Treinamento capacita grupos para atendimentos em casos leves de depressão e ansiedade (Marcelo Casal/Agência Brasil)
Publicado em 3 de fevereiro de 2026 às 10h10.
O Sistema Único de Saúde (SUS) iniciou uma nova estratégia para capacitar profissionais da rede básica para atender casos leves de depressão e ansiedade. O objetivo é ampliar o volume de acolhimento voltado para saúde mental nas Unidades Básicas de Saúde (UBS).
A nova organização foi colocada em prática em três municípios: Aracaju (SE), Santos (SP) e São Caetano do Sul (SP).
A estratégia está alinhada com o discurso da Organização Mundial da Saúde (OMS), que defende que nem todo sofrimento psíquico precisa de atenção especializada no começo do tratamento.
A mudança inclui uma formação, protocolo e supervisão no serviço de acolhimento realizado pela rede básica. Esse atendimento inicial pode incluir breves interações com o paciente, buscando otimizar o direcionamento para os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
O programa é coordenado pela organização ImpulsoGov, que capacita profissionais do SUS em parceria com a gestão pública. Desde 2023, 125 profissionais do atendimento primário passaram pelo programa. A maioria deles atua como agentes comunitários de saúde e técnicos de enfermagem.
Segundo a coordenadora de produto da ONG, Evelyn da Silva Bitencourt, esse grupo já recebe pacientes com demandas voltadas para saúde mental, mas não tem capacitação para realizar o acolhimento.
O protocolo ajuda o profissional a entender quem ele pode acompanhar ali na unidade e quem precisa ser encaminhado com mais urgência para a atenção especializada.
Os dados do programa apontam que pacientes que passam pelo acompanhamento iniciam o atendimento com pontuações entre 13 e 14 no PHQ-9, que o instrumento indica como depressão moderada. Ao final, eles registram sete pontos, que marcam depressão leve.
O PHQ-9 é um questionário que avalia os sintomas depressivos.
Cerca de 1.200 pacientes já foram atendidos.
A formação conta com 20 horas de aulas teóricas em uma semana e cinco meses de atuação prática supervisionada.
Ao longo desse período, os profissionais atendem pacientes reais com suporte de profissionais especializados.
A principal técnica ensinada é o Acolhimento Interpessoal (AIP), que se baseia na escuta estruturada e intervenção breve. O processo ocorre em quatro encontros com o paciente. Nesse período, eles aprendem a utilizar a escala PHQ-9 e a Columbia, que avalia risco de suicídio.
Caso o profissional avalie que o paciente não está pronto para receber alta no final do quarto encontro, é possível iniciar um novo ciclo com quatro sessões ou realizar encaminhamento para o CAPS.
O psicólogo e assessor técnico em saúde mental da atenção primária de Aracaju, Lucas Rosa Palmeira, explica, se necessário, a medicação indicada pode ser aplicada na própria UBS com apoio de um psiquiatra.
Isso evita colocar a pessoa numa fila enorme quando o caso ainda pode ser cuidado na atenção primária, com segurança e acompanhamento próximo.
Em Aracaju, o programa começou em 2024 e a saúde mental é a terceira condição mais atendida na atenção primária. A cidade tem uma fila de 10 mil pacientes para consultas com psicólogos e psiquiatras.
A coordenadora da atenção primária na Secretaria Municipal da Saúde, Mayra Oliveira, observou uma redução de 40% a 50% nos sintomas.
Muitos pacientes não precisam mais ser encaminhados para a atenção especializada. Isso é fundamental para diminuir o gargalo.
Um dado que chama atenção é que, em 2025, apenas 20 dos 40 profissionais que iniciaram a formação concluíram o processo e seguem no atendimento. Atualmente, eles estão em 14 UBSs.
A meta é ampliar o alcance para 100 trabalhadores e o atendimento para 45 unidades básicas da cidade.
Teve profissional que disse: "Eu preciso cuidar de mim primeiro para conseguir cuidar do outro".