Antonio Miranda - @oantoniomiranda no Instagram (@cienciasemfim/Reprodução)
Repórter Bússola
Publicado em 15 de agosto de 2026 às 13h00.
Você está assistindo à TV aberta e de repente “COMPRE AGORA!” pisca na tela por dois segundos. Parece mentira, mas esse tipo de campanha chegou a acontecer nos 2010 e ilustra bem algo que agências e aspirantes a criadores de conteúdo precisam saber: “O creator não é um outdoor, nem propaganda de TV”.
Antonio Miranda desenvolveu essa noção no primeiro ano de sua carreira como criador e influenciador, após acumular 2 milhões de seguidores no TikTok e começar as primeiras parcerias comerciais.
“Imagina, você está assistindo sua novela e do nada é interrompido por uma propaganda de supermercado. Estranho né? Mas acontecia. O criador é completamente o contrário: ele tem uma comunidade que entende ele, seu nicho e sua linguagem. As marcas precisam ter isso em mente”.
A palavra de ordem então é segmentação. Criadores de conteúdo, diferentemente da TV aberta, atingem um público específico. É essa precisão que os permite cobrar de R$ 5 a R$ 15 mil por parceria.
Claro, a precisão e mais algumas coisinhas que Antonio detalha para quem quer ser criador de conteúdo — e que valem para quem quer entender por que 61% dos diretores de marketing querem colocar mais dinheiro neste mercado que movimentou US$ 9,1 bilhões no Brasil só em 2025.
Taí a pergunta para qual todo criador quer a resposta, e Antonio encontrou a dele no que – em 2021, quando tudo ainda era mato – nem tinha nome ainda: o hook, aquele trecho de impacto dos primeiros segundos do vídeo. Para ele, um atropelamento.
“Depois de passar 3 meses estudando a lógica do TikTok, eu concluí que precisava de 3 segundos para fisgar a atenção da pessoa, e que para isso eu precisava de algum tipo de artifício visual que se destacasse.
Na época, meu sócio estava fazendo um filme que tinha esse efeito do atropelamento. Resolvi testar. É nesse nesse truque, em que eu apareço sendo atingido e dirigindo o carro ao mesmo tempo, que eu prendia o espectador”.
Sim, Antonio já usava o hook antes dele ser cool. Ele começou durante o isolamento social de 2021 e conseguiu 100 mil views no primeiro vídeo. “‘Consigo viralizar qualquer coisa’, falei para minha namorada uma vez. Prepotência né? Mas consegui fazer um vídeo nas redes dela bater 2 milhões!”, ele conta com orgulho.
Antonio parou de usar seu primeiro hook depois de um tempo, ao entender certas sencibilidades das redes, mas continuou desenvolvendo muitos outros de igual impacto. Tudo foi pesquisa.
E esse modus operandi veio de berço. Quando criança, seguindo a mãe agrônoma e cientista em seu doutorado, Antonio passava muito tempo na UFRJ. Ele estudou Nanotecnologia na instituição, mas trocou o plano de tornar-se pesquisador para comunicar ciência pelas redes. A bagagem lhe concedeu as habilidades que precisava.
“Eu percebi que o TikTok, redes verticais em geral, tinham um certo amadorismo. Faltava produção, como no YouTube”, ele explica. Foi através do investimento intensivo em produção que ele transformou seu conteúdo em um produto de valor.
“São várias formas de calcular o valor. Primeiro vem o custo, que incluí a equipe e todas as ações necessárias, desde deslocamento à filmagem. Depois, tem o prazo para produção, que influência bastante. Por fim, a distribuição – nesse ponto eu tenho valor agregado além da média de quantas pessoas veem meus vídeos. É o que falei da segmentação”.
Atualmente, Antonio divide seu faturamento em duas fontes: 80% de parcerias comerciais e 20% dos serviços prestados pela sua produtora, a Pitomba.cc. No Brasil todo, os números reais variam, mas, a depender dos fatores indicados, um criador do porte dele pode cobrar de R$ 100 mil a R$ 150 mil por vídeo. Mas tem um detalhe: a receita não é recorrente.
Antonio começou sua trajetória com uma estratégia desenhada: criar, ganhar, reinvestir e renovar constantemente o conteúdo. Mas o modelo de negócios possuí uma instabilidade inerente, com temporadas em que se ganha mais e outras em que se ganha menos.
Para contornar este fator, o criador fundou Pitomba.cc, que presta serviços de estúdio audiovisual e mantém o faturamento estável.
“No início, todo final de mês, eu tava sempre na dúvida de se iria dar certo. Entendi que não se pode apenas fechar um negócio grande e jogar todo dinheiro na conta corrente para comprar um carro. Criei a Pitomba.cc e hoje sei que pelo próximo ano, se eu não fechar nada, tá tudo bem. Essa estabilidade também potencializa a criatividade”.
A produtora tem 6 funcionários, incluindo gerente de pré-produção, gerente de pós-produção, ele próprio como diretor criativo e um roteirista parceiro, além de outros cargos auxiliares. Dos últimos, Antonio também conta com especialistas que consulta frequentemente na produção de vídeos. Afinal, em ciências, é preciso credibilidade.
Antonio conquistou sua audiência engajada e de grande potencial ao demonstrar responsabilidade e compromisso com as informações. Todos os vídeos contam com pesquisa aprofundada e consulta de profissionais especializados.
Acima de tudo, ser um comunicador de ciência, é uma paixão. Antonio, fã de carteirinha do lendário Carl Sagan, se compromete com o que fala nas redes sociais, com seu público e com a coêrencia da sua atividade online – outro fator importante para a consolidação de uma carreira na creator economy.
“E mais: é preciso admitir erros. Em 5 anos produzindo uma quantidade absurda de vídeos, é claro que errei. E quando aconteceu, tive a humildade de ir lá e apresentar meu erro. Existem erros críticos que danificam conteúdo como todo. A melhor coisa que você pode fazer é tirar aquele conteúdo do ar e repostar com a correção, deixando claro para todo mundo o que aconteceu”, detalha.
Recentemente, outro famoso criador de conteúdo, o americano Hank Green, foi criticado pelo seu uso de inteligência artificial nos roteiros, percebido pelo seu público. O problema da IA em comunicação de ciências é a probabilidade de erro devido à alucinação. Sobre o uso dela, Antonio é claro:
“Um serrote pode ser ótimo para cortar uma árvore, mas você não vai cortar sua unha ou uma folha de papel com ele, vai? A IA é isso: uma ferramenta. E cada ferramenta tem seu uso.
Para mim: pesquisa por fontes confiáveis e análise de números brutos. Meu sonho seria ter 300 pessoas no time, mas não é possível. A IA pode suprir a demanda, mas é preciso cuidado, responsabilidade e foco em manter a credibilidade”.
Antonio explica que a paixão pela ciência, a curiosidade e a vontade por saber como as coisas funcionam foram fator principal em sua jornada. Criar conteúdo, segundo ele, pode levar até mais de oito horas por dia. O creator não deixa de pensar um minuto sequer sobre sua próxima ideia. Por isso, gostar do que faz é essencial.
“Você tem que ser completamente apaixonado pelo que faz. Você não pode entrar nessa por dinheiro, porque vai demorar e vai precisar de sorte.
Eu acho que a principal coisa é: se sua ideia de conteúdo não puder começar amanhã, desista. Por que? Porque se você está esperando um milhão de astros se alinharem, você está no caminho errado.
Então faça amanhã! Publique seu primeiro vídeo. Faça. Se for ruim, ninguém vai ver; e aí você tenta de novo e de novo e de novo até funcionar”.