No fim, não se trata apenas de representação. Trata-se de poder. ( FG Trade/Getty Images)
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Publicado em 27 de março de 2026 às 10h00.
Por Júlia Rios*
Março é um mês em que a pauta ganha visibilidade, as empresas e instituições se posicionam e o debate público se intensifica. Entretanto, para quem atua há anos com a pauta de gênero, também é um momento de olhar com mais profundidade para o que ainda não mudou.
Existem inúmeras iniciativas voltadas à promoção da igualdade de gênero, muitas delas lideradas pela sociedade civil, que há décadas trabalha para ampliar a participação de mulheres nos espaços de decisão. O problema não é a ausência de ação, mas a ausência de mudança estrutural e, principalmente, de financiamento adequado para sustentá-la.
Apesar de representarem mais da metade da população brasileira e do eleitorado, as mulheres continuam sub-representadas. Hoje, elas ocupam cerca de 17% das cadeiras na Câmara dos Deputados, um dado que revela o descompasso entre quem somos e quem decide. Essa desigualdade não é pontual; ela atravessa os três poderes.
Ouve-se muito: "mas as mulheres não gostam de política”, “as mulheres não votam em mulheres”. No entanto, isso é discurso e não realidade: 98% das mulheres acreditam que precisamos de mais mulheres na política, segundo pesquisa da Elas no Poder. A desigualdade não pode ser explicada pela falta de interesse ou de capacidade das mulheres. Não é vitimização: a falta de mulheres em espaços de poder é sustentada por barreiras estruturais, como o acesso desigual a recursos, a ausência de apoio partidário e um ambiente político que não foi concebido para a nossa entrada e permanência.
As mulheres querem ocupar os espaços, mas encontram barreiras institucionais, financeiras e simbólicas desde o primeiro passo. Nessa perspectiva, os obstáculos são ainda maiores quando falamos de mulheres negras, indígenas, com deficiência e trans. Esses recortes são essenciais porque explicam a lógica de quem pode chegar e de quem sequer entra no jogo.
Existe um discurso recorrente de que “faltam mulheres na política”. Faltam mesmo, mas a pergunta real é: quantas mulheres têm condições reais de disputar? Campanhas exigem financiamento. Trajetórias exigem tempo, rede e suporte. E, na prática, poucas mulheres têm acesso a esses recursos.
Os dados da Pesquisa de Perfil da Mulher na Política (2024), da Elas no Poder, revelam que, entre as mulheres que já foram candidatas, 26% não receberam nenhum recurso financeiro dos partidos e, ainda mais grave, 60% sequer tiveram uma promessa de financiamento, enquanto apenas 10,9% receberam o valor prometido.
Ou seja, mesmo quando há regras que visam garantir a destinação proporcional de recursos às candidaturas femininas, a realidade ainda está distante do previsto na norma. Muitas candidatas não têm autonomia sobre os recursos recebidos e enfrentam dificuldades para estruturar campanhas competitivas.
E mesmo quando os recursos chegam, vêm sem estrutura. Apenas 17% tiveram acesso à assessoria jurídica, 16% ao apoio contábil e 5% ao apoio estratégico, instrumentos básicos de qualquer campanha séria. Sem capital político e financeiro, poucas candidaturas conseguem, de fato, se tornar viáveis eleitoralmente.
Na prática, muitas mulheres ainda são incentivadas a se candidatar, mas não a vencer. São incluídas para cumprir cotas, mas excluídas das estratégias reais de campanha. Durante as eleições, enfrentam assédio dentro dos próprios partidos, são deixadas de lado e não recebem suporte para disputar em condições justas. E depois das eleições? Quantos partidos são responsabilizados pelo descumprimento das cotas? Quantos respondem pela ausência de apoio real?
Após as eleições, a responsabilização é praticamente inexistente. O que vemos, com frequência, são mecanismos que acabam beneficiando as próprias estruturas partidárias, inclusive por meio de anistias recorrentes. O sistema se mantém e as mulheres seguem tendo que resistir nele.
A mesma pesquisa mostra que cerca de 90% das mulheres relataram ter sofrido algum tipo de violência política de gênero, desde a desqualificação profissional até ataques nas redes sociais, ameaças e exclusão de espaços de decisão.
