Louisa Wee: executiva destaca como os brasileiros usam os clubes da Strava para criar conexões na vida real (Strava/Divulgação/Fundo gerado por IA/Exame)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 31 de julho de 2026 às 06h02.
Um em cada dois brasileiros que usam a Strava não abre o aplicativo apenas para registrar o treino. Abre para encontrar gente. Entre os usuários do país, 56% apontam os clubes da plataforma como o principal lugar para conhecer pessoas, na média global, são 37%. A diferença de quase 20 pontos resume um padrão que se repete em quase todos os indicadores brasileiros do aplicativo, hoje uma comunidade de mais de 180 milhões de atletas em 185 países.
Os números do país destoam em série. Os clubes de corrida cresceram 8,6 vezes em 2025. A participação em maratonas registrada na plataforma avança duas vezes mais rápido aqui do que nos Estados Unidos, e pelo menos 60% de quem corre uma grande maratona no Brasil faz o upload da prova.
O brasileiro também não se prende a uma modalidade: 41% registraram dois ou mais esportes no ano passado, e 19% chegaram a três ou mais. E há o traço mais brasileiro de todos, uma atividade publicada com foto recebe 5,2 vezes mais kudos, o "curtir" da plataforma, do que uma sem imagem.
Alguns comportamentos surpreenderam a própria empresa. O mais notável: as brasileiras registram musculação com 28% mais frequência que os homens, num aplicativo que o mercado ainda associa quase exclusivamente à corrida. É justamente esse o desafio comercial da companhia por aqui, convencer um público apaixonado por corrida de que a plataforma serve também para academia, futebol e pilates.
Enquanto isso, a empresa avança em duas frentes: a integração do Runna, app de planos de treino que comprou, e a criação de um espaço para o chamado hybrid fitness, o público de HYROX e CrossFit.
Quem acompanha esses dados é Louisa Wee, diretora global de marketing (CMO, na sigla em inglês) da Strava e do Runna há cerca de um ano. Antes, ela passou cinco anos na Netflix e ajudou a lançar no Brasil o eHarmony, coincidência curiosa para quem hoje comanda o marketing de um aplicativo que, por aqui, virou lugar de conhecer gente. Nesta entrevista à EXAME, ela explica por que o Brasil se tornou o mercado mais atípico da plataforma.
EXAME: Para quem não conhece, o que é a Strava?
É um aplicativo que conecta você com pessoas da sua rede, com atletas que admira e com clubes onde você mora ou onde estiver, para praticar atividades juntos.
Essa é uma das coisas que fazemos: dar a você uma comunidade com quem curtir o movimento. A segunda é ajudar você a ter a prova de que é ativo.
Você registra suas atividades em todas as modalidades e compartilha com a sua comunidade. Para quem está num nível mais avançado, há dados mais profundos — frequência cardíaca, VO2 máximo, potência. Não é para todo mundo, mas quem se importa, se importa muito.
EXAME: Por que os brasileiros usam o aplicativo de um jeito que os diferencia de outros mercados?
Os brasileiros têm uma paixão pela vida — e isso é algo que já vi nos outros negócios de que tive a sorte de participar. Quando gostam de alguma coisa, querem contar para todo mundo.
Isso é algo incrível no consumidor deste país. Como eles gostam tanto, seja do treino de força ou da corrida, eles querem compartilhar. São ótimos em se fotografar, se filmar e dividir isso com entusiasmo — dentro do aplicativo, nas redes sociais e até no WhatsApp. Isso me parece bem específico do Brasil.
EXAME: A corrida virou fenômeno cultural aqui. Os dados mostram quando isso começou?
Faz anos. Mas o que é realmente empolgante é que a corrida continua crescendo aqui, e está sendo adotada de forma mais ampla pelos brasileiros em todo lugar. Só no último ano, o número de clubes de corrida no Brasil cresceu mais de oito vezes.
Isso mostra que o interesse ainda está explodindo. E uma parte que me anima muito é como isso acontece entre as mulheres.
Por que a Geração Z está trocando o Instagram pelo Strava no BrasilEXAME: Por que elas puxam esse crescimento?
Há vários motivos, mas um dos que aparecem no nosso caso é o foco em segurança. Temos os mapas de calor, que mostram quando uma rota específica tem muito movimento — isso faz as pessoas se sentirem seguras para correr naquele horário, naquele percurso.
E temos o Beacon, que permite a quem está correndo compartilhar sua localização. Por causa da adoção dessas funções, vimos um salto no número de mulheres correndo.
EXAME: Os clubes foram uma criação de vocês ou um pedido do consumidor?
