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Executivas contam segredo que faz mulheres impulsionarem ESG das empresas

Pesquisa inédita mostra que companhias com participação feminina na cúpula pontuam melhor em aspectos socioambientais e de governança

Por Monique Cardoso*

“Antes de tudo, eu sou mãe”, ouvi, com uma certa surpresa, de uma superintendente de um dos maiores bancos do país, responsável pela agenda de sustentabilidade e dos investimentos ESG da instituição. Até certo tempo atrás, seria bem difícil mulheres desse status na escala corporativa citarem tal aspecto de suas vidas no topo da lista das próprias qualidades, pessoais ou profissionais. Talvez agora elas estejam se valendo daquelas características socialmente atribuídas às mulheres, como o cuidado, a sensibilidade, intuição e o olhar para pessoas, como ativos interessantes para traçar estratégias de liderança, muito embora ainda sofram bastante preconceito por isso. Este é um dos principais resultados da pesquisa “Agenda ESG, Substantivo feminino”, que desenvolvi para o mestrado em Sustentabilidade na FGV-Eaesp.

O estudo revela que, justamente com esses atributos, mulheres podem ser decisivas para o bom desempenho de empresas nos temas sob o guarda-chuva ESG, atualmente foco dos holofotes de grandes fundos de investimentos. A pesquisa parte de um ESG Score, que abrange 98 companhias brasileiras de capital aberto, disponível a acionistas, analistas de mercado, bancos e fundos no terminal Bloomberg.

A pontuação ESG recebida pelas empresas foi cruzada com o dado de presença de mulheres na diretoria executiva ou estatutária das mesmas companhias. Os resultados, inéditos para o Brasil, revelam que presença de diretoras em qualquer número acima de um ocorre em maior frequência nas empresas com um melhor desempenho ESG do que naquelas com baixa pontuação, tanto de maneira geral (52% contra 48%) como no desempenho ambiental (54% contra 40%) e no social (53% contra 42%), isoladamente.

Ouvidas pela pesquisa, executivas do alto escalão desta lista de empresas, entre diretoras, vice-presidentes, superintendentes, conselheiras e CEO, e ajudam a explicar como se dá essa relação positiva quando elas ocupam esses espaços.

Além da citada maternidade, as características pessoais e de liderança empregadas à gestão incluem estudar continuamente, a necessidade de se posicionar, mesmo quando são a voz dissonante, e aquelas associadas ao cuidado e à sensibilidade. As entrevistadas dispensam a comparação com homens e os traços de masculinidade, algo muito comum no passado. “Você pode ser determinado, pragmático e voltado para resultados. Mas a forma para chegar lá pode ser um pouco mais sensível. Ou seja, agir como um ser humano”, declara a diretora de negócios de uma das maiores redes de laboratórios do país.

Diante dos desafios de atingir uma boa avaliação ESG nas empresas em que atuam, é marcante a diferença quando a executiva está numa companhia que é referência em sustentabilidade daquelas que atuam nas empresas que obtiveram baixa pontuação ESG.

No primeiro grupo, a sustentabilidade está como propósito do negócio, uma fonte de inovação e oportunidades de gerar impacto. “Me irrita quando perguntam qual a nossa estratégia de sustentabilidade. É a sustentabilidade que deve pautar a estratégia das empresas”, declara outra superintendente. No grupo de baixa pontuação ESG, as executivas se preocupam com trade offs nas operações, com a pressão dos investidores, riscos reputacionais e de greenwashing. “Tudo o que a gente está fazendo no campo ESG é fato. Ainda assim, acho que a gente fala mais do que faz. A prática tem de acompanhar o discurso”, afirma a diretora de uma grande rede de varejo.

Para que os investidores possam fazer uma avaliação ESG condizente com as práticas, é preciso reporte sistemático e claro dos indicadores, evidenciando evolução nos temas.  Nesse campo, as executivas apontam responsabilidade sobre cadeia de suprimentos, mudanças climáticas, logística reversa, diversidade e equidade de gênero e raça, e boa governança corporativa. “Não há como não ter metas e compromissos. A gente tem que dar retorno para o acionista e ser bom para a sociedade. O ESG atualiza essa estratégia”, acredita a diretoria de RI de uma indústria química.

Outro aspecto que chama atenção na pesquisa é que mulheres líderes têm mais alinhamento entre seus valores pessoais e a preocupação com a agenda socioambiental. A evocação da maternidade representa um paralelo com compromissos de longo prazo e atendimento à demanda das novas gerações. Tem relação com deixar um impacto positivo para a sociedade. Isso faz toda diferença na condução de negócios mais orientados à sustentabilidade. “Eu precisava estar envolvida em alguma coisa que tivesse impacto positivo. Comecei a me questionar se esse é o mundo que meu filho vai ter”, diz a diretora de sustentabilidade de uma das principais empresas de bebidas do país.

Entretanto, a pesquisa revela também uma dramática desigualdade de gênero. Das quase cem empresas, 51% não contam com nenhuma diretora. E a contribuição delas para o desempenho ESG não encontra caminho livre. As conhecidas barreiras enfrentadas por mulheres não desaparecem no alto escalão. “Já cheguei ao recorde de serem 42 homens na sala e eu. É muito difícil ser ouvida”, atesta a conselheira de administração de uma grande siderúrgica.

As executivas ouvidas ponderam que é preciso encontrar o equilíbrio entre reconhecer os preconceitos sofridos e responder, mas sem adotar uma postura conflitiva. A tomada de consciência de algumas delas, entretanto, veio mais tarde. A presidente de uma empresa do setor elétrico diz que só se deu conta do tamanho do machismo quando a sociedade passou a falar mais disso. “Para mim era sempre um debate de ideias, e não uma recusa por eu ser mulher. Hoje, reconheço machistas na hora”, diz.

*Monique Cardoso é mestre em Gestão para Sustentabilidade pela Eaesp-FGV, tem dez anos de carreira em sustentabilidade, 20 em comunicação corporativa e é atualmente gerente corporativa de sustentabilidade na Lavoro Agro Holding

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