A articulação em Relações Governamentais garante previsibilidade e segurança jurídica (em_concepts/Shutterstock)
Advogado e articulista convidado
Publicado em 5 de maio de 2026 às 10h00.
Há um erro clássico na forma como muita empresa enxerga Relações Governamentais: tratar o tema como um departamento de crises acionado quando um projeto de lei ameaça o caixa.
A prática profissional de Relações Governamentais separa empresas resilientes das que vivem apagando incêndio: governo não é só risco.
É parte estrutural do custo de operar, do acesso a mercado e, em muitos setores, do próprio desenho do modelo de negócio.
Em outras palavras: o governo é um dos maiores centros de custo do seu P&L — tributação, licenças, padrões técnicos, fiscalização, subsídios, compras públicas.
E ao mesmo tempo um dos maiores fatores de previsibilidade, quando a empresa sabe navegar o processo regulatório com método, dados e reputação.
No Brasil, o custo do governo tende a aparecer como complexidade: camadas de norma, judicialização, insegurança interpretativa e uma lógica em que o risco regulatório muitas vezes é risco de processo.
Esse risco envolve prazo, idas e vindas, e mudanças de entendimento. Por isso, Relações Governamentais por aqui costuma se confundir com acesso e gestão de relacionamento.
Isso tem valor, mas vira fragilidade quando não é acompanhado de análise econômica, desenho de coalizões e estratégia de comunicação.
Nos Estados Unidos, o custo do governo tende a aparecer como previsibilidade com litígio e transparência formal.
O jogo é duro, caro e altamente competitivo, mas mais padronizado em ritos e disclosure.
Relações Governamentais é frequentemente estruturada como função corporativa de alto nível, integrada a jurídico, compliance, comunicação e inteligência de mercado.
Uma diferença prática é o foco do esforço. No Brasil, muitas companhias ainda entram no debate regulatório tarde — quando o texto já está pronto ou quando o risco regulatório já virou manchete.
Nos Estados Unidos, a lógica típica é influenciar cedo, no desenho: consulta pública, audiências, comitês, formação de consenso técnico e articulação com associações.
Isso muda a natureza do trabalho: em vez de apenas defender posições, Relações Governamentais passa a ser gestão de agenda.
Identificar temas antes de virarem crise, produzir evidência, mapear atores, antecipar janelas do processo decisório e construir legitimidade.
Casos ajudam a ilustrar. No Brasil, a reforma tributária (2017) e a reforma da previdência (2019) mostraram como mudanças estruturais alteram custos, investimentos e estratégias setoriais.
Também mostraram como coalizões empresariais, associações e especialistas disputam narrativa e desenho de regras.
Também no Brasil, decisões como a proibição de doação empresarial a campanhas (STF, 2015) mudaram o mapa de influência, empurrando parte do debate para advocacy, coalizões e posicionamento público.
Nos Estados Unidos, a disputa em torno de marcos de privacidade, antitruste e tecnologia costuma ocorrer com alto grau de institucionalização.
Envolve a produção de estudos, mobilização de coalizões, atuação em comitês e monitoramento constante do calendário político e regulatório.
O custo de não ter Relações Governamentais madura é perder previsibilidade — e, em setores regulados, perder mercado.
No fim, a pergunta certa não é se a empresa tem Relações Governamentais. É: "a empresa sabe quanto o governo custa e quanto o governo pode destravar?".
Quem trata Relações Governamentais como disciplina de gestão entra cedo no processo, usa evidência, organiza coalizões, protege reputação e reduz volatilidade.
Quem trata como agenda e acesso descobre tarde que o maior custo do negócio nem sempre é matéria-prima, câmbio ou folha — é regra, interpretação e previsibilidade.