Um pouco dos dois. Como a Strava existe há mais tempo em outros países, a possibilidade de as pessoas criarem os próprios clubes é mais antiga lá fora. Em muitos lugares, vemos mulheres querendo um lugar seguro para correr juntas.
O Brasil também tem isso, mas tem características próprias: as assessorias esportivas existem aqui há muito tempo. Para nós, o clube é uma extensão da assessoria. Permite que elas continuem conectadas com as pessoas que já veem na vida real, usando o aplicativo como plataforma.
EXAME: As corridas de rua aqui esgotam em minutos. Isso aparece nos dados de vocês?
Sim. Quando você olha para as grandes maratonas, uma parcela enorme delas é registrada aqui.
Na média das maratonas, pelo menos 60% de quem corre faz o upload — e normalmente é ainda mais. Se você está correndo uma maratona, provavelmente também está registrando. Vemos muito também uma funcionalidade que reconhece quando você está fazendo algo em grupo e sugere que vocês se marquem na atividade um do outro.
EXAME: O Brasil influenciou alguma ferramenta nova?
Várias coisas. Os brasileiros foram adotantes muito precoces e frequentes de uma sobreposição transparente que criamos, que chamamos de sticker. Ele mostra o seu percurso, o seu pace, e você pode sobrepor isso a uma foto ou a um vídeo e compartilhar nas redes sociais. Os brasileiros amam.
Quando vimos o tipo de uso que estávamos tendo, foi um sinal para continuarmos investindo em tornar esses stickers compartilháveis, algo que fazemos com frequência.
EXAME: E o comportamento da geração Z aqui é diferente?
Muitas vezes a geração Z chega ao nosso aplicativo para encontrar conexão humana, e o Brasil é ainda mais extremo do que outros países. Eles adoram entrar e encontrar conexões da vida real, muitas vezes pelos clubes, que não teriam encontrado de outra forma.
Eles já têm conexões online e nas redes suficientes — o que procuram são as conexões na vida real. Outra coisa é que eles tendem a não se identificar com um único esporte. Quanto mais velho você é, mais se identifica com um esporte específico.
EXAME: Alguma marca conseguiu impacto grande com esse público brasileiro?
Essa área do negócio é relativamente nova para nós, começou de fato no ano passado, mas vimos uma adesão incrível. A Olympikus chegou a fazer uma colaboração conosco em um tênis, com um desafio coletivo de quilometragem: quantos quilômetros todos os consumidores brasileiros conseguem correr?
Deu muito certo; as pessoas se motivaram. Também tivemos um começo muito bom com Red Bull e Heineken. A Red Bull trouxe atletas com quem já trabalha, e a sobreposição entre esses atletas, os fãs deles e quem está ativo aqui era muito grande.
EXAME: Qual é o maior desafio de vocês no Brasil?
O Brasil é um mercado ótimo, nós amamos estar aqui. O desafio é que a Strava é muito mais do que corrida, e precisamos educar o consumidor sobre isso. Use para correr, por favor, nós adoramos.
Mas também fazemos muita coisa que pode ser ótima para você. Uma delas é o treino de academia, o treino de força — e isso é superinteressante porque, no Brasil, as mulheres registram musculação com mais frequência do que os homens. Ficamos surpresas, no bom sentido. Adoramos isso. O futebol também é um dos tipos de atividade que mais crescem em registros.
EXAME: O brasileiro pratica muitos esportes ao mesmo tempo?
Pratica. Eles caminham, correm, treinam força e ainda fazem outra coisa. É só ajudar todo mundo a perceber que dá para trazer a vida ativa inteira para o aplicativo e compartilhar com a comunidade, os amigos e a família. Esse é o nosso grande desafio no Brasil.
EXAME: Qual é o maior equívoco sobre a Strava?
Achar que é só para corrida, porque há muitos corredores no Brasil e muitos corredores aqui dentro. E, em segundo lugar, achar que não damos suporte ao treino de força ou a outras coisas que você faz para se manter saudável e em forma.
É uma questão de ajudar as pessoas a verem e entenderem que outras já estão fazendo isso.
EXAME: O que vem a seguir?
No Brasil, boa parte é apresentar o Runna, uma aquisição que fizemos porque ele soma muito para quem tem metas muito específicas de corrida, e é complementar aos clubes de corrida e às assessorias.
E queremos garantir que os brasileiros interessados no que chamamos de hybrid fitness — HYROX, CrossFit — tenham uma casa no app. Isso caminha junto com o conjunto de funcionalidades que estamos construindo em torno do treino de força: pesos, pilates, coisas que trabalham o fortalecimento, e não só o cardio.