Levantamento mostra que empresas de tecnologia podem criar valor para M&A sem depender de grandes rodadas de venture capital (Gorodenkoff/Shutterstock)
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Publicado em 21 de agosto de 2026 às 15h00.
Por Leopoldo de Lima*
O ecossistema brasileiro de tecnologia transformou a captação em um dos principais símbolos de sucesso. Rodadas grandes rendem manchetes, elevam valuations e ajudam a criar a percepção de que empresas promissoras precisam necessariamente passar por fundos de venture capital. O mercado de M&A coloca essa ideia em perspectiva.
Um levantamento da Questum com 1.181 empresas de tecnologia adquiridas no Brasil entre 2021 e o primeiro semestre de 2026 identificou que apenas 117, ou 9,9%, haviam captado R$ 20 milhões ou mais antes da venda, patamar adotado no estudo como referência para uma rodada equivalente a Série A. As outras 1.064 chegaram à aquisição sem uma rodada relevante desse porte.
Esse número deveria mudar a maneira como avaliamos empresas de tecnologia. Uma companhia se torna interessante para um comprador quando constrói algo difícil, caro ou demorado de reproduzir.
Pode ser uma carteira relevante de clientes, domínio sobre determinado nicho, tecnologia proprietária, receita recorrente, distribuição eficiente ou uma equipe altamente especializada.
Em uma aquisição, o histórico de fundraising ocupa apenas uma parte dessa equação. O valor econômico está muito mais ligado ao que aquele ativo acrescenta à estratégia de quem compra.
O venture capital continua sendo extremamente valioso quando a empresa precisa acelerar a expansão, investir antes de gerar caixa ou disputar mercados em que a velocidade influencia a liderança. O problema surge quando uma ferramenta financeira passa a ser tratada como certificado universal de qualidade.
A própria dinâmica recente mostra os limites dessa interpretação. De acordo com a LAVCA, o número de investimentos de venture capital caiu na América Latina em 2025 e o dinheiro ficou mais concentrado.
Apenas cinco empresas receberam aproximadamente 25% de todo o capital investido na região. Ser excluído desse grupo cada vez mais seletivo diz pouco, isoladamente, sobre a capacidade de uma companhia criar valor.
A obsessão por captação também pode distorcer prioridades. Quando levantar a próxima rodada se transforma no principal sinal de progresso, existe o risco de crescimento de receita sem eficiência, expansão sem retenção e valuation sem fundamentos proporcionais.
Quem pretende construir um ativo atraente para M&A deveria acompanhar com igual atenção margem, previsibilidade de receita, concentração de clientes, propriedade intelectual, dependência dos fundadores e qualidade da gestão.
São esses elementos que ajudam um comprador a responder à pergunta decisiva sobre quanto valor aquela empresa poderá gerar depois da aquisição.
No fim, esse cenário amplia a própria definição de sucesso para uma empresa brasileira de tecnologia. O mercado de M&A está acessível a uma quantidade muito maior de negócios do que a narrativa das grandes rodadas costuma sugerir.
Para muitos fundadores, crescer com mais controle, preservar participação societária e desenvolver um ativo estratégico pode ser uma decisão tão ambiciosa quanto perseguir sucessivos investimentos. Venture capital seguirá financiando algumas das maiores histórias do ecossistema, enquanto muitas empresas relevantes continuarão construindo valor longe dos holofotes das rodadas e chegando à mesa de negociação por caminhos diferentes.
*Leopoldo de Lima é Partner da Questum, economista e especialista em inovação, finanças corporativas e M&A. Possui mais de 20 anos de experiência no mercado, com atuação em venture capital, private equity e estruturação de fundos. Também foi diretor de M&A da Afya, onde conduziu diversas transações de aquisição.