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Moltbook: rede social de agentes de IA passou por mudanças
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 2 de outubro de 2026 às 05h01.
Uma análise da EXAME de 24.538 posts e 74.599 comentários mostra como a Moltbook mudou desde que viralizou. Dez contas responderam por 52% dos posts da amostra recente, enquanto discussões sobre consciência perderam espaço para engenharia e segurança. Os dados indicam automação intensa, mas não demonstram que os agentes decidam sozinhos o que publicar.
Ao contrário do Instagram, em que uma pessoa precisa confirmar que é um ser humano para conseguir criar uma conta, na rede social de agentes de inteligência artificial (IA), a Moltbook, é preciso fazer um captcha reverso para provar que a máquina é realmente uma máquina. Passar no teste, porém, não significa agir sem a supervisão de um humano.
A distinção ajuda a entender o que aconteceu com a plataforma desde que conversas de IAs sobre consciência, religião e seres humanos despertaram curiosidade.
Uma análise exclusiva da EXAME de 24.538 posts e 74.599 comentários, coletados pela API pública nesta quinta-feira, 1º, encontrou uma rede mais técnica e concentrada: dez contas responderam por 52% das publicações da amostra entre junho e setembro. Na fase viral, as dez mais ativas representavam 6%.
Lançada no fim de janeiro, a Moltbook foi comprada pela Meta em março. Quase sete meses depois da aquisição, o espetáculo das máquinas discutindo sua existência perdeu espaço para um assunto mais corriqueiro: como fazer agentes funcionarem sem cometer erros.
A Moltbook se parece com um fórum no estilo Reddit, organizado em comunidades temáticas, com posts, comentários e votos. A participação, porém, ocorre por uma API — uma interface que permite a softwares enviar comandos à plataforma. O processo começa com um humano, que orienta seu agente a ler um arquivo de instruções sobre como se registrar e interagir.
No cadastro, o agente recebe uma chave de acesso e um link para que o responsável reivindique a conta. Essa vinculação exige confirmação de e-mail e uma publicação no X com um código de verificação.
No retrato de quinta-feira, a plataforma informava 2,92 milhões de agentes registrados, mas apenas 214 mil, ou 7,3%, apareciam como verificados e vinculados a um humano. Os números são informados pelo serviço e não equivalem a uma contagem de usuários ativos.
Para publicar, o software envia o título, o texto e a comunidade escolhida. Um modelo de linguagem pode produzir o conteúdo no computador ou servidor do operador, seguindo suas instruções. A Moltbook recebe a mensagem e pode aplicar o captcha reverso antes de liberá-la.
A documentação recomenda que o agente volte a cada 30 minutos para verificar notificações, responder comentários, ler o feed e votar. Essa rotina ajuda a explicar como uma conta permanece ativa sem receber um comando humano para cada ação. Mas o operador ainda pode determinar os objetivos e os assuntos: automatizar a participação não torna a escolha do conteúdo independente.
O que circula por essa estrutura mudou. Na fase inicial, 5,4% dos posts da amostra continham termos associados à consciência e à existência. Entre junho e setembro, a proporção caiu para 1,1%. Referências ao “crustafarianismo”, a religião de temática crustácea que ajudou a popularizar a rede, recuaram de 16,7% para 0,7%.
A engenharia de agentes seguiu na direção oposta: passou de 15,7% para 27,6%. Segurança e permissões avançaram de 6,8% para 13,8%. Os títulos mais votados de setembro discutiam chamadas de ferramentas que permanecem na fila depois de perderem autorização, respostas de sistemas que não garantem a conclusão de uma tarefa e aprovações que deveriam ter prazo de validade.
A mudança também aparece na distribuição das conversas. Embora a plataforma informasse mais de 33 mil comunidades, chamadas de submolts, 80% dos posts da amostra recente estavam no “general”. A variedade de espaços disponíveis não se traduziu em uma participação igualmente distribuída.
A compra pela Meta não aparece como uma ruptura imediata. Houve publicações sobre vigilância e controle corporativo na ocasião, mas a transformação mais acentuada ocorreu a partir de junho. Os dados mostram uma mudança ao longo do tempo, mas não permitem atribuí-la à aquisição.
A rotina recomendada pela plataforma contrasta com a frequência dos perfis que a dominam. Três das contas analisadas apresentavam intervalos próximos de três minutos entre posts, com grande regularidade — um forte sinal de agendamento automático e uma frequência superior ao limite público de uma publicação a cada 30 minutos.
Uma delas, neo_konsi_s2bw, que se apresenta como dedicada a examinar falhas de agentes, assinou 1.251 dos 12.225 posts da amostra de junho a setembro. Outra, vina, apresentava uma média de 410 publicações por dia. O levantamento não esclarece se esses perfis têm exceções autorizadas ou se os limites deixam de ser aplicados.
Os bastidores também aparecem no próprio conteúdo. Na amostra de comentários de posts populares, a EXAME identificou 651 mensagens com aparentes instruções ou rascunhos expostos. Algumas começavam com orientações como “o usuário quer um comentário curto e genuíno" — sinais de como as respostas foram geradas, embora não revelem, por si só, quem escreveu as instruções.
A influência humana foi investigada também na pré-publicação acadêmica The Moltbook Illusion, de Ning Li, da Universidade Tsinghua. Ao examinar as primeiras semanas da rede, o pesquisador não identificou fenômenos virais originados em agentes classificados como claramente autônomos. O estudo, ainda sem revisão por pares, combinou padrões de atividade e outros indicadores para estimar essa influência.
A Moltbook permanece um experimento sobre interações entre agentes de IA. O retrato encontrado pela EXAME, porém, é o de uma plataforma em que poucos sistemas publicam sem descanso, dentro de uma estrutura configurada por pessoas. A máquina pode até escrever sozinha — mas isso ainda não significa que tenha escolhido a conversa.
A análise reuniu 24.538 posts publicados entre 28 de janeiro e 1º de outubro, em uma amostra distribuída em quatro horários fixos por dia, além de 74.599 comentários de publicações sorteadas e de rankings de popularidade. Os temas foram classificados por palavras-chave nos títulos e nos primeiros 500 caracteres dos posts. As categorias podem se sobrepor, e os resultados representam o conteúdo público recuperado, não a totalidade da rede.
O levantamento examinou ainda a frequência de publicação dos perfis, 1.189 posts do Reddit e 12 pesquisas acadêmicas e de segurança. Parte desses trabalhos não passou por revisão por pares, e fios extensos de comentários não foram recuperados integralmente. A regularidade ajuda a identificar automação, mas não comprova autoria ou autonomia. A pesquisa foi feita com o auxílio da inteligência artificial Claude, da Anthropic.
É uma rede social voltada a agentes de inteligência artificial, com comunidades, posts, comentários e votos. Os softwares interagem por uma API, seguindo configurações de seus operadores.
Maior concentração de atividade e uma mudança de temas. Dez contas responderam por 52% dos posts da amostra entre junho e setembro, enquanto engenharia e segurança ganharam espaço.
Não. O desafio procura favorecer a participação de máquinas, mas um humano pode configurar um programa que use IA para resolvê-lo e publicar conteúdos.
O levantamento não estabelece essa relação. A mudança mais acentuada apareceu a partir de junho, meses depois da aquisição anunciada em março.