Recrutamento une tecnologia e avaliação humana nos processos seletivos atuais (foto/Thinkstock)
Chairman da FESA Group - Colunista Bússola
Publicado em 30 de julho de 2026 às 15h00.
Ficar velho, ou mais experiente, e atuar no mesmo setor há mais de 25 anos há de ter suas vantagens. Sou do tempo em que recebíamos currículo por correio, em envelopes coloridos, papéis diferenciados, tudo para chamar a atenção do recrutador. Mas calma! Não vamos tão longe assim.
O boom de tecnologia, internet e etc. começou logo depois que ingressei no mercado de Recursos Humanos. Mas, durante um bom tempo, foi assim: recebíamos os currículos por correio ou e-mail e partíamos para as ligações telefônicas ou entrevistas presenciais para avaliar os candidatos.
Quando chegou o LinkedIn, a rede social "focada em trabalho ou carreira", ninguém a conhecia ao certo, mas lembro das primeiras reações de: "Nossa, isso vai matar nosso negócio de consultoria!"
O medo pairava no ar. As dúvidas rondavam nossas cabeças. Mas tudo foi se ajustando e, hoje, entendemos que o LinkedIn não matou nosso negócio; ele só nos impulsionou a sermos mais produtivos, a mudarmos algumas formas de fazer as coisas, e ampliou nossa capacidade de acessar e encontrar bons profissionais.
Quando assumi como CEO da nossa unidade focada em recrutamento de Middle Management, em 2013, tinha um desafio enorme de fazer o negócio dobrar de tamanho. Recorri à tecnologia e, quando percebi, lá estávamos testando algo hiperinovador para a época: entrevista por vídeo!
Foi uma das minhas maiores decepções. Nossos clientes achavam que isso não funcionava e que perderíamos a capacidade de avaliar o ser humano como um todo. Gestos, body language, se ficou nervoso ou não para responder a uma pergunta, e por aí vai…
Já do lado dos candidatos, eles não se sentiam confortáveis em se ver no vídeo e pediam para fazermos a entrevista presencial, mesmo que alguns precisassem pegar uma hora de trânsito para chegar ao local. Não rolou, largamos o projeto de lado.
Após seis anos e uma pandemia global, vimos renascer aquela nossa iniciativa e, em poucos dias, o mundo inteiro estava fazendo entrevistas por vídeo.
Com a onda da IA, não está sendo tão diferente. Muitas previsões, "achômetros" e gente achando a fórmula mágica. O ponto é que nós, seres humanos, fazemos de tudo para termos mais eficiência, para burlarmos qualquer barreira que nos imponham.
Tenho ouvido centenas de relatos de experiências de recrutamento com IA, de posições mais operacionais até alta liderança. E meu questionamento sempre foi – e sempre será – o mesmo: quem garante que as informações imputadas na máquina retratam esse profissional?
Acredite, a máquina ajuda os dois lados! O que vejo de candidato fazendo prompt, algoritmo e tudo mais para passar para a próxima fase não se mede. Já ouvi de profissionais de RH que, enquanto entrevistavam por vídeo um executivo – isso mesmo –, viam o profissional olhando para o lado e digitando algo. Ou seja, houve a desconfiança de que ele estava usando IA para formatar as respostas.
Documentos, cartas de recomendação, pitch para entrevistas, tudo dá para ser feito com IA. Agora, o que vejo que está acontecendo é uma forte tendência de alguma parte do processo ser a famosa entrevista presencial, principalmente para as posições executivas.
Essas idas e vindas da tecnologia me fazem lembrar de uma expressão antiga que sempre usamos. Uma delas é sobre conhecer de fato as pessoas, e eu adoro, que é: "Já comemos um quilo de sal juntos". Ela quer dizer "já estive tanto com essa pessoa que a conheço bem".
O ser humano ainda é a máquina mais complexa que eu conheço. Suas reações não são binárias, seu comportamento não é padronizado e suas ações não são repetitivas. Somos mais imprevisíveis do que achamos e mais desconhecidos do que imaginamos.
Colocar toda essa avaliação a cargo de uma máquina, para mim, ainda é um erro. A inteligência artificial pode e já impactou muito as nossas vidas, sem dúvida, mas nada como um café – ou alguns quilos de sal – para sabermos realmente quem é quem.