Willian Conzatti, da Concrédito: “Basicamente disseram: vamos acabar com o produto em 30 dias” (ConCrédito/Divulgação)
Repórter de Negócios
Publicado em 8 de abril de 2026 às 13h22.
O negócio do gaúcho Willian Conzatti ia de vento em popa.
No ano passado, ele tinha acabado de estruturar cerca de R$ 250 milhões para financiar a operação de crédito atrelada ao saque-aniversário do FGTS para a Concrédito, sua empresa de crédito, — um produto que, àquela altura, reunia tudo o que uma fintech busca: escala rápida, baixo risco e demanda praticamente infinita.
A engrenagem estava montada, os parceiros financeiros abasteciam a operação e o crescimento parecia mais uma questão de execução do que de estratégia.
Aí, tudo mudou.
Em outubro, uma mudança nas regras do FGTS atingiu em cheio o principal produto da empresa. As principais alterações incluem um prazo de carência de 90 dias para contratar empréstimos, limite de até cinco parcelas anuais com teto de R$ 500 por saque, e a permissão de apenas uma operação de antecipação por ano.
“Basicamente disseram: vamos acabar com o produto em 30 dias”, afirma Conzatti.
Em um mês, o empreendedor precisou encontrar uma nova rota para seu negócio, com funding, tecnologia e distribuição já funcionando. A opção foi olhar para uma alternativa que já existia, mas ainda era periférica.
O crédito consignado privado vinha sendo testado havia alguns meses, sem ocupar o centro da estratégia. A mudança regulatória acelerou esse processo à força.
Agora, o passo mais definitivo deste novo momento é um aporte de R$ 100 milhões por FIDC que a Concrédito acaba de captar. Esse capital será usado para financiar o crédito consignado que a empresa está vendendo.
A mudança não vem sem novos desafios. Talvez o maior deles está na diferença entre os dois produtos.
No FGTS, o risco é praticamente nulo: o crédito é garantido por um ativo já existente, o que permite aprovações rápidas e volume elevado. No consignado privado, o jogo muda. Há análise de crédito, recorte de público, necessidade de conversão mais qualificada.
“Você precisa falar com 100 mil pessoas por dia para fechar 3 ou 4 mil contratos”, diz o fundador.
Isso exige outra infraestrutura. Hoje, cerca de 80% do atendimento da empresa é feito por inteligência artificial, principalmente em canais como WhatsApp e Instagram, numa operação desenhada para ganhar escala sem depender de aumento proporcional de equipe.
É essa camada tecnológica que permitiu acelerar a transição em um intervalo tão curto.
Os números mostram que o movimento não ficou só no discurso. Em cerca de um ano, a empresa já originou aproximadamente R$ 400 milhões em crédito consignado privado, inicialmente operando com capital de parceiros, bancos que compravam a carteira gerada pela fintech, e agora pelo fundo de R$ 100 milhões.
Willian Conzatti começou sua jornada empreendedora cedo. Ainda na infância, em Eldorado do Sul, no Rio Grande do Sul, ele lavava carros ao lado do pai para complementar a renda da família.
“Eu tinha 11 anos quando comecei a trabalhar. Meu pai queria me manter longe das ruas, e isso me ajudou muito a entender o valor do esforço”, diz.
Mais tarde, passou por call centers, onde construiu carreira até chegar à gestão. O contato com vendas, metas e operação em escala veio ali, antes da decisão de empreender.
A empresa nasceu em 2016, no quarto de casa, com estrutura improvisada e foco em crédito acessível.
Desde o início, o diferencial esteve menos no produto em si e mais na capacidade de distribuição. Mesmo sem estrutura sofisticada, a operação já chamava a atenção de instituições financeiras pela geração de volume, um ativo que, no mercado de crédito, costuma abrir portas.
A captação de R$ 100 milhões não resolve todos os desafios, mas muda o patamar da operação no novo produto.
Ao estruturar um fundo próprio para o consignado privado, a empresa deixa de atuar apenas como originadora para terceiros e passa a capturar mais valor ao longo da cadeia, um movimento comum entre fintechs que atingem certo nível de maturidade, mas que, neste caso, foi antecipado pela necessidade.
O plano agora é consolidar essa frente, ampliando a originação e refinando os modelos de análise e distribuição.
Trata-se de um mercado mais complexo, com margens e riscos diferentes, mas também com espaço relevante fora dos grandes bancos. Se a trajetória recente mostrou alguma coisa, é que o negócio deixou de ser apenas uma tese bem executada para se tornar uma operação capaz de reagir sob pressão.