A fluência em inglês é um fator crítico para a competitividade no mercado global atual (Devonyu)
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Publicado em 19 de junho de 2026 às 10h00.
Por Monica Pasello*
Por décadas, o debate sobre a qualidade do ensino de inglês no Brasil se resumiu à quantidade: mais horas-aula, mais plataformas, mais professores capacitados. O esforço foi legítimo e necessário. Contudo, chegamos a um ponto em que o volume de exposição ao idioma não se traduz em capacidade real de uso.
O aluno termina o ensino médio, coloca "inglês intermediário" no currículo e trava na primeira reunião com um cliente estrangeiro. Esse é o gap que nenhuma grade curricular, sozinha, vai conseguir resolver.
Já o mercado de trabalho, por sua vez, não espera. O Fórum Econômico Mundial, no relatório Future of Jobs 2025, aponta que as habilidades de comunicação em contextos internacionais estão entre as dez competências mais demandadas no trabalho, no período de 2025 a 2030.
Em paralelo, o crescimento de empresas brasileiras com operações globais e a expansão do trabalho remoto para equipes multiculturais tornaram o inglês funcional em um critério eliminatório nos processos seletivos de praticamente todos os setores.
A questão, portanto, não é se o aluno estudou inglês, mas se ele consegue usá-lo para trabalhar no seu dia a dia.
Há uma confusão estrutural que atravessa tanto a educação básica quanto o ensino superior: a de que cumprir um currículo equivale a desenvolver uma competência. Mas não é bem assim. Um aluno pode ter cursado quatro anos de inglês, tirado nota dez em todas as provas e, ainda assim, ter dificuldades em conduzir uma negociação, redigir um e-mail profissional ou participar de uma apresentação em inglês sem travar.
Isso acontece porque a avaliação escolar tradicional mede o que o aluno memorizou, e não o que ele consegue fazer com o idioma. Proficiência é outra régua, pois ela mede o uso real: a capacidade de compreender, falar, ler e escrever em contextos que simulam o ambiente profissional e acadêmico de verdade.
Enquanto as instituições de ensino não incorporarem essa distinção à sua lógica de gestão pedagógica, continuarão entregando diplomas a alunos que o mercado precisará requalificar do zero. E o custo disso termina sendo alto, tanto para o aluno, quanto para a empresa e para a economia.
A maioria das instituições de ensino brasileiras ainda não dispõe de nenhum mecanismo formal para mensurar se seus alunos atingem, de fato, um nível de proficiência funcional antes de se formarem. A nota bimestral cumpre o protocolo legal, mas não responde à pergunta que o mercado faz: esse aluno está realmente pronto?
Preparar estudantes para o mercado global não exige uma revolução pedagógica da noite para o dia, mas três deslocamentos concretos na forma como as instituições de ensino encaram o inglês:
Substituir a lógica do conteúdo pela lógica da competência: a pergunta que deve guiar o planejamento pedagógico é "em que nível de proficiência nosso aluno precisa estar ao final do ciclo?". Esse reposicionamento muda o foco da instrução para o resultado.
Integrar avaliações de proficiência ao longo da jornada escolar: diagnóstico no início, acompanhamento formativo no meio e certificação somativa no final. Esse modelo já é usado por redes de ensino em países com alto desempenho em proficiência e começa a ganhar tração no Brasil.
Adotar padrões internacionais como referência: testes reconhecidos globalmente oferecem às instituições um espelho comparável, pois permitem saber não apenas se o aluno melhorou em relação a si mesmo, mas onde ele está em relação ao que o mercado global exige.
Sendo assim, existe uma responsabilidade que recai especificamente sobre gestores, coordenadores e secretarias de educação, que é a de tomar decisões com base em dados reais de aprendizagem. Não é possível construir uma política de empregabilidade estudantil sem saber, de forma confiável, qual é o ponto de partida e qual é o ponto de chegada de cada turma, escola e rede.
O Plano Nacional de Educação 2026–2036, sancionado em abril deste ano, coloca essa exigência em termos legais ao estabelecer metas de "níveis adequados de aprendizagem" com monitoramento bianual. Para idiomas, isso significa que redes de ensino terão, em breve, que demonstrar uma evolução mensurável.
Quem ainda trata a avaliação de inglês como formalidade bimestral vai cumprir o protocolo, mas não a meta. E, mais importante, não vai entregar ao aluno o que ele precisa para competir.
O mercado global não aguarda o aluno terminar o ciclo escolar para testar suas habilidades. Isso acontece já no momento da entrevista, da proposta, da primeira reunião. Preparar esse aluno é, portanto, uma decisão que começa na forma como a escola escolhe medir o que ensina.
*Monica Pasello é CEO da TOEIC Brasil