Bússola

Um conteúdo Bússola

‘Fadiga de benefícios’: o que é e como ela afeta as marcas

Estudo da EY revela que metade dos clientes não sente conexão emocional com marcas mesmo participando de seus programas de fidelidade

Consumidores enfrentam exaustão digital com excesso de aplicativos de marcas (Drazen Zigic/Shutterstock)

Consumidores enfrentam exaustão digital com excesso de aplicativos de marcas (Drazen Zigic/Shutterstock)

Bússola
Bússola

Plataforma de conteúdo

Publicado em 1 de junho de 2026 às 10h00.

Por Aluísio Cirino*

Se você abrir o celular agora, é provável que encontre diversos aplicativos de marcas que prometem vantagens: pontos, cashback, descontos exclusivos, missões e benefícios especiais.

Em teoria, tudo isso deveria aumentar o engajamento dos consumidores. Na prática, muitas vezes acontece o contrário.

Estamos entrando em uma fase que chamo de fadiga de benefícios.

O consumidor se acostumou a participar de diferentes programas de relacionamento, mas também começou a perceber que acompanhar todos eles exige tempo, atenção e, principalmente, esforço.

São muitas regras, muitos aplicativos e diferentes mecânicas para entender. Em meio a tantas opções, o resultado é que boa parte desses programas acaba ficando esquecida.

O problema não é a existência de benefícios. O desafio está na experiência.

O problema central não é a existência de benefícios em si. O desafio real está, fundamentalmente, na experiência entregue ao usuário.

Atualmente, o mercado enfrenta um cenário crítico nesse sentido: a qualidade da experiência do cliente continua a deteriorar-se globalmente, com o Índice de Experiência do Cliente da Forrester para 2025 a atingir um novo mínimo após quatro anos consecutivos de declínio.

Esse dado alarmante reflete o desgaste das estratégias tradicionais de atendimento e relacionamento.

Quando um programa de fidelidade exige que o cliente memorize regras complexas, acompanhe prazos, entenda diferentes formatos de pontuação ou navegue por interfaces pouco intuitivas, o valor percebido começa a diminuir drasticamente.

O que deveria ser um incentivo positivo passa a gerar frustração ou simplesmente desinteresse.

Esse fenômeno aparece com frequência quando empresas pensam o programa de fidelidade apenas como uma estrutura de recompensas financeiras ou transacionais, sem considerar a jornada completa do usuário no ecossistema da marca.

Como consequência direta dessa fricção na experiência do cliente, percebe-se que a conexão emocional entre marcas e consumidores está enfraquecendo.

De acordo com dados recentes da EY, apenas 50% dos clientes dizem que os programas de fidelidade os fazem sentir mais positivamente em relação a uma marca.

Esse indicador sinaliza uma lacuna crescente e perigosa entre a participação burocrática (o simples cadastro) e a afinidade genuína. Estar inscrito em um programa já não significa, necessariamente, que o cliente ama ou respeita aquela empresa.

Como a saturação do mercado transforma o comportamento do consumidor

Do ponto de vista do consumidor, participar de um programa precisa ser algo prioritariamente simples e intuitivo.

Ele quer entender rapidamente qual é o benefício, como pode utilizá-lo e qual valor real aquela relação oferece para o seu dia a dia.

Quando isso não fica claro, a tendência natural é abandonar o engajamento, mesmo que as vantagens teóricas existam e sejam vantajosas.

Outro ponto importante que potencializa esse cenário é a saturação do mercado.

Hoje, praticamente todos os setores oferecem algum tipo de programa de relacionamento: varejo, mobilidade, alimentação, serviços financeiros, entretenimento.

Isso cria um ambiente de ruído extremo, no qual o consumidor precisa escolher criteriosamente com quais marcas realmente vale a pena manter uma relação mais ativa.

Diante dessa saturação e da perda de relevância de propostas genéricas, o comportamento do público tem sido mais seletivo e defensivo.

Em vez de se pulverizarem em dezenas de incentivos novos, os consumidores continuam a se concentrar em marcas de confiança, com 60% mantendo a fidelidade habitual e 20% aumentando ativamente as compras dessas marcas específicas, conforme aponta um levantamento publicado pela The Australian.

Portanto, a confiança e a consistência tornaram-se os verdadeiros filtros contra a exaustão de opções.

Os desafios tecnológicos e operacionais na retenção de clientes

Para as marcas que desejam romper essa barreira e se tornarem uma dessas escolhas de confiança, o principal obstacle a ser superado é operacional, não intencional.

O Relatório de Fidelização da EY de 2025 evidencia que a maioria das marcas não possui as plataformas integradas, a governança adequada e a tomada de decisões em tempo real necessárias para transformar a ambição de personalização em resultados consistentes para o cliente.

Ou seja, o desejo corporativo de encantar existe, mas a infraestrutura tecnológica e de processos falha em entregar a agilidade que o consumidor moderno exige.

Por fim, destaco que todo esse movimento exige uma mudança profunda e urgente de abordagem por parte das empresas.

Em vez de adicionar cada vez mais mecânicas, níveis de pontuação e regras mirabolantes, muitas organizações começam a perceber que simplificar pode ser um caminho muito mais eficiente e lucrativo.

Programas com propostas diretas, benefícios compreensíveis, jornadas fluidas e integração nativa com o cotidiano do cliente tendem a gerar muito mais valor do que estruturas complexas, robustas e que, no fim do dia, são pouco utilizadas.

O futuro da fidelização pertence a quem descomplica a vida do consumidor.

*Aluísio Cirino é CEO e fundador da Alloyal, Loyalty Tech que entrega mais vendas, engajamento e retenção de usuários para empresas por meio de soluções personalizadas de fidelidade.

Acompanhe tudo sobre:Consumidoresprogramas-de-fidelidade

Mais de Bússola

Programa focado em bem-estar abre 30 vagas para trainees

Antes de comprar um imóvel, entenda como a reforma tributária afeta o ITBI 

O que muda se o fim da escala 6x1 for aprovado

O sushi deixou de ser artigo de luxo?