Digitalização no canteiro e no pós-obra reduz custos e melhora a experiência do cliente (Me 3645 Studio/Getty Images)
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Publicado em 19 de março de 2026 às 10h00.
Por Jean Ricardo Sacenti*
Com a projeção da taxa Selic encerrando 2026 em 12,25%, cerca de 450 mil novas famílias devem recuperar o acesso ao crédito imobiliário, segundo estimativas do Boletim Focus.
O número é celebrado pelo mercado imobiliário como evidência de uma retomada consistente, mas esconde uma implicação menos confortável para construtoras e incorporadoras: o comprador que volta ao mercado é estruturalmente diferente.
Ele é mais informado, mais exigente e menos tolerante a ineficiências ao longo de toda a jornada de compra. Esse consumidor atravessou um ciclo de transformação digital profunda dos serviços financeiros, do varejo e da própria relação com marcas.
Ele contrata financiamentos com poucos cliques, acompanha prazos e condições em tempo real pelos aplicativos bancários e se acostumou a experiências orientadas por dados, transparência e agilidade.
Ao assinar o contrato do imóvel, ele não “desliga” essa expectativa. Ao contrário: passa a exigir o mesmo nível de eficiência quando surgem dúvidas, solicitações de manutenção ou problemas após a entrega das chaves.
É nesse ponto que o pós-obra deixa de ser um detalhe operacional e se transforma em um dos principais focos de fricção do setor em 2026.
Dados divulgados pela ImobiPress, com base em estudos da FastBuilt, mostram que construtoras que digitalizaram manuais do proprietário e fluxos de assistência técnica reduziram, em média, 16% dos custos operacionais.
Houve ainda uma queda de 23% nas demandas de assistência e 65% nos contatos telefônicos. Esses números desmontam a narrativa de que tecnologia no pós-venda representa um custo adicional.
Na prática, o que encarece a operação é a permanência de processos manuais, fragmentados e opacos, que ampliam retrabalho, aumentam conflitos e corroem a percepção de valor da marca.
O argumento mais recorrente contra essa transformação digital costuma ser a pressão sobre a mão de obra. A construção civil convive com um déficit estrutural de profissionais.
Projeções de entidades como a Firjan indicam a necessidade de centenas de milhares de novos trabalhadores para sustentar o crescimento até 2026. Mas esse cenário reforça a urgência da tecnologia.
Em um ambiente de escassez, manter equipes sobrecarregadas por atendimentos repetitivos, falhas de comunicação e registros dispersos é desperdiçar capital humano qualificado.
Automatizar a gestão do imóvel após a entrega não significa substituir pessoas, mas liberar tempo para atividades técnicas, preventivas e estratégicas, onde o valor do trabalho é maior.
Existe ainda uma resistência cultural mais profunda, ancorada na ideia de que essa etapa “sempre foi problemática” e, portanto, não merece prioridade estratégica. Esse conformismo tem custo elevado.
A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) aponta os vícios construtivos como uma das principais origens de litígios no setor e lidera um projeto nacional de redução desses passivos.
Sem dados estruturados, histórico de intervenções e rastreabilidade de atendimentos, a construtora se coloca em posição vulnerável em disputas judiciais que poderiam ser evitadas na origem.
Mais do que um tema operacional ou jurídico, o atendimento tornou-se um componente central da experiência do cliente. O comprador não separa obra, entrega e suporte posterior.
Para ele, tudo é continuidade. Uma empresa pode entregar um imóvel tecnicamente correto, mas, se falhar no acompanhamento, perde rapidamente valor simbólico e reputacional.
Em um ambiente dominado por redes sociais e decisões de compra influenciadas por avaliações públicas, essa etapa deixou de ser invisível. Ela passou a ser narrada, comparada e julgada em tempo real.
A retomada do mercado imobiliário não será sustentada apenas por juros mais baixos, mas pela capacidade das empresas de acompanhar a sofisticação do consumidor.
Construtoras que tratam o suporte técnico como estratégia reduzem custos e constroem confiança. As que insistem em modelos analógicos transformam a retomada em risco.
O financiamento voltou, o comprador mudou, e o atendimento consolidou-se como o verdadeiro teste de maturidade do setor.
*Jean Ricardo Sacenti é especialista em pós-obra e transformação digital no mercado imobiliário, além de CEO e cofundador da Predialize, uma construtech que digitaliza e integra a gestão da operação e manutenção de empreendimentos imobiliários.