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E-sports: da diversão à profissão

Com a expansão dos jogos, foram surgindo também os campeonatos da modalidade
Eles são verdadeiros atletas e representam suas equipes e o Brasil em competições internacionais (Slavica/Getty Images)
Eles são verdadeiros atletas e representam suas equipes e o Brasil em competições internacionais (Slavica/Getty Images)
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Vitor Couro*

Publicado em 30/09/2022 às 17:45.

Última atualização em 04/10/2022 às 11:12.

Os primeiros videogames começaram a ser comercializados no início dos anos 1970, chegando ao Brasil ainda na mesma década e se popularizando cada vez mais nas décadas seguintes. Com a expansão dos jogos, foram surgindo também os campeonatos da modalidade.

Mas apesar de as competições de arcades nos anos 1980 e 1990 terem sido uma febre entre os jovens de diversos países, apenas agora conseguimos observar de fato profissionalização do mercado de e-sports. Muitos fatores são responsáveis por esse fenômeno, como o advento da internet, a evolução das tecnologias como o 5G e o maior acesso global aos jogos virtuais.

Mas a realidade é que, como em quase qualquer mercado, só há oferta para o que tem demanda. Além do crescente número de jogadores, os games foram ganhando espectadores, ávidos por gameplays de nível mais elevado. E é neste cenário que surgem os “pros”, que dedicam suas carreiras aos jogos. Afinal, profissional não é apenas aquele que se especializa, mas o que se sustenta de sua atividade laboral.

Evidente que o foco muitas vezes fica apenas sobre os competidores, mas o mercado é tão vasto e rentável, que diversos players foram se desenvolvendo e crescendo em plataformas digitais voltadas mais para o público gamer, como a Twitch. Muitos jogadores fazem streaming de suas partidas para milhares de telespectadores no mundo todo, voltando-se não apenas para o desempenho, mas para o entretenimento em geral.

As possibilidades são quase ilimitadas. Para aqueles que ainda zombam do destaque dado aos e-sports ou da seriedade das competições, os atletas das categorias atualmente contam com treinadores e até preparadores físicos e psicólogos. Para muitos não é apenas um jogo de computador ou um lazer, mas a chance de ter uma carreira e de ascender socialmente. E é por isso que levam a sério esse mercado, que deve ser encarado como outro qualquer.

Eles são verdadeiros atletas e representam suas equipes e o Brasil em competições internacionais. E, como em qualquer esporte, possuem o elemento mais importante e que não pode faltar: a torcida, que se organiza e leva até bandeiras aos locais de partida.

As oportunidades e os altos salários dos profissionais de maior destaque no mundo dos e-sports têm atraído jovens de todas as classes sociais, mas um computador de última geração é muito mais caro que uma bola de futebol ou basquete. Por isso, diversos projetos sociais atuam em favelas e comunidades do Rio de Janeiro, por exemplo, fornecendo o material que os aspirantes necessitam para desenvolver suas habilidades. Esse é um dos passos talvez mais difíceis para os e-sports no Brasil: a democratização do acesso à tecnologia.

O crescimento desenfreado dos e-sports e do destaque dos campeonatos e seus prêmios é tamanho, que mesmo os mais conservadores e reticentes têm se rendido. Em um passado não muito distante o hábito de se passar incontáveis horas na frente de uma tela jogando competitivamente seria visto pela maioria como improdutivo e os pais diriam aos filhos que deveriam passar aquele tempo se concentrando nos estudos para ter uma boa profissão no futuro.

Esse cenário vem se alterando a cada dia, chegando-se ao ponto de tutores e até professores estimularem os mais novos a praticarem com frequência o ato de jogar virtualmente, pois vislumbram esse como um caminho para que esses praticantes possam vir a se profissionalizar e viver desses jogos, pois os salários podem chegar a cifras bem altas, diferente de muitas profissões tradicionais, que são vistas no presente como sem futuro, devido ao cenário econômico do país.

E o crescimento desse mercado tem despertado cada vez mais o interesse não apenas dos amantes dos jogos virtuais, mas das empresas de hardware e software, que movimentam bilhões de dólares todos os anos. Não há mais a possibilidade de se ignorar esse movimento global, que não influencia apenas crianças e adolescentes, mas muitos adultos e até idosos. A profissionalização dos e-sports só tende a crescer, mas já é uma realidade.

Mas não se pode perder de vista que, como nos esportes “tradicionais”, são poucos aqueles que realmente conseguem se destacar entre tantos que sonham com carreira. E menos ainda os que conseguem ter uma longevidade nas competições de alto nível, faturando valores com os quais talvez alguns jovens jamais tenham sonhado em ganhar em suas vidas, mesmo se tivessem investido em seus estudos. É vida real no mundo dos games e a peneira sempre existirá.

*Vitor Couro é advogado do escritório J Amaral Advogados.