Digitalização no campo: América Latina busca liderança global com mecanização inteligente ( Luis Alvarez/Getty Images)
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Publicado em 6 de abril de 2026 às 15h00.
Por Marcelo Traldi*
A América Latina encontra-se em um momento decisivo para sua consolidação como o grande celeiro sustentável do planeta.
As projeções mais recentes indicam que o mercado de máquinas agrícolas da região deverá atingir US$ 11,70 bilhões até 2028, segundo a consultoria Mordor Intelligence.
No entanto, esses números contam apenas parte da história. O verdadeiro motor dessa expansão não é apenas a necessidade de produzir mais, mas a urgência de produzir com inteligência, sustentabilidade ambiental e eficiência de custos diante de um cenário global em transformação.
Projeções da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e da Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO) indicam crescimento de 3% no uso de terras agrícolas e de até 5% na área cultivada até 2030.
Esse avanço será impulsionado, sobretudo, pelo cultivo de milho e soja, que juntos devem responder por mais de 70% dessa expansão. Mais área colhida significa mais horas de máquina, mais eficiência operacional e maior necessidade de tecnologia embarcada para garantir produtividade.
Não por acaso, a mecanização passa a ser menos uma escolha e mais uma condição para competir. A demanda por tratores, colheitadeiras, pulverizadores e soluções de agricultura de precisão, portanto, avança de forma consistente.
O trator segue como a principal porta de entrada da mecanização, mas o perfil da demanda mudou. O produtor latino-americano já não busca apenas potência, mas conectividade, telemetria, inteligência embarcada e eficiência no uso de insumos.
A mecanização evolui rapidamente para a digitalização do campo. Ao mesmo tempo, a diversidade produtiva latino-americana exige soluções distintas.
A Argentina opera em grandes propriedades altamente produtivas na região dos Pampas. O México combina pequenas áreas agrícolas com culturas de alto valor agregado, como abacate e cítricos.
O Brasil reúne agricultura familiar representando 84% dos estabelecimentos e grandes áreas altamente tecnificadas. Realidades diferentes, mas uma necessidade comum: ampliar a eficiência produtiva por meio da tecnologia.
Para sustentar esse crescimento diversificado, a indústria de máquinas agrícolas deve oferecer desde soluções robustas, para grandes culturas, até equipamentos especializados para pomares e hortaliças, respeitando as especificidades de cada terreno e cultura.
É nesse ponto que o acordo entre Mercosul e União Europeia assume papel estratégico. A oportunidade trazida pela abertura comercial e o aumento da demanda global exigem que o setor adote uma postura proativa para acelerar a modernização da frota agrícola latino-americana.
A América Latina já é protagonista global na produção de alimentos. O próximo passo é consolidar sua liderança também em eficiência produtiva. E isso passa, inevitavelmente, por uma nova era da mecanização inteligente do campo.
*Marcelo Traldi é Vice-presidente Fendt e Valtra e General Manager LATAM da AGCO.