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Como o RH usa grandes eventos e jogos para gerar engajamento

Entenda como a gestão de pessoas usa a flexibilidade em eventos para aumentar o pertencimento dos times

Colaboradores reunidos no escritório celebrando momentos de conexão e flexibilidade no trabalho (GERARD JULIEN/AFP via Getty Images)

Colaboradores reunidos no escritório celebrando momentos de conexão e flexibilidade no trabalho (GERARD JULIEN/AFP via Getty Images)

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Publicado em 19 de junho de 2026 às 15h00.

*Por Renata Esteves

A cada quatro anos, a Copa do Mundo interrompe rotinas, mobiliza conversas e cria uma rara sensação de pertencimento coletivo. Durante os jogos da Seleção Brasileira, escritórios esvaziam, grupos de mensagens ganham vida e a atenção das pessoas naturalmente se desloca para um evento que transcende o esporte. O que antes era visto por muitas empresas como um desafio operacional passou a ser encarado por lideranças mais atentas como uma oportunidade estratégica de gestão de pessoas.

A discussão já não gira em torno de liberar ou não os colaboradores para assistir aos jogos. A questão mais relevante é como transformar esse momento em uma experiência positiva para as equipes, sem comprometer resultados e mantendo o alinhamento com os objetivos do negócio.

O contexto ganha ainda mais relevância quando observamos os desafios atuais de engajamento nas organizações. Segundo o relatório State of the Global Workplace 2026, da Gallup, apenas 20% dos trabalhadores no mundo se declaram engajados com seu trabalho, enquanto 64% estão emocionalmente desconectados das atividades que desempenham.

O estudo também mostra que colaboradores que possuem maior autonomia e flexibilidade apresentam índices superiores de engajamento e bem-estar.

Da gestão do controle para a gestão da confiança

A transformação das relações de trabalho nos últimos anos acelerou uma mudança importante na atuação do RH. O foco deixou de estar exclusivamente no controle da jornada para se concentrar cada vez mais na entrega de resultados, na experiência do colaborador e na construção de ambientes de confiança.

Nesse contexto, eventos de grande relevância cultural, como a Copa do Mundo, funcionam como um teste prático da maturidade organizacional. Empresas que insistem em ignorar o impacto desses acontecimentos na vida das pessoas tendem a enfrentar maior desconexão emocional de suas equipes. Já aquelas que reconhecem essa realidade demonstram capacidade de adaptação e sensibilidade às dinâmicas sociais que influenciam o ambiente corporativo.

A flexibilidade durante os dias de jogo tornou-se uma das expressões mais visíveis dessa mudança. Horários adaptados, trabalho remoto, compensação de horas e transmissões coletivas são exemplos de iniciativas que refletem uma visão mais contemporânea da gestão.

Engajamento não nasce apenas de benefícios

Existe uma tendência crescente de associar engajamento a programas estruturados, benefícios diferenciados ou incentivos financeiros. Embora esses elementos sejam importantes, muitas vezes o que fortalece o vínculo entre pessoas e organizações são gestos que demonstram compreensão do contexto social em que os colaboradores estão inseridos.

Quando uma empresa cria condições para que seus profissionais acompanhem um evento que mobiliza o país, ela envia uma mensagem clara: as pessoas não precisam deixar sua identidade do lado de fora ao entrar no trabalho.

Na prática, observamos organizações promovendo ações de integração, ativações temáticas, espaços de convivência e campanhas de conscientização relacionadas a temas que costumam ganhar relevância nesse período. Há empresas, por exemplo, que aproveitaram o contexto da Copa para reforçar orientações sobre educação financeira e os riscos associados às apostas esportivas, ampliando o papel do RH como agente de cuidado e prevenção.

Essa abordagem contribui para fortalecer o clima organizacional, estimular interações entre áreas e criar experiências compartilhadas que permanecem na memória coletiva das equipes.

O impacto na atração e retenção de talentos

O mercado de trabalho continua passando por uma transformação geracional importante. Profissionais de diferentes perfis buscam empresas capazes de equilibrar alta performance com flexibilidade, bem-estar e respeito à individualidade.

Esse movimento ganha força à medida que a flexibilidade deixa de ser percebida como benefício e passa a integrar a proposta de valor das empresas para seus profissionais. Dados da Gallup mostram que trabalhadores em modelos remotos ou híbridos apresentam níveis de engajamento superiores aos observados em estruturas exclusivamente presenciais. Mais do que uma questão de conveniência, a autonomia passou a ser um fator relevante para a experiência do colaborador e para sua permanência na organização.

Nesse cenário, iniciativas relacionadas à Copa podem parecer simples à primeira vista, mas carregam um significado simbólico relevante. Elas demonstram capacidade de escuta, adaptação e proximidade com as expectativas das pessoas.

A construção de uma marca empregadora forte não acontece apenas por meio de grandes campanhas. Ela é resultado da soma de decisões cotidianas que mostram coerência entre discurso e prática.

Empresas que conseguem transformar momentos culturais em oportunidades de conexão tendem a fortalecer o senso de pertencimento e aumentar sua capacidade de atrair e reter talentos em um ambiente de trabalho cada vez mais competitivo.

O futuro da flexibilidade passa pela experiência humana

Olhando para os próximos anos, a tendência é que organizações ampliem sua capacidade de adaptar políticas e práticas a eventos que impactam diretamente a vida das pessoas. A Copa do Mundo é apenas um exemplo de um movimento mais amplo.

O RH do futuro será cada vez mais chamado a interpretar sinais culturais, sociais e comportamentais para desenhar experiências que conciliem produtividade, bem-estar e engajamento.

Isso exigirá uma atuação mais estratégica, conectada à comunicação corporativa e à cultura organizacional. Afinal, em um contexto em que tecnologia e inteligência artificial ganham espaço aceleradamente, a experiência humana continuará sendo um dos principais diferenciais competitivos das organizações.

Em um cenário em que o engajamento global segue em queda, a capacidade das empresas de criar experiências relevantes para seus colaboradores deixa de ser apenas uma agenda de RH. A Gallup estima que os baixos índices de engajamento representem perdas trilionárias em produtividade para a economia global. Isso reforça uma mensagem importante para as lideranças: iniciativas de flexibilidade e conexão humana não devem ser vistas como concessões, mas como investimentos estratégicos na sustentabilidade dos negócios.

Momentos como a Copa nos lembram de algo essencial: pessoas engajadas não são aquelas que trabalham mais horas, mas aquelas que se sentem reconhecidas, respeitadas e conectadas a um propósito comum. Empresas que compreendem essa dinâmica estarão mais preparadas para construir culturas fortes, sustentáveis e alinhadas aos desafios do futuro do trabalho.

*Renata Esteves é Diretora de Gente e Gestão da BeFly

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