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ChatGPT é o mais recente capítulo da inteligência artificial

Novas ferramentas, como o chatbot que cria textos praticamente idênticos aos que seriam criados por humanos, impactam cada vez mais nosso cotidiano

Chatbot foi desenvolvido pela OpenAI (Reprodução/Reprodução)

Chatbot foi desenvolvido pela OpenAI (Reprodução/Reprodução)

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Roger Finger*

24 de janeiro de 2023, 09h37

Desde o livro “2001: Uma Odisseia no Espaço”, de Arthur Clarke, imaginamos como seria ter um computador como HAL 9000, com a inteligência algorítmica usada em nosso benefício. O computador, que se torna o principal antagonista da história, se transformou em ícone por fazer previsões com facilidade, de forma dinâmica e em tempo real. A proeza se dá por meio de conhecimento adquirido em conteúdo disponível digitalmente, assim como pelo reconhecimento de vozes, objetos, rostos e até emoções. É, aliás, uma capacidade cada vez mais presente em aparelhos que estamos usando no nosso dia a dia.

Seguramente, as principais capacidades que o personagem tem nos livros e também na adaptação da obra para o cinema são as mais relevantes no atual momento: aprender e se expressar de forma natural, quase humana. Novas otimizações de métodos de aprendizagem por reforço sem a necessidade de dados rotulados, aumento do poder computacional e profusão de conteúdo digital tornaram os modelos de redes neurais profundas. Essas “teias” são, de fato, cada vez mais reais e se aproximam de habilidades humanas. Tais redes auxiliam os computadores a tomarem ações e gerarem conteúdos novos com menos necessidade de intermediação das pessoas.

O mais recente exemplo dessa capacidade de aprendizado é o ChatGPT. O chatbot, desenvolvido pela americana OpenAI, gera textos quase indistinguíveis ao que um ser humano poderia escrever, de acordo com instruções providas por usuários. Claro que ainda não é perfeito. Até a própria empresa criadora admite que o bot é suscetível a “escrever respostas que soam plausíveis, mas são incorretas ou não fazem sentido”. Esse fato é causado por limitações nos dados que a inteligência artificial conhece e, cá entre nós, o torna até mais “humano”. Em um modelo de constante evolução, essas respostas passarão a ser cada vez mais corretas.

Outro bom exemplo é o DeepComposer, da AWS, usado para música. Funciona com a simples criação de melodia realizada pelo usuário para, na sequência, a Inteligência Artificial desenvolver automaticamente uma música completa, a partir dessa pequena melodia. Outra tecnologia também desenvolvida pela OpenAI é o Dall-E, plataforma onde o internauta descreve algo. Quanto mais detalhado melhor comando gere uma imagem, sem ter habilidades de designer ou a necessidade de entender como treinar uma inteligência artificial. O Dall-E, assim como as dezenas de concorrentes que surgiram nos últimos meses, não procura na internet por algo semelhante ao descrito, mas sim cria um conjunto de imagens novas, exatamente do jeito descrito. Uma praticidade ímpar, por assim dizer.

Essa inovação traz uma problemática que vai além e envolve outras áreas do saber. O impacto dessa tecnologia na educação, nos leva a buscar respostas para entender como podemos conciliar e aceitar uma ferramenta que pode, por exemplo, gerar um trabalho escolar por si só. Se a máquina conhece tudo que já está disponível digitalmente e sabe elaborar um texto inédito sobre qualquer coisa, como saber se foi mesmo um aluno ou a máquina que escreveu a resposta da pergunta dada? É um impacto maior que a popularização de calculadoras portáteis ou corretores ortográficos, que facilitam, mas não têm a capacidade de substituir completamente um trabalho realizado ao utilizar o conhecimento humano e a lógica. Saímos do momento crítico da pandemia com mais computadores inseridos na nossa vida cotidiana. Na educação, a realidade não é diferente. Talvez seja necessário desenvolver maneiras de se identificar e regulamentar conteúdos gerados por inteligências artificiais ou aprendermos a conviver, até mesmo em sala de aula, com ferramentas cada vez mais poderosas, como essas.

Além disso, uma matéria recente da Revista Scientific American, realizada por meio de perguntas ao ChatGPT, mostra que essa evolução tecnológica é uma preocupação presente no próprio software. A própria ferramenta respondeu que “existem preocupações éticas sobre a criação do ChatGPT e outros modelos de linguagem treinados com grandes quantidades de texto gerados por escritores humanos.” Uma dessas preocupações, além do ambiente educacional, é a desinformação. Textos cada vez mais parecidos com o que você pode ler escrito por um humano, notícias falsas, a imitação do estilo de escrita de pessoas reais, ou até mesmo a desinformação não-intencional, podem se tornar problemas ainda maiores do que já são sem o uso dessas ferramentas.

Mas, pensando no benefício dessa transformação tecnológica, a inteligência artificial pode nos trazer também maior produtividade. As inteligências artificiais generativas, tanto de imagem quanto texto, nos permitem desenvolver ideias antes de fato implementá-las, o que permite a produção de conteúdo de maior qualidade quando estiverem em mãos humanas. Tudo indica que o investimento de US$1Bi que a Microsoft fez na OpenAI, em meados de 2019, foi acertado. Não devemos nos surpreender se, em breve, tivermos essas super ferramentas integradas aos aplicativos que usamos diariamente para estudar a trabalhar, assim como convivemos com corretores ortográficos há anos. Teremos uma inteligência artificial que sugere melhores ilustrações para nossos slides e respostas aos nossos e-mails. Plataformas que também poderão escrever artigos como este ou gabaritar uma prova do ENEM, incluindo a redação, em menos de cinco minutos. Rápido, simples e prático assim, como certamente o HAL 9000 seria capaz.

*Roger Finger é gerente de Inovação Tecnológica da Positivo Tecnologia.

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