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Caso Vozinha e CazéTV: o poder das comunidades digitais

Como um mutirão na internet transformou a vida de um goleiro e acendeu o debate sobre o uso do engajamento para gerar impacto social

Interação em redes mostra a força das comunidades digitais na mobilização social e engajamento ((Foto: Roberto Schmidt / AFP))

Interação em redes mostra a força das comunidades digitais na mobilização social e engajamento ((Foto: Roberto Schmidt / AFP))

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Publicado em 18 de junho de 2026 às 10h41.

Última atualização em 18 de junho de 2026 às 11h04.

Por Renato Cirne*

Quando milhões de pessoas se unem por um goleiro, o que mais elas poderiam transformar? Anteontem, o caso Vozinha mostrou, mais uma vez, a força impressionante das comunidades digitais.

Durante a transmissão de Cabo Verde contra a Espanha, a CazéTV mobilizou sua audiência para seguir o goleiro cabo-verdiano, protagonista de uma atuação histórica. Em dois dias, ele saiu de uma base de cerca de 50 mil seguidores para cerca de 13 milhões de pessoas acompanhando sua história. O número impressiona, mas o conceito por trás dele impressiona ainda mais.

Uma pequena ação — um pedido simples, feito no momento certo, para uma comunidade engajada — foi capaz de produzir um impacto enorme.

O poder da mobilização em rede

Tenho dedicado os últimos anos a estudar com mais profundidade a transformação digital, a inteligência artificial, a economia da atenção e os novos modelos de mobilização em rede.

Como advogado, acostumado a olhar para estruturas, riscos, governança e reputação, cada vez mais percebo que a tecnologia não está mudando apenas os negócios: está mudando a forma como pessoas, marcas, instituições e governos se organizam em torno de histórias, causas e movimentos.

E a CazéTV já vem demonstrando isso há algum tempo. Nas Olimpíadas, a plataforma ajudou a dar visibilidade a atletas que muitas vezes não ocupavam o centro da mídia tradicional. Os mutirões digitais ampliaram a exposição desses atletas, fortaleceram suas comunidades e abriram portas para novas oportunidades.

Isso é muito relevante, porque mostra que o digital não gera apenas audiência. Pode gerar oportunidade. Pode reforçar reputação. E pode gerar renda, carreiras e inspirar novas trajetórias.

O digital além da audiência

E talvez possa ir ainda mais longe. Imagine se a mesma lógica fosse aplicada a uma campanha para doação de agasalhos no inverno? E se uma comunidade digital fosse convidada a colocar 100 mil casacos em circulação?

Sem caminhões. Sem centros de coleta. Sem operações complexas. Apenas conectando, por meio da tecnologia, quem tem algo parado em casa com quem realmente precisa receber - algo possível através do Mercado Circular promovido pelo aplicativo do Plantah, por exemplo.

Ou imagine, para além da Copa do Mundo, se em uma Copa do Brasil ou Campeonato Brasileiro, torcidas inteiras fossem convidadas a participar de desafios positivos?

Qual torcida conseguiria cadastrar mais produtos em circulação através do desapego? Qual conseguiria mobilizar mais doações para uma causa social? Qual cidade arrecadaria mais agasalhos para o inverno?

O interessante é que não estamos falando de um esforço individual heroico. Estamos falando de pequenas ações distribuídas entre milhares ou milhões de pessoas. O impacto verdadeiro acontece quando todo mundo faz um pouquinho e não quando poucos fazem muito.

Para podermos observar a mudança que desejamos ver no mundo, precisamos de todos engajados coletivamente, cientes de que o exemplo arrasta multidões.

Transformando engajamento em impacto

Talvez o próximo grande passo da economia da atenção esteja justamente aí. Durante anos aprendemos a medir visualizações, curtidas, compartilhamentos e seguidores.

Mas talvez a próxima geração de plataformas passe a medir algo diferente: quantas pessoas participaram; quantas pessoas ajudaram; quantas pessoas aprenderam; quantas pessoas doaram; quantas pessoas mudaram um comportamento.

Em outras palavras: transformar engajamento em impacto.

Essa é uma visão que começa a surgir em diferentes iniciativas ao redor do mundo e que também inspira projetos como o Plantah, uma rede social brasileira criada para conectar pessoas, comunidades, empresas e causas por meio de ações positivas e mensuráveis.

O impacto pode surgir no mercado circular, quando algo sem uso ganha nova vida. Pode surgir em campanhas sociais. Pode surgir em jornadas educativas. Pode surgir em desafios coletivos. Pode surgir na conexão entre quem quer ajudar e quem precisa de apoio.

Esse movimento pode nascer de diferentes formas, mas sempre contando com a força do engajamento e da coletividade.

Esse movimento ganha força através de pessoas relevantes, formadores de opinião, influencers, criadores de conteúdo, que decidem sair da sua zona de conforto para fazer algo de diferente, como o que a gente vem acompanhando com a CazéTV ao longo de diversos eventos esportivos, principalmente.

Eles estufam o peito e abrem portas e possibilidades para quem antes não tinha nenhuma visibilidade. O mais curioso: muitas dessas pessoas, representantes da nossa nação em eventos internacionais.

Mas esses movimentos também podem nascer em uma empresa. Em uma escola. Em uma universidade, em uma prefeitura, em um governo estadual, em um órgão público, em uma federação, em uma associação de bairro, em um clube, ou em qualquer ambiente que reúna pessoas dispostas a agir e com coragem de falar.

O ponto central não é o tamanho inicial da estrutura. É o nível de confiança, pertencimento e engajamento da comunidade.

Quando existe propósito, linguagem compartilhada e uma convocação clara, pequenas mudanças de comportamento podem produzir impactos enormes — no bairro, na cidade, no estado, no país e, quem sabe, no mundo.

O futuro das plataformas em escala

Vozinha mostrou a força de uma narrativa verdadeira. A CazéTV mostrou a força de uma comunidade mobilizada.

E iniciativas que buscam conectar tecnologia e impacto social partem justamente da convicção de que o digital pode ir além da atenção: pode organizar solidariedade, circular recursos, aproximar pessoas e gerar transformação em escala.

No fim, talvez a grande lição do caso Vozinha não seja sobre seguidores, mas talvez seja sobre possibilidade.

Porque se uma comunidade digital consegue mudar a vida de uma pessoa em poucas horas, ela também pode aquecer famílias no inverno, apoiar causas, fortalecer comunidades, movimentar recursos e gerar impacto positivo em escala.

A tecnologia já provou que sabe mobilizar atenção. O próximo desafio talvez seja ainda mais interessante: aprender a mobilizar essa mesma energia para transformar realidades.

*Renato Cirne é advogado, consultor em compliance e empreendedor social

Acompanhe tudo sobre:Impacto social

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