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Fernando Shayer: O novo contrato social com a educação

O que devemos cobrar dos educadores neste novo mundo?

Por Fernando Shayer*

No fim do ano passado, a Unesco publicou um trabalho chamado “Reimagining our futures together: a new social contract for Education” (em tradução livre, “Reimaginando juntos nosso futuro: um novo contrato social para a Educação”), em que estabelece as diretrizes fundamentais para um novo pacto com o setor educacional. Como sociedade, o que devemos cobrar dos educadores?

Essencialmente, a proposta inclui uma mudança pedagógica relevante: de um modelo basicamente individualista e competitivo, baseado em testes e notas, para um modelo colaborativo, em que os alunos aprendam a cooperar, a serem empáticos e inclusivos, e a resolverem problemas juntos.

Não é difícil de notar como estamos distantes deste modelo. Para quem não é educador, pode soar como trivial o que está sendo sugerido, mas não é. O que se pretende é uma mudança do próprio serviço prestado pelos professores dentro da sala de aula. É como pedir a um restaurante adaptar a maneira como produz seus pratos ou serve seus clientes.

Atualmente, os professores fazem (longas) exposições de conteúdo, que os alunos assistem passivamente. Os alunos não são convidados a fazer nada, exceto assistir em silêncio (e às vezes debater). Não usam o conteúdo, não criam, não propõem alternativas ou soluções. Os temas não têm relação com a vida ou com os interesses dos alunos.

Mais do que isso, eles não interagem com seus colegas: aprendem individualmente, competindo por resultados. Espera-se apenas que, ao final, eles reproduzam esses conteúdos em provas. E a maioria das apostilas dos sistemas de ensino e os livros didáticos contêm planos de aula seguindo esse modelo de instrução tradicional.

O modelo expositivo pode servir para o conhecimento de conteúdos e, por isso, a Unesco não propõe que ele seja descartado. A questão é como integrá-lo a novas práticas, em que os alunos aprendam a aplicar esse conteúdo, de forma coletiva, não individual. Em outras palavras, que uma grande parte das horas em que os alunos estejam aprendendo as principais disciplinas seja dedicada à realização de atividades práticas colaborativas, como a resolução de projetos.

A razão para essa proposta é clara: cada vez mais, os alunos encontram esse mesmo conteúdo de graça, na Internet. Saber muitos conteúdos não diferencia os alunos do Google porque, como disse Andreas Schleicher, diretor educacional da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e responsável pelo desenvolvimento e aplicação do exame internacional do PISA, não basta mais saber conteúdos: o mercado de trabalho, cada vez mais, paga pelo que se consegue fazer com eles. Se isso é verdade hoje, imagine como será quando os alunos forem adultos.

Portanto, nesse aspecto, o que se espera dos educadores é que eles prestem um serviço que incorpore o que fazem até hoje, por meio de aulas expositivas, a novas práticas pedagógicas, mais interativas e engajadoras, que desenvolvam habilidades como a criatividade e a comunicação, sempre colocando os alunos para trabalharem juntos, para que possam aprender a colaborar, ter empatia, respeito aos direitos humanos e senso crítico.

Outro ponto fundamental da proposta diz respeito à equidade. Nos últimos 200 anos, o mundo deu um salto enorme em termos de acesso à educação. No entanto, isso ainda não é suficiente, já que notamos um privilégio significativo das classes econômicas mais altas no acesso ao ensino de qualidade; no Brasil, essa diferença é dramática, como mostra a diferença expressiva de resultados no PISA de 2018 entre os alunos brasileiros da rede privada e os da rede pública.

Nesse aspecto, a tecnologia é uma grande aliada. Em todas as indústrias, cada vez mais, os usuários de todas as classes têm acesso, via streaming, a experiências (digitais) mais baratas do que suas alternativas físicas ou analógicas. Uma assinatura do Spotify custa muito menos do que uma coleção de CDs. O Google e o Youtube não custam nada ao usuário final e tem todo o conteúdo (e aulas).

Com a digitalização das escolas, veremos uma substituição dos livros e apostilas impressas (não dos cadernos), dentro das salas de aula, por serviços de streaming muito mais baratos (mesmo quando somados ao preço dos dispositivos). Professores e gestores serão formados em escala, por um custo muito menor do que a formação presencial, e os alunos serão acompanhados com base em dados personalizados.

A Unesco propõe também uma evolução no currículo, isto é, nos conteúdos que os alunos devem aprender na educação básica: temas como sustentabilidade não podem mais ser tratados como acessórios e devem ser ensinados desde cedo, assim como letramento digital. Sem isso, os alunos deixarão de conhecer conteúdos fundamentais às suas vidas profissionais.

O trabalho da Unesco aplica-se a todos os países, não apenas ao Brasil, mas é particularmente relevante aqui. Estamos perdendo um tempo muito precioso com discussões ideológicas sem sentido e derrapando pela má execução de políticas e programas educacionais, ou pelo descaso, em muitos Estados e Municípios. Não dá mais.

Se a próxima geração de brasileiros, que está hoje nas escolas privadas e públicas, não desenvolver as competências e não conhecer os conteúdos necessários para competirem com a avalanche de automação que está ocorrendo e, assim, terem sucesso neste novo mundo físico/digital, enfrentaremos problemas econômicos e sociais muito mais graves do que os atuais (que já são muito sérios).

Nesse ano de eleições, esse é o nosso papel: garantir que, em todas as esferas, sejam eleitos representantes comprometidos com a educação e sua modernização, como recomendado pela Unesco

*Fernando Shayer é cofundador e CEO da Cloe, plataforma de aprendizagem ativa

 

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