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Bússola Poder: São Judas Tadeu e a eleição

Briga é pelos números, e até eles podem ser vistos de forma diferente na campanha
Falta apenas um mês para o primeiro turno das eleições de 2022 (Band/Divulgação)
Falta apenas um mês para o primeiro turno das eleições de 2022 (Band/Divulgação)
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BússolaPublicado em 02/09/2022 às 18:00.

Por Márcio de Freitas*

Falta um mês para o primeiro turno da eleição de 2022, dois meses para eventual segundo turno. O tempo escorre pelas mãos dos candidatos, e pode levar junto votos fundamentais para garantir o sucesso ou derrota na disputa. Alguns querem que a eleição seja “ontem”, outros torcem para que o relógio ande mais devagar.

O governo colheu nesta semana resultado acima do previsto no Produto Interno Bruto (PIB). A soma dos últimos doze meses chegou a 2,6%. Enquanto o PIB sobe, a gasolina cai. Os empregos formais crescem, e até a informalidade consegue espaço novamente com a normalização da atividade urbana, neste quase pós-pandemia que o país vivencia.

Números positivos da economia vieram pelo efeito benéfico do Auxílio Brasil de R$ 400, da liberação de parte do FGTS, mais dinheiro destinado ao crédito, um consignado mais liberal aqui, uma redução de impostos ali… mas ainda não pegou o efeito do pagamento do aumento de R$ 200 no Auxílio, nem o dinheiro para caminhoneiros e taxistas, ou ainda o Pronampe etc.

O consumo aumentou no primeiro semestre; a inflação também, os juros idem e a inadimplência bateu recordes, revelando o copo meio vazio. Agora, os preços começam a cair nas gôndolas de mercados. Muitas ações governamentais foram implementadas em cima da hora, outras estão ainda ocorrendo. Nem tudo se fez sentir no cotidiano das pessoas de forma efetiva para converter votos.

A dúvida hamletiana da eleição é: o tempo será suficiente para o governo colher esses resultados, ou o ambiente de inflação e falta de perspectivas econômicas diante de dívidas e incertezas vai prevalecer, beneficiando a oposição? É questão fundamental porque, com a reeleição, no meio de um possível segundo mandato e governante enfrenta uma disputa plebiscitária, com decisão bem objetiva: a manutenção da gestão aprovada ou mudança, se rejeitada.

O foco da comunicação num único ponto pode favorecer o governo nesta estratégia, salientando o copo meio cheio. O presidente Jair Bolsonaro, que fala pouco de economia, aumentou sua dedicação ao tema. Mas também assumiu a linha de frente nos ataques ao ex-presidente Lula, principalmente no quesito corrupção. Foi isso que se assistiu no primeiro debate presidencial, e já quase o último diante de avaliações duvidosas sobre o benefício que produziu para os líderes da corrida. Essa dupla atividade informativa do candidato pode confundir um pouco o conhecimento sobre os resultados econômicos. Além do que, brigar com mulheres, um público onde não é aprovado, não foi momento para ser comemorado pela comitiva presidencial.

Frente a seu principal adversário, Lula ficou olímpico, acenado de cima do salto alto das pesquisas para todos os outros candidatos como possíveis aliados num segundo turno. E ignorou Bolsonaro - ficou tão distante que nem a militância entendeu sua apatia ao responder os ataques sobre corrupção. Seguiu a velha máxima de seu falecido marqueteiro, Duda Mendonça, que dizia que o autor dos ataques mais perdia do que ganhava. Apanhou mudando de assunto.

Detalhe: esse Lula ficou no debate, porque na campanha ele terceirizou os ataques a Bolsonaro às inserções de 30 segundos a que têm direito. E deixa seu marqueteiro bater sem pudor no presidente pelas suas falas infelizes durante a pandemia. De sua própria boca, Lula prefere até agora falar dos bons tempos de seu governo, quando a carne era barata e o churrasco não vetado pelo orçamento apertado. E promete ajudar aos endividados, como um São Judas Tadeu das causas impossíveis… cuja celebração acontece no dia 28 de outubro, dois dias antes do segundo turno deste ano.

A briga é pelos números, e até eles podem ser vistos de forma diferente na campanha. A matemática eleitoral nunca é exata. Quando confrontados diretamente, os candidatos usam uma calculadora muito própria onde seus atributos são sempre multiplicados pelo máximo denominador incomum. E as propostas dos adversários são sempre divididas pela equação da impossibilidade irreal.

O embate até agora mostrou os principais candidatos retrancados. Lula tentando evitar equívocos cometeu o erro da omissão. Bolsonaro tentando pautar os problemas do adversário, esqueceu de olhar o noticiário se infiltrando na retaguarda. E os franco-atiradores entraram em cena: Ciro Gomes (PDT), Simone Tebet (MDB) e Seria Thronicke (União Brasil) não têm viabilidade nesta eleição, mas tiveram bons momentos no debate e, numa representação muito tensa, conseguiram alguns momentos de drama quase mexicano. Não houve registro cômico, sinal de que o siso engoliu o riso. E como outros debates diretos estão sob ameaça de não acontecer, é bom os brasileiros perguntarem a solução de nossas causas impossíveis a São Judas Tadeu mesmo…

*Márcio de Freitas é analista político da FSB Comunicação

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