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Lensa: quanto você paga para usarem sua imagem?

Além pagar para usar o app, cliente doa a propriedade intelectual de sua imagem para a empresa monetizar da forma que quiser

Lensa está disponível na App Store e Google Play (Oli Scarff/Getty Images)

Lensa está disponível na App Store e Google Play (Oli Scarff/Getty Images)

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Carolina Fernandes

2 de dezembro de 2022, 14h30

Os avatares criados pelo Lensa – aplicativo que trabalha com Inteligência Artificial (IA) – invadiram as redes sociais na última semana. Até o momento, foram publicadas mais de 400 mil postagens com as imagens geradas no APP com a hashtag no Instagram. O serviço cobra de R$ 10,90 a R$ 22,90 por pacote que variam de 50 a 200 imagens, mas você realmente sabe o quanto custa a sua imagem?

"Não existe nada de graça" é uma das expressões que podemos usar para traduzir a viralização. Em 2016, poucos se lembram, mas um APP chamado Prisma (mesma empresa) também viralizou com tecnologia parecida. Acontece que o serviço era gratuito e serviu de aprendizado para o Lensa que hoje é bem mais eficiente e é pago, fazendo com que o tempo de vida útil do produto seja maior. Uma ótima maneira de captar dados relevantes e limpos, uma vez que o usuário precisa cadastrar um cartão de crédito com dados atrelados ao seu CPF, por exemplo.

Diferente do que se espera de um aplicativo pago, o valor que você está deixando é irrisório para o tanto que a empresa Prisma está ganhando, fazendo com que essa relação de venda seja aquém do que deveria. Primeiro porque o material não é seu, é uma propriedade da Lensa e você apenas ganha permissão para usar. Você não está pagando o seu avatar em dinheiro e sim, em dados.

Isso é o que consta nos Termos de Uso e o que afirma a especialista em propriedade intelectual e sócia da DSMA Azulay Julia Pazos. "Quando o usuário se cadastra ele está concedendo licença irrevogável, irretratável, perpétua, global, livre de qualquer remuneração para que a Prisma possa explorar como bem entender o Conteúdo do Usuário, independentemente de incluir o nome, imagem ou personalidade, suficiente para indicar a identidade do indivíduo.  Então, você não está comprando um serviço, você está doando a propriedade intelectual atrelada a sua imagem, que é um dado pessoal, para a empresa monetizar sem qualquer compensação", explica.

E tem mais, além da monetização através de anúncios da empresa e de terceiros - que vão estudar seus padrões de consumo para te oferecer outros serviços -, o usuário ainda está ajudando a empresa a evoluir exponencialmente o aprendizado da AI, pois quanto mais dados o APP absorve, mais preciso ele fica na geração das imagens. E esse tipo de processo custaria muito caro para a Prisma sem a viralização. Mais um ponto estratégico do produto.

Agora você pode estar pensando que a Prisma passou dos limites e que em tempos de proteção de dados, esse cenário é absurdo. Infelizmente, nós estamos autorizando o maior bem existente atualmente - nossos dados pessoais - para todos os aplicativos que utilizamos, em diferentes níveis de privacidade, achando que, porque o custo é baixo ou gratuito, estamos levando vantagem. Não é bem assim, e a escolha não é totalmente sua.

Isso porque a tecnologia utiliza alguns gatilhos dificílimos de resistir à adesão:

  1. Pioneirismo - querer ser um dos primeiros a usar o viral
  2. FOMO - medo de ficar fora de uma trend
  3. Preço - sensação de pagar pouco por muito
  4. Ego - a necessidade de utilizar a própria imagem em uma representação de perfeição e querer ser visto dessa forma
  5. Efeito manada - querer fazer parte de um grupo de pessoas

Não sabemos o futuro do compartilhamento de dados, mas sabemos que sempre por trás de uma inovação, o marketing vai ser o carro-chefe, eliminando todas as objeções de compra e tornando o produto muito mais rentável para o coletor de dados, do que para o fornecedor (usuário). Parece que o APP Lensa custa um pouco mais de R$ 10, não é?

*Carolina Fernandes é CEO da Cubo Comunicação, palestrante, especialista em Marketing & Comunicação

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