O sistema financeiro brasileiro vem passando por uma das transformações mais profundas de sua história recente, evoluindo para um ecossistema maduro, diverso e altamente regulado (Oscar Wong/Getty Images)
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Publicado em 4 de fevereiro de 2026 às 17h00.
Por Victor Papi*
O sistema financeiro brasileiro vem passando por uma das transformações mais profundas de sua história recente.
O que começou como um movimento de "outsiders", startups que desafiavam o status quo dos grandes bancos, evoluiu para um ecossistema maduro, diverso e altamente regulado.
Hoje, ele é parte essencial da engrenagem financeira do país.
O surgimento das primeiras fintechs no Brasil coincidiu com um momento de grande avanço tecnológico.
Havia também uma insatisfação dos consumidores com a experiência bancária tradicional.
A digitalização acelerada, a popularização dos smartphones e a busca por soluções financeiras mais acessíveis criaram o ambiente perfeito para o nascimento de novas empresas.
Essas companhias focaram em eficiência, agilidade e experiência do usuário.
Elas trouxeram inovação a segmentos até então concentrados, como pagamentos, crédito e gestão financeira, transformando a relação dos brasileiros com o dinheiro.
Mas o amadurecimento do setor não veio apenas da inovação: veio também da regulação.
O Banco Central e outros órgãos reguladores desempenharam papel fundamental ao criar um ambiente de segurança e previsibilidade jurídica.
A introdução de categorias específicas, como as Sociedades de Crédito Direto (SCD) e as Sociedades de Empréstimo entre Pessoas (SEP), foram marcos importantes.
O lançamento do sandbox regulatório e o avanço de iniciativas como o Open Finance e o Pix profissionalizaram o setor.
Isso ampliou a confiança dos consumidores e investidores.
Segundo o Fintech Report 2024, do Distrito, o Brasil conta hoje com 1.592 fintechs operantes.
Isso representa 58,7% das empresas ativas na América Latina.
Em volume de crédito, o crescimento também impressiona: R$ 35,5 bilhões concedidos em 2024, de acordo com dados da PwC.
Esses números evidenciam não apenas o apetite do mercado, mas também a capacidade das empresas brasileiras de competir e inovar sob um ambiente regulado.
A regulação trouxe ganhos claros: maior segurança para o consumidor, padronização de práticas e abertura a parcerias estratégicas com instituições tradicionais.
Contudo, também impôs novos desafios: custos operacionais mais altos e necessidade de estruturas robustas de compliance e governança.
Além disso, exige uma constante atualização frente a novas exigências normativas.
O equilíbrio entre inovação e conformidade tornou-se o grande diferencial competitivo.
As empresas que prosperaram nesse novo cenário foram aquelas que entenderam a regulação não como um entrave, mas como um catalisador de crescimento.
Muitas investiram fortemente em tecnologia, data analytics e automação de processos para garantir eficiência e transparência.
Outras apostaram em alianças com bancos, marketplaces e empresas de tecnologia, ampliando seu alcance e diversificando receitas.
Hoje, as fintechs deixaram de ser vistas como uma ameaça ao sistema financeiro para se tornarem parte estratégica dele.
Sua capacidade de combinar inovação tecnológica com responsabilidade regulatória consolidou o Brasil como o principal hub de inovação financeira da América Latina.
O futuro aponta para um ecossistema ainda mais integrado.
As fronteiras entre bancos, empresas de tecnologia financeira e big techs se tornam cada vez mais difusas.
Nesse cenário, quem melhor entender a regulação como aliada continuará liderando a transformação do sistema financeiro brasileiro, agora, de dentro para fora.
*Victor Papi é General Manager da Transfeera, empresa da PayRetailers e Instituição de Pagamento (IP) especializada em soluções de pagamentos para empresas.