas automatizados.

Os modelos de linguagem foram desenhados com um viés inerente de confirmação e agradabilidade, entregando exatamente aquilo que o nosso raciocínio inicial buscou. Se o nosso repertório for limitado, a pergunta formulada será fraca, e a resposta obtida será uma mera caixa de ressonância dos nossos próprios preconceitos operacionais, correndo o risco de respaldar decisões milionárias com base em alucinações bem formatadas.

O valor do conhecimento humano

Basta observar o cotidiano das corporações atuais, onde gravamos a totalidade das reuniões e geramos transcrições e resumos executivos automáticos, mas raramente paramos para analisar criticamente o que foi dito, interpretar o tom de voz ou captar as entrelinhas.

Acumulamos montanhas de registros brutos, porém empobrecemos a nossa capacidade reflexiva. A ciência da gestão nos ensina há décadas que o ativo mais valioso de uma organização é o seu conhecimento tácito, aquela sabedoria intuitiva acumulada pela prática, pela convivência com o cliente e pela leitura informal do mercado que não reside em planilhas ou bancos de dados.

Um clássico alerta de lideranças de tecnologia no passado já apontava para a frustração de saber que a empresa possui o conhecimento, mas não consegue mapeá-lo ou conectá-lo.

Na era dos agentes autônomos de inteligência artificial, quando o colaborador passa a interagir com o agente proprietário da empresa em vez de buscas abertas, o rigor do método científico se torna indispensável.

A nova função da liderança

Muitas lideranças celebram projetos automatizados como sucessos estrondosos, mas vacilam quando questionadas sobre como exatamente mensuraram esse êxito, ignorando hipóteses claras, o mapeamento de desvios e a injeção do contexto qualitativo.

Se a alucinação de um único modelo já causa estragos pontuais, o impacto se multiplica em escala quando múltiplos agentes passam a conversar e tomar decisões entre si sem supervisão.

Por isso, a premissa de manter o humano no circuito não é um capricho ético, mas uma necessidade de sobrevivência estratégica.

Quando Laura Dias trouxe ao painel a provocação sobre qual passa a ser o papel de quem decide para evitar que a gestão seja passivamente entregue aos algoritmos, a resposta se mostrou categórica: o papel da liderança mudará completamente.

Historicamente, o valor de um executivo esteve atrelado à sua capacidade de fornecer respostas certas e rápidas. No modelo vigente, essa premissa caducou, pois respostas automatizadas tornaram-se uma mercadoria comum e acessível. O novo valor da liderança reside no aprendizado contínuo, na capacidade de proposição e na arte de formular as perguntas fundamentais.

O futuro dos talentos nas empresas

Esse cenário também expõe um paradoxo crítico na formação de talentos e na senioridade. A inteligência artificial generativa mostra-se extraordinariamente potente nas mãos de um profissional sênior, alguém que já possui repertório, visão sistêmica, vivência e capacidade de auditar o que a máquina produz.

Por outro lado, no nível júnior, a tecnologia tem sido usada massivamente para automação de tarefas operacionais, levando muitas empresas a enxugar quadros de entrada e eliminar posições de base.

Trata-se de uma visão míope: se destruirmos a base da pirâmide e cortarmos a etapa do aprendizado operacional, comprometeremos a formação dos profissionais seniores do futuro.

Do mesmo modo que a aceleração tecnológica atual tenta atropelar etapas, levando anos para entendermos o real lugar da automação na sociedade, precisamos criar uma verdadeira academia para o cérebro nas organizações, exercitando a disciplina do pensamento crítico e da escuta ativa.

O equilíbrio entre tecnologia e fator humano

Inspirando-nos em abordagens que valorizam o desenvolvimento humano e a sociabilidade antes do uso intensivo de telas, o ambiente corporativo precisa reaprender o valor das interações autênticas.

Quando nos distanciamos temporariamente do modo automático das ferramentas, nos tornamos estrategistas melhores, capazes de captar a insatisfação silenciosa de um cliente ou o brilho nos olhos de uma equipe, sinais que jamais aparecerão nos gráficos de um painel de controle.

À medida que a tecnologia assume o papel de coletar e organizar a informação bruta, cabe ao ser humano resgatar o que lhe é verdadeiramente insubstituível: a empatia, o julgamento ético, a intuição alimentada pela experiência e a coragem de ser propositivo.

O futuro das organizações de alto desempenho não pertencerá às empresas que possuem mais dados, mas àquelas que possuem as melhores lentes para interpretar o fator humano, equilibrando a precisão da ciência analítica com a profundidade da percepção real.

*Patrícia Fumagalli é Chief Digital Officer (CDO) da FSB Holding.

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