A coexistência entre renováveis e térmicas garante segurança ao sistema (Delta /Divulgação)
Plataforma de conteúdo
Publicado em 1 de abril de 2026 às 07h00.
Por Lourival Teixeira, presidente Delta Geração no Grupo Delta Energia*
A transição energética é, sem dúvida, uma agenda relevante do nosso tempo. No Brasil, acompanhamos o avanço acelerado das fontes renováveis, especialmente a solar e a eólica.
Essas fontes hoje posicionam nossa matriz elétrica em um patamar de sustentabilidade invejável globalmente. Porém, a expansão dessas fontes não elimina a necessidade das usinas termelétricas.
Na verdade, quanto maior a participação de fontes intermitentes no sistema, mais indispensável é a presença de fontes capazes de garantir estabilidade e segurança energética em nossa matriz.
Os dados recentes do setor reforçam esse cenário. Segundo o Balanço Energético Nacional 2025, da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a geração termelétrica cresceu 11,4% em volume no último ano.
Esse crescimento acompanhou a expansão de 5,5% na oferta interna de energia elétrica. Mesmo com uma matriz elétrica altamente renovável, que atingiu 88,2% de renovabilidade, o avanço térmico demonstra um ponto crucial.
Impulsionado principalmente pelo gás natural e pela biomassa, esse avanço prova que a segurança energética do sistema depende dessa base firme para sustentar o crescimento do consumo nacional.
No setor elétrico brasileiro, lidamos frequentemente com o que costumo chamar de "cobertor curto". Durante o dia, somos privilegiados pela fonte solar em abundância.
Mas quando o sol se põe, justamente na hora em que milhões de pessoas chegam em suas casas e elevam o consumo, enfrentamos um descompasso operacional. Esse fenômeno cria a necessidade de uma rampa de carga severa para compensar essa perda.
Estimativas da Thymos Energia mostram que a necessidade associada à queda da geração solar pode chegar a 35 gigawatts (GW) nos dias de hoje e a 43 GW até 2028. Isso exige resposta rápida do sistema.
É neste momento que as usinas termelétricas assumem um papel estratégico ao funcionar como um pilar que viabiliza o crescimento seguro da energia verde, sem qualquer competição com as fontes renováveis.
Quando o regime hidrológico é favorável, as hidrelétricas conseguem atender boa parte dessa variação de demanda.
No entanto, se as condições de chuva não são suficientes, ou ainda há a necessidade de preservação dos níveis dos reservatórios, as usinas termelétricas passam a desempenhar um papel ainda mais essencial.
Elas são fundamentais para a equalização desse ecossistema. A necessidade de estabilidade não é apenas um desafio brasileiro, mas uma tendência mundial.
Vivemos uma corrida global por energia firme, impulsionada pela expansão da inteligência artificial e dos data centers. A demanda por energia disponível 24 horas por dia tem pressionado a cadeia global de suprimentos.
Isso tem elevado o custo de equipamentos de geração e ampliado prazos de entrega. Por essa razão, o planejamento energético de longo prazo passa a ser crucial.
O maior custo para a sociedade não é manter uma usina disponível, mas sim o risco da falta de energia quando ela é necessária. A ausência de eletricidade paralisa a indústria e compromete o futuro econômico do país.
Mecanismos como os Leilões de Reserva de Capacidade (LRCap) cumprem papel essencial ao sinalizar antecipadamente a necessidade de potência firme para o sistema.
Para projetos de infraestrutura dessa magnitude, quanto maior o horizonte de planejamento, mais competitivas e eficientes se tornam as soluções para o setor elétrico brasileiro.
Ao mesmo tempo, o perfil das usinas termelétricas está evoluindo rapidamente. Hoje, operamos com foco crescente em flexibilidade, eficiência e inovação tecnológica.
O uso de combustíveis renováveis, como o biodiesel, abre caminho para modelos de geração térmica livres de combustíveis fósseis. A modernização de ativos e a integração com o gás natural permitem respostas rápidas.
Assim, a transição energética exige capacidade de adaptação e estar preparado para investir, inovar e contribuir para a segurança energética do país.
A experiência da usina William Arjona durante a crise hídrica de 2021 mostrou, na prática, como a geração térmica pode ser decisiva para sustentar o sistema em momentos críticos.
O fato é que a transição energética brasileira não será construída pela substituição excludente de tecnologias, mas pela complementaridade estratégica entre diferentes fontes.
As fontes renováveis são o futuro da nossa matriz, mas as usinas termelétricas serão o alicerce que garantirá que o Brasil chegue a esse futuro com segurança, competitividade e desenvolvimento.
*Lourival Teixeira é presidente Delta Geração no Grupo Delta Energia. Com mais de 26 anos no setor, trabalhou para empresas como EDP, General Electric, Petrobras, GPE, El Paso, Shell e Enron. Também desenvolveu atividades internacionais pela Wood Group e EGE Haina. É formado em Engenharia Elétrica pela UFMT, mestre pela UNESP e possui MBA pela FGV.