A violência política de gênero não é exceção, mas parte do funcionamento do sistema. Esses ataques não se limitam ao debate político, mas também atingem a legitimidade, a imagem e a permanência dessas mulheres nos espaços de poder.
Existe também um impacto menos visível, mas igualmente profundo: o desgaste emocional e psicológico de disputar sem apoio. Campanhas podem gerar traumas, especialmente para mulheres que não contam com redes de apoio nem dentro e nem fora dos partidos. Diante desse cenário, muitas desistem antes mesmo de consolidar uma trajetória política.
Antes de chegar ao poder, muitas mulheres passam por processos de formação, apoio e fortalecimento que ocorrem fora das estruturas partidárias. São organizações da sociedade civil, como a Elas no Poder, que constroem esses caminhos, realizando pesquisas, oferecendo ferramentas, redes e apoio para que mais mulheres possam acessar e permanecer nesses espaços.
Esse trabalho é, na prática, parte da infraestrutura da democracia. No entanto, continua sendo um dos mais subfinanciados. No Brasil, a filantropia ainda opera majoritariamente com recursos fragmentados, de curto prazo e pouco flexíveis, o que limita a capacidade das OSCs de planejar, crescer e sustentar suas ações no longo prazo, conforme destaca o Relatório de Perspectivas para a Filantropia no Brasil em 2026.
Esse cenário se torna ainda mais contraditório quando consideramos o contexto global. Estamos diante de uma das maiores transferências de riqueza da história, com cerca de US$ 35 trilhões que devem passar para as mãos de mulheres nos próximos anos. Além disso, conforme o artigo, há evidências consistentes de que as mulheres tendem a doar mais e a investir com maior frequência em causas sociais, especialmente aquelas relacionadas à equidade.
Ainda assim, esse potencial não se traduz, na prática, em financiamento estruturado para organizações que atuam na linha de frente. Grandes doadoras existem e têm desempenhado um papel importante, mas ainda são exceção em um sistema em que a maior parte do capital permanece concentrada nas mãos de homens, majoritariamente brancos, no Norte Global.
Para organizações no Sul Global, isso significa lidar com um cenário de escassez persistente e baixa visibilidade internacional. Não é possível esperar que essa redistribuição futura resolva problemas urgentes no presente. Muitas organizações simplesmente não têm tempo para esperar.
Mulheres precisam estar preparadas, mas, principalmente, precisam se sentir seguras nos espaços de poder, com mecanismos efetivos de proteção, responsabilização e garantia de direitos. É fundamental garantir que não sejam silenciadas, que não sofram assédio nos partidos e que não sejam deixadas de lado durante os processos eleitorais. Nesse contexto, a Elas no Poder lançou a Plataforma VIVA (Plataforma de Informação, Vigilância e Ação), voltada ao enfrentamento da violência política de gênero, com foco nos partidos políticos.
Também é essencial reconhecer que não existe uma única experiência de ser mulher na política. As desigualdades de raça, de território e de classe precisam estar no centro desse debate. Sem esse olhar, continuaremos reproduzindo exclusões dentro de uma agenda que busca, justamente, enfrentá-las.
Se queremos mais mulheres no Legislativo, no Executivo e no Judiciário, precisamos parar de tratar essa agenda como algo pontual. Organizações como a Elas no Poder não trabalham apenas para formar lideranças, mas também para transformar a estrutura que define quem pode acessar e permanecer nesses espaços, como fazem no projeto Meninas Cidadãs.
Estamos prontas para ocupar esses lugares. Mas não há mudança estrutural sem financiamento estrutural. Precisamos de recursos institucionais de longo prazo, que permitam continuidade, planejamento e impacto real.
Porque, no fim, não se trata apenas de representação. Trata-se de poder. E, no Brasil e no mundo, poder ainda tem gênero, endereço e orçamento.
Se você acredita que pesquisas e iniciativas como as nossas fortalecem a presença de mulheres nos espaços de poder, considere nos apoiar:
*Júlia Rios é Diretora Financeira da ONG Elas no Poder.