O ser humano, por outro lado, é capaz de decisões pragmáticas e atalhos inteligentes (elenabsl/Shutterstock)
Plataforma de conteúdo
Publicado em 7 de julho de 2026 às 10h00.
Por Felipe Endlich, especialista em aplicação estratégica de IA*
A inteligência artificial (IA) deixou de ser promessa e passou a ocupar o centro das decisões corporativas. Ainda assim, persiste uma leitura simplista de que a tecnologia seria capaz de resolver qualquer problema organizacional de forma autônoma.
Essa expectativa irreal tem levado empresas a investir pesado em projetos generalistas, muitas vezes desconectados da estratégia e dos processos reais do negócio. A IA transforma profundamente a dinâmica do trabalho, mas não elimina a necessidade do fator humano. Pelo contrário, expõe ainda mais sua relevância.
Os dados ajudam a desmontar o mito da “bala de prata”. Segundo o relatório The State of AI in 2024, da McKinsey, apenas 21% das empresas que adotaram IA em larga escala afirmam ter capturado valor significativo e sustentável com a tecnologia.
O principal motivo apontado para resultados abaixo do esperado não é a limitação técnica dos modelos, mas a falta de clareza sobre onde e como aplicá-los.
A IA gera valor quando é usada de forma direcionada, em atividades nas quais apresenta vantagem clara, como automação de análises repetitivas, geração inicial de código ou apoio à tomada de decisão, e não como tentativa de substituir integralmente processos complexos.
Na prática, a eficiência máxima surge da colaboração entre pessoas e máquinas. Um estudo da MIT Sloan Management Review, publicado em 2024, mostra que equipes que utilizam IA como ferramenta de apoio, e não como substituta, apresentam ganhos médios de produtividade entre 20% e 30%, com melhora na qualidade das entregas.
O dado reforça um ponto essencial: código, textos e análises gerados por IA exigem supervisão humana antes de serem utilizados em ambientes críticos.
A preocupação central das empresas mais maduras não é alcançar autonomia total, mas reduzir tempo operacional sem comprometer segurança, contexto e responsabilidade.
O fator humano permanece insubstituível porque envolve julgamento, criatividade e leitura de contexto. A IA tende a buscar soluções estatisticamente ótimas, mesmo que isso implique custos mais altos ou maior complexidade.
O ser humano, por outro lado, é capaz de decisões pragmáticas, atalhos inteligentes e escolhas baseadas em valores, cultura e impacto social.
De acordo com o Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, 44% das habilidades exigidas no mercado de trabalho devem mudar até 2030, com crescimento justamente em competências analíticas, criativas e de liderança, áreas onde a IA não atua de forma plena.
O medo da substituição da mão de obra ignora essa transformação estrutural. O mesmo relatório do Fórum Econômico Mundial aponta que, embora a automação elimine algumas funções, a adoção de IA deve gerar cerca de 69 milhões de novos postos de trabalho globalmente até 2030, especialmente em áreas técnicas, estratégicas e de supervisão.
No desenvolvimento de software, por exemplo, a função não desaparece, mas se reposiciona. O profissional deixa de ser apenas executor e passa a atuar como arquiteto, revisor e responsável pela qualidade, segurança e aderência do código ao negócio.
A discussão relevante, portanto, não é se a IA vai substituir pessoas, mas como as empresas estão redesenhando o trabalho a partir dela. A vantagem competitiva não está em automatizar tudo, mas em saber onde a tecnologia realmente agrega valor e onde o julgamento humano é indispensável.
Organizações que entendem essa distinção constroem ganhos consistentes e sustentáveis. As que apostam na autonomia total tendem a acumular frustrações.
A IA é poderosa, mas continua sendo ferramenta. O diferencial segue sendo quem a utiliza, com critério, visão e responsabilidade.
*Felipe Endlich é Head de Projetos de Desenvolvimento com IA na Verzel. Lidera projetos de desenvolvimento de software com foco na aplicação estratégica de IA, otimização de processos corporativos e garantia de valor de negócio.