Dia 10 de abril é o Dia da Engenharia (Georgijevic/Getty Images)
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Publicado em 10 de abril de 2026 às 07h00.
Por Eduardo Fischer*
10 de abril é o Dia da Engenharia, que convida a refletir: por que a carreira não desperta interesse como antes? Como mudar esse cenário?
Como liderança em uma organização da Construção Civil, vejo de perto um fenômeno preocupante: a queda no interesse pelos cursos de engenharia. E como engenheiro que sou, reflito constantemente sobre as implicações de haver cada vez menos colegas de profissão no Brasil.
Os números chamam a atenção: levantamento recente do Centro de Integração Empresa-Escola (Ciee) aponta que apenas 12% dos estudantes do ensino médio têm interesse em cursar engenharia. Em 10 anos, o número de calouros em cursos de engenharia caiu 23%, segundo o Censo da Educação Superior do MEC. Em algumas áreas tradicionais, como a engenharia civil, a redução de alunos chega a 52%; o número dos que concluem a graduação segue caindo em níveis inquietantes.
A inquietação se justifica: estimativas do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) apontam que o déficit de engenheiros no Brasil pode chegar a um milhão de profissionais em 2030.
É um fator que compromete potencialmente a capacidade de inovação, consistência e competitividade em áreas estratégicas – pesquisa, infraestrutura, energia, tecnologia, por exemplo. Ameaça, também, a evolução de programas estruturantes, como o Minha Casa, Minha Vida, a modernização da indústria e o desenvolvimento de setores como a Construção Civil.
Vivemos uma combinação perigosa de fatores:
Aqui há muito por fazer, e a engenharia tem tudo a ver com isso: a boa formação dá competências e abre possibilidades, moldando profissionais que decidem e executam. Profissionais que criam, resolvem e transformam – porque o “ethos” do engenheiro é assim: analisar, compreender, solucionar, sistematizar, materializar.
Não à toa, engenheiros estão presentes muito além de suas especialidades: suas capacidades técnicas e visão sistêmica os colocam em posições de estratégia e de liderança; em empresas dos mais variados setores como elementos fundamentais da gestão eficiente. Da construtora ao banco, do varejo à indústria, lá está o engenheiro.
Digo isso como formação e como carreira. O desinteresse atual é incompatível com as projeções de crescimento da demanda por engenheiros, especialmente em áreas ligadas a tecnologia, sustentabilidade e automação.
Pesquisas salariais preveem remunerações mais atraentes. E mesmo as áreas mais tradicionais não ficam de fora: a tecnologia e os novos cenários de produtividade requerem profissionais capazes de integrar a evolução ao dia a dia enquanto a roda gira.
Currículos com abordagem mais prática desde o início do curso, boa infraestrutura acadêmica, conexão da formação com questões contemporâneas – como indústria 4.0, clima, energia, I.A, vida em sociedade – e a ênfase no forte papel social da engenharia podem quebrar barreiras e recuperar aquele lugar de carreira que faz brilhar os olhos.
E indo mais longe – fortalecer o ensino de matemática e ciências desde a educação básica, com metodologias atraentes, encantadoras. Afinal, um jovem que não se interessa por matemática dificilmente vai cogitar uma carreira em engenharia.
A frase que dá título deste artigo era muito repetida pelo meu pai. Conselho misturado com convicção, seu sentido atravessa o tempo: engenharia é sempre a profissão do futuro. A profissão do “por fazer”, das muitas possibilidades e perspectivas.
Porque o futuro é vivo, exige novas competências, e se beneficia profundamente de uma certa maneira de ver o mundo que a formação sólida em engenharia entrega: pragmática, holística, resolutiva; essencial para vencer os múltiplos desafios que a construção desse mesmo futuro apresenta.
*Eduardo Fischer é CEO da MRV&CO.