Toda atenção à base

Se o presidente interino Michel Temer esperava tranquilidade na reta final do processo de impeachment, enganou-se redondamente. A fina camada de cola que mantém sua base aliada unida sofre novos abalados a cada dia.

A principal delas foi a discordância entre seu partido, o PMDB, e o PSDB a respeito dos ajustes de salário do funcionalismo público. O dilema é o aumento do contracheque dos ministros do Supremo Tribunal Federal, que geraria um efeito em cascata de outras carreiras públicas. Tucanos querem evitar a impressão de que o déficit fiscal aprovado no Congresso se transforme em “cheque especial” para gasto desenfreado de dinheiro público. O PMDB, por sua vez, não pretende se indispor com o eleitor nem com o Judiciário conforme a Operação Lava-Jato bate à porta.

O próprio presidente interino agiu para apaziguar os ânimos. Chamou senadores para reuniões em que prometeu destravar promessas, como mais de 1.500 obras paradas nos estados, e articulou apoio em eleições municipais. Garantiu também que projetos de lei de interesse teriam apoio da base para serem aprovados.

A questão que se faz é uma só: ao equilibrar pratos e atender a interesses tão diversos, Temer vai conseguir conciliar levar à frente as medidas impopulares do ajuste fiscal? Segundo um grupo crescente de analistas, tudo vai depender da economia. Se a recuperação vier rápida, como espera o governo, tudo fica mais fácil. “A instabilidade na coalizão acompanha a variação do cenário econômico. É sempre assim”, diz o cientista político Sérgio Abranches.

A sessão de ontem no Senado foi marcada por intenso bate-boca, e suspensa às 00h17. Hoje, as testemunhas continuam a ser ouvidas. Temer, assim como fez nesta quinta-feira, vai se dedicar a ouvir outro tipo de demanda.

 

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