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Como a queda da patente do GLP-1 pode transformar o varejo alimentar

Entenda como o fim da exclusividade da semaglutida no Brasil altera o mix de produtos e exige eficiência operacional dos supermercados

Varejo de alimentos se adapta ao aumento da demanda por itens frescos e perecíveis ( KaterynaBorodina/Shutterstock)

Varejo de alimentos se adapta ao aumento da demanda por itens frescos e perecíveis ( KaterynaBorodina/Shutterstock)

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Publicado em 24 de abril de 2026 às 15h00.

Por Mauricio Pela*

As "canetas emagrecedoras" vieram para ficar, bem como as transformações na vida dos pacientes e de todos os setores impactados pelas mudanças de consumo que elas trouxeram.

Com a queda da patente do GLP-1 no Brasil, a expectativa aumenta e esses movimentos tendem a se intensificar - principalmente no setor do varejo de alimentos.

Isso porque o impacto do GLP-1 vai além da reconfiguração das categorias que sobem e descem nas prateleiras dos mercados, criando uma alteração estrutural de mix, com menos itens ultraprocessados e mais perecíveis frescos. Isso gera consequências operacionais profundas que exigirão adaptação de toda a cadeia.

Novo perfil de consumo e a saudabilidade

A mudança de comportamento já está em curso e a semaglutida a catalisou de forma estrutural.

Pesquisas mostram que 66% dos consumidores brasileiros estão mais preocupados com saúde (ABRAS / EY), 56% querem aumentar o consumo de produtos saudáveis, como frutas e vegetais, 42% pretendem consumir mais leguminosas e 38% buscam aumentar o consumo de peixe e frutos do mar (ABRAS – Tendências de alimentação saudável no Brasil 2024/2025).

Com a linha de medicamentos GLP-1, essa tendência já identificada nos Estados Unidos e notada no Brasil ganha um componente fisiológico relevante: quem usa a famosa "caneta emagrecedora” sente menos fome, preferindo alimentos mais leves e consumindo menores quantidades.

Dados de painéis de consumo nos EUA (Cornell University / Numerator) revelam que lares com usuários de GLP-1 apresentam redução média de 5% a 6% nos gastos em supermercados.

No Brasil, os efeitos já são bastante perceptíveis: famílias expostas ao tratamento apresentam redução semelhante nos gastos com supermercado (ABRAS / EY). Além disso, 60% dos usuários reduziram o consumo fora do lar (ABRAS / EY) e a frequência de jantar em restaurantes caiu pela metade, passando de 3 a 4 vezes por semana para 1 a 2 vezes. (ABRAS / EY)

O impacto operacional para os varejistas

O que vemos é uma nova lógica de consumo, que prioriza menor volume e maior densidade nutricional no lugar de grandes quantidades e de indulgência.

E aqui está um ponto crucial para empresas e investidores: essa queda de volume não significa queda proporcional de faturamento.

As categorias que compõem o consumo de produtos saudáveis que mais crescem - tais como proteínas de origem animal, iogurtes proteicos e suplementos - são de produtos mais caros, com maior preço unitário e maior valor agregado (ABRAS / EY; Mordor Intelligence).

Desafios logísticos e infraestrutura no setor

Esse novo perfil de consumo dos alimentos irá demandar do varejo de alimentos uma adaptação da infraestrutura para suportar um giro mais rápido de produtos frescos e perecíveis.

Isso exige investimentos sobretudo em áreas refrigeradas e na logística conhecida como última milha - que compreende o transporte do produto desde centro de distribuição local até o consumidor final.

Essa parte que parece mais simples e quase mágica - o produto já na prateleira - é, na realidade, o maior gargalo. O desafio não é pequeno, mas também representa uma grande oportunidade de incremento de eficiência operacional.

Isso porque, com o aumento da participação de perecíveis, aumentam a necessidade e a frequência de reposição. A pressão sobre o capital de giro logo se faz sentir, tornando-o mais pressionado, com prazos menores para pagamento de fornecedores e exigindo mais fluxo de caixa.

Investimento e adaptação de infraestrutura

A logística também deve se adaptar a mais recebimentos diários de mercadorias cuja validade expira rapidamente e exigem resfriamento adequado.

Assim, a infraestrutura física das lojas precisará de CAPEX para adequação dos espaços com melhorias que incluem expansão de áreas refrigeradas e implicam maior consumo de energia, por exemplo.

Em suma, menos estoque parado significa mais operação ativa - e as margens precisarão ser reequilibradas.

Por outro lado, o consumo de produtos saudáveis voltados à saúde ganha espaço e deve continuar crescendo, impactando positivamente a margem do setor.

Produtos à base de Whey Protein cresceram acima de 25% entre 2021 e 2023 e o segmento projeta crescer acima de 9% ao ano. Balancear o sortimento e investir em espaços para as categorias corretas é o grande desafio para os varejistas.

Há motivo para desespero? De forma alguma. Os ciclos sempre mudam e o mercado é guiado por adaptações - sejam elas motivadas por novas conjunturas, como a possibilidade de ampliação de acesso aos medicamentos GLP-1, ou pela eterna busca por novidades.

O equilíbrio entre oferta e demanda vai refletir em preços e em onde as empresas encontram valor - e, por conseguinte, em como elas irão gerar valor.

*Mauricio Pela é Managing Director da A&M Performance, e Fábio Rosa, Senior Director da A&M Performance.

 

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