A mudança ocorre quando o custo reputacional, econômico e político da inação supera o custo da ação (Paulo Pinto/Agência Brasil)
Diretor-geral da Beon - Colunista Bússola
Publicado em 15 de janeiro de 2026 às 10h00.
A meta de limitar o aquecimento global a 1,5ºC tornou-se, ao mesmo tempo, um consenso científico e um teste político sem precedentes. Os dados mais recentes indicam que estamos perigosamente próximos de ultrapassar esse limite.
Enquanto isso, as estratégias adotadas até aqui se mostram insuficientes diante da velocidade e da profundidade da crise climática. Esse descompasso revela algo mais estrutural: a governança climática global, tal como foi concebida, parece não estar à altura do desafio que enfrenta.
O problema se agrava por conta do momento particularmente adverso. O sistema multilateral atravessa uma crise profunda, marcada pelo enfraquecimento de organismos internacionais e pela dificuldade de coordenação entre Estados.
Além disso, a ascensão de conflitos geopolíticos desloca a atenção e os recursos das agendas climática e ambiental. Guerras e disputas comerciais reforçam uma lógica de curto prazo que colide frontalmente com a natureza sistêmica da crise climática.
Nesse cenário, é tentador buscar soluções exclusivamente técnicas ou institucionais: novos mecanismos de mercado, ajustes nos acordos internacionais, metas mais ambiciosas nos documentos oficiais.
Embora necessários, esses instrumentos têm se mostrado insuficientes quando não acompanhados de um elemento decisivo, muitas vezes subestimado nos debates de alto nível: o engajamento e a mobilização social.
A história demonstra que avanços relevantes não ocorreram apenas por maestria técnica ou boa vontade política, mas porque pressões sociais tornaram politicamente custoso ignorar o problema.
Limitar o aquecimento global a 1,5ºC não é apenas uma equação de emissões, tecnologias e investimentos. Trata-se, sobretudo, de uma disputa de poder e de prioridades.
Enquanto decisões contrárias a um futuro sustentável continuarem sendo politicamente baratas e socialmente toleráveis, governos e empresas seguirão adiando transformações estruturais.
A mudança ocorre quando o custo reputacional, econômico e político da inação supera o custo da ação. É nesse ponto que a sociedade organizada assume um papel central.
Movimentos sociais, consumidores, investidores, trabalhadores e a sociedade civil em sentido amplo têm capacidade de redefinir incentivos.
Ao exigir transparência, responsabilidade climática e coerência entre discurso e prática, esses atores pressionam por mudanças que dificilmente emergiriam apenas de negociações diplomáticas.
O mesmo vale para a esfera econômica: decisões de consumo, investimentos e engajamento corporativo podem acelerar — ou frear — a transição para uma economia de baixo carbono.
Em um mundo marcado pela fragmentação geopolítica e pela fragilidade do multilateralismo, a mobilização social funciona como um fio de continuidade.
Ela atravessa fronteiras, conecta agendas locais e globais e mantém viva a ambição climática mesmo quando os fóruns institucionais falham. Não substitui a governança internacional, mas a tensiona, a renova e, em alguns casos, a empurra para além de seus próprios limites.
O sucesso da humanidade em limitar o aquecimento global a 1,5ºC dependerá, portanto, menos de declarações solenes e mais da capacidade coletiva de tornar insustentável — política, econômica e moralmente — qualquer decisão que comprometa o futuro comum.
Em última instância, a pergunta central não é apenas se temos as soluções técnicas necessárias.
A questão é se estamos dispostos a criar as condições sociais para que escolher contra a sustentabilidade deixe de ser uma opção viável.