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O ‘lifewide learning’ pode ser o segredo para aprender com o mundo corporativo

Saiba como o aprendizado incidental e o lifewide learning podem transformar sua evolução profissional e pessoal de forma contínua

Transformar é onde acontece a mágica, mas exige disciplina. De pouco adianta viver experiências diversas se você não para para processá-las (Jacob Wackerhausen/Getty Images)

Transformar é onde acontece a mágica, mas exige disciplina. De pouco adianta viver experiências diversas se você não para para processá-las (Jacob Wackerhausen/Getty Images)

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Publicado em 30 de janeiro de 2026 às 17h00.

Por Conrado Schlochauer*

O mundo corporativo está obcecado com aprendizado. Empresas investem milhões em programas de treinamento, plataformas de educação corporativa e certificações. Mesmo assim, essas iniciativas não parecem se traduzir em mais preparo no cotidiano do trabalho. Muitos profissionais seguem operando no limite de suas capacidades.

O modelo 70-20-10 no ambiente corporativo

Existe um modelo famoso no ambiente corporativo chamado 70-20-10. Ele diz que 70% do aprendizado acontece em experiências de trabalho e 20% em conversas com colegas. Apenas 10% ocorre em treinamentos formais. Charles Jennings, um dos principais especialistas no tema, me disse certa vez que chamaria de 75-24-1 hoje.

O aprendizado de verdade, segundo ele, ocorre no dia a dia das pessoas. Esse é o lifewide learning, aprendizado que acontece em todos os domínios da vida. Não acontece apenas em salas de aula ou plataformas online. Esse conceito, proposto pela UNESCO, reconhece que aprendemos tanto no trabalho quanto na família.

Também aprendemos no lazer ou na convivência comunitária. O problema é que vivemos no "piloto automático".

Atravessamos reuniões sem prestar atenção e executamos tarefas sem refletir sobre o que aprendemos. Trocamos experiências potencialmente transformadoras por respostas automáticas.

E aí surge a pergunta: como transformar esses 99% de tempo não estruturado em oportunidades reais de crescimento?

Os 3 movimentos do aprendizado incidental

O aprendizado incidental, aquele que ocorre como subproduto de atividades que realizamos por outros motivos, pode ser associado a três movimentos cíclicos: despertar, explorar e transformar.

Mais do que um processo linear, estamos falando de uma jornada em que cada movimento alimenta o próximo. É um ciclo contínuo de aprendizado contínuo e desenvolvimento.

Despertar é sair do "piloto automático"É reconhecer que você tem muito mais controle sobre o que acontece "por acaso" em sua vida do que imagina.

Não se deve ignorar as condições que não escolhemos e que moldam profundamente nossas trajetórias. Fatores como origem social, gênero ou raça são fundamentais.

O ponto aqui é olhar para o que está ao alcance.  Nosso desenvolvimento se baseia na interação com os ambientes em que vivemos.

Embora muitos desses ambientes nos sejam dados, outros são escolhidos, ajustados e até criados. Isso ocorre por pequenas decisões: onde colocamos atenção e com quem nos conectamos.

Assumindo a agência no desenvolvimento profissional

No contexto profissional, despertar significa assumir agência sobre seu desenvolvimento. A agência é a capacidade de agir de forma intencional e fazer escolhas conscientes.

É influenciar ativamente sua trajetória, em vez de apenas reagir ao que a empresa, o RH ou a liderança definem. Explorar é aumentar deliberadamente sua exposição ao novo.

No ambiente corporativo, isso não significa necessariamente mudar de empresa ou fazer um MBA. Significa buscar experiências que ampliem seu repertório de vida, não apenas técnico.

Um executivo pode explorar conversando com o estagiário sobre sua visão de mundo. Pode explorar liderando projetos fora de sua expertise ou frequentando eventos que normalmente ignora.

A pesquisadora Gillian Sandstrom descobriu que conversas com estranhos aumentam nosso bem-estar. Elas também expandem radicalmente nossa capacidade de lidar com incertezas.

No ambiente corporativo, isso se traduz em maior adaptabilidade, criatividade e capacidade de navegar mudanças. São exatamente as competências que as empresas dizem buscar, mas raramente cultivam.

Transformação através da presença e reflexão

Explorar também significa buscar experiências fora do trabalho que irrigam sua vida profissional. Estudos demonstram que atividades culturais influenciam a "abertura à experiência". Esse traço determina nossa curiosidade e disposição para o novo. Quanto mais você consome arte, viaja e experimenta o diferente, mais aberto você se torna.

Transformar é onde acontece a mágica, mas exige disciplina. De pouco adianta viver experiências diversas se você não para para processá-las. Transformar requer dois movimentos essenciais: presença e reflexão. Presença é estar genuinamente no momento atual.

Por quantas reuniões você passa enquanto responde emails mentalmente? Quantos projetos você executa sem realmente observar o que está acontecendo?

A UNESCO propõe que a educação de adultos deve ser "verdadeiramente transformadora". Ela não deve ser apenas reativa às necessidades do mercado de trabalho. Mas transformação exige presença: você precisa estar lá para que algo te toque. Reflexão é o ato de parar para pensar sobre o que você está vivendo.

É nesse movimento que entra a metacognição, que é quando você reflete conscientemente sobre como aprende. No ambiente corporativo, isso se traduz em rituais para processar o cotidiano. Pode ser quinze minutos no final da semana perguntando: "O que aprendi? O que me surpreendeu? O que eu faria diferente?"

Por que o lifewide learning importa para o futuro

O lifewide learning sempre foi tratado como secundário em ambientes corporativos. Era visto como um hobby de desenvolvimento pessoal sem lugar na seriedade dos negócios. Mas essa visão está mudando, e precisa mudar mais rápido.

O Institute for Lifelong Learning da UNESCO publicou um relatório revelador. O título é "Educação para a Cidadania - empoderando adultos para a mudança".

O documento afirma que a aprendizagem precisará se estender além das necessidades laborais. Existe um fenômeno que o jornalista Derek Thompson chama de "workism". Isto é, a crença de que o trabalho é a peça central do nosso propósito e identidade. Estamos substituindo a religião pelo trabalho, esperando que ele nos forneça autorrealização.

E, no processo, acabamos por esquecer de viver. O escritor Simone Stolzoff, autor de "The Good Enough Job", se declara um "workist em recuperação". Ele buscou um emprego que fosse reflexo único de quem ele é. Percebeu que estava desperdiçando sua vida real em busca de uma vida profissional perfeita.

As etapas do aprendizado incidental nos convidam a algo mais profundo. O objetivo não é aprender apenas para ser mais competitivo, mas para viver melhor.

Para nos tornarmos quem queremos ser, não apenas melhores executores no ambiente corporativo. *Conrado Schlochauer é especialista em aprendizagem contínua, pesquisador e consultor. É fundador da nōvi, a lifewide learning company.

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