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Opinião: etapa de originação é maior desafio do crédito privado em 2026

Especialista detalha como a proximidade com o tomador e a leitura setorial tornaram-se pilares estratégicos na expansão do crédito

A originação de crédito no middle market exige análise aprofundada e estruturas sob medida (pixelfit/Getty Images)

A originação de crédito no middle market exige análise aprofundada e estruturas sob medida (pixelfit/Getty Images)

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Publicado em 7 de abril de 2026 às 10h00.

Por Breno Sartoretto*

O mercado de crédito privado brasileiro atravessa uma mudança relevante na sua dinâmica, bem menos visível do que os números de crescimento sugerem, mas cada vez mais determinante para os resultados.

Em 2025, as emissões de crédito privado no Brasil somaram aproximadamente R$ 803 bilhões, segundo dados da ANBIMA.

Em paralelo, o número de fundos estruturados cresceu 173% desde 2019, refletindo a consolidação desse mercado como alternativa relevante na diversificação das carteiras de investimento.

Competição e compressão de spreads no mercado

O avanço é inequívoco. Mas ele traz consigo uma consequência importante: o aumento da competição por operações de qualidade.

Relatórios recentes de mercado indicam uma compressão relevante de spreads em emissores mais consolidados, especialmente em segmentos de menor risco.

Dados de mercado, como os divulgados pela B3 e por casas de análise independentes, mostram que, em algumas classes, como debêntures incentivadas, os prêmios chegaram a patamares historicamente baixos.

Ocorreram casos pontuais de retorno próximo ou até inferior ao de títulos públicos equivalentes. Esse movimento reflete a intensificação da disputa por ativos com maior previsibilidade de fluxo, histórico consistente e estruturas já testadas.

A importância estratégica da originação

É nesse contexto que a dinâmica do mercado começa a se deslocar. A discussão deixa de estar concentrada apenas em volume e passa a girar em torno de acesso, estrutura e capacidade de análise.

Em outras palavras, a originação se torna cada vez mais decisiva.

Esse ponto ganha ainda mais relevância no middle market brasileiro. Diferentemente das grandes companhias, que contam com ratings públicos, empresas médias operam com maior assimetria de informação.

Ao mesmo tempo, representam uma parcela significativa da economia: respondem por cerca de 30% do PIB e mais de 50% dos empregos formais, segundo o Sebrae.

Desafios na estruturação de operações

Esse descompasso entre relevância econômica e disponibilidade de informação cria um ambiente em que boas oportunidades existem, mas não são facilmente acessíveis.

Na prática, isso significa que a capacidade de originar operações passa por fatores que vão além do pipeline tradicional.

Envolve proximidade com o tomador, entendimento profundo do negócio, leitura setorial e, principalmente, disciplina na estruturação.

Não se trata apenas de encontrar crédito, mas de construir operações que façam sentido ao longo do tempo, com garantias adequadas, fluxos previsíveis e risco corretamente precificado.

Gestão ativa e novas fronteiras de crescimento

Ao mesmo tempo, o amadurecimento do mercado eleva o nível de exigência sobre a qualidade dessas operações.

Eventos recentes reforçaram a importância de olhar para além do retorno nominal, trazendo mais atenção à consistência dos lastros, à robustez das estruturas e à diversificação das carteiras.

Esse movimento também ajuda a explicar por que a competição tende a se concentrar nos ativos mais óbvios, enquanto oportunidades fora do radar permanecem menos exploradas.

Não por falta de potencial, mas pela complexidade envolvida na sua análise e estruturação. O crédito privado brasileiro deve seguir em expansão. Mas a próxima etapa desse crescimento tende a ser marcada por maior sofisticação.

Haverá uma distinção mais clara entre quem apenas participa do mercado e quem efetivamente consegue navegar suas complexidades.

É exatamente nesse ponto que a originação deixa de ser etapa operacional e passa a ser o coração da estratégia.

*Breno Sartoretto é Diretor e VP de Operações da Artesanal Investimentos.

 

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