Mecanismos de blended finance são essenciais para viabilizar a transição ecológica no Brasil (manusapon kasosod/Getty Images)
Diretor-geral da Beon - Colunista Bússola
Publicado em 4 de março de 2026 às 10h00.
Nos últimos anos, tenho insistido que sustentabilidade não é um nicho de mercado ou um custo acessório, mas a própria lente pela qual a viabilidade econômica das organizações no longo prazo deve ser avaliada.
No entanto, para que essa ótica seja aplicada na prática, precisamos de mecanismos financeiros que saibam decodificar riscos e oportunidades em um cenário de incertezas climáticas.
É exatamente aqui que o conceito de blended finance pode destravar investimentos importantes.
O recente resultado do terceiro leilão do programa Eco Invest Brasil, conduzido pelo Tesouro Nacional, é um marco pedagógico sobre como o capital público pode — e deve — atuar como catalisador.
A demanda registrada foi surpreendente, superando em dez vezes a expectativa inicial do governo. Seis grandes instituições financeiras mobilizaram um volume de recursos que viabilizará mais de R$ 50 bilhões em investimentos.
O dado mais relevante, contudo, não é apenas o montante, mas a natureza desse capital: estamos falando de equity, um recurso mais paciente e de maior qualidade, fundamental para projetos de infraestrutura verde e bioeconomia que exigem tempo de maturação.
O blended finance opera sob a premissa da colaboração estratégica.
Não se trata de subsídio a fundo perdido, mas do uso inteligente do chamado capital catalítico para mitigar riscos que o investidor privado, sozinho, ainda não está disposto a assumir integralmente.
No caso do Eco Invest, o Tesouro Nacional oferece recursos a custos reduzidos que, nas mãos dos bancos, servem para criar mecanismos de proteção cambial ou absorção de primeiras perdas.
Isso "eleva a barra" do mercado, permitindo que projetos de combustíveis sustentáveis de aviação, baterias e economia circular — que concentram a maior parte do interesse neste leilão — tornem-se viáveis e atrativos para o capital estrangeiro.
O sucesso desse leilão reforça uma tese central da gestão para a sustentabilidade: a de que a criação de valor compartilhado exige processos bem estruturados e parcerias sólidas.
Quando o governo estabelece critérios claros, como índices de alavancagem mínima e a obrigatoriedade de destinação de parte dos recursos para startups e pequenas empresas, ele está desenhando um ecossistema.
Ele induz a internalização de externalidades positivas e permite que o impacto socioambiental positivo venha acompanhado de rigor técnico e viabilidade financeira.
Estamos vivendo o que chamo de "Era da Verdade", onde a consistência das ações é o único ativo capaz de construir reputação e atrair capital de longo prazo.
O Eco Invest mostra que, quando as peças do quebra-cabeça financeiro são montadas com inteligência técnica e visão sistêmica, o mercado responde.
O desafio agora é garantir que esses R$ 52 bilhões se traduzam em regeneração efetiva e resiliência para os nossos biomas e para a nossa infraestrutura.
Afinal, como sempre lembramos, "no jogo da sustentabilidade, o sucesso só é real se for compartilhado e se for capaz de resolver problemas que afetam a todos."