CNH do Brasil: ( Marcello Casal Jr/Agência Brasil)
Repórter de Brasil e Economia
Publicado em 30 de julho de 2026 às 15h35.
A política que acabou com a obrigatoriedade da autoescola para obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF), mas continua em vigor enquanto a Corte analisa a ação.
O ministro André Mendonça, relator da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 7.978, optou por levar o caso ao plenário e não deu nenhuma decisão liminar.
A ação foi apresentada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), com apoio de sindicatos estaduais de autoescolas, que contestam dispositivos da Resolução Contran nº 1.020/2025.
A expectativa do setor é que o julgamento ocorra até setembro.
A entidade sustenta que as mudanças extrapolam o poder regulamentar do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), reduzem mecanismos de fiscalização previstos no Código de Trânsito Brasileiro (CTB) e invadem competências dos estados.
Na decisão mais recente, no fim de junho, Mendonça pediu à Presidência da República, Ministério dos Transportes e Contran que prestassem informações. Em seguida, AGU e Procuradoria-Geral da República (PGR) terão cinco dias cada para apresentar pareceres antes da análise pelo STF.Em nota enviada à EXAME, Ministério dos Transportes afirma que não existe qualquer decisão suspendendo a regulamentação e que a defesa da União será conduzida pela Advocacia-Geral da União (AGU).
Segundo a pasta, a resolução apenas simplificou procedimentos e ampliou o acesso à habilitação, mantendo obrigatórios os exames teórico e prático previstos na legislação.
Segundo a pasta, já foram apresentadas 34 ações judiciais questionando diferentes aspectos da política pública. De acordo com a pasta, nenhuma delas resultou, até o momento, na suspensão das novas regras.
Os números apresentados pelo Ministério dos Transportes serão um dos principais argumentos da União na defesa da política pública.
Segundo a pasta, os pedidos da primeira CNH passaram de 1,74 milhão para 5,76 milhões no primeiro semestre de 2026, alta de 230,8% em relação ao mesmo período do ano anterior.O governo afirma ainda que houve crescimento em todas as unidades da federação. No mesmo período, o número de exames teóricos aumentou de 1,34 milhão para 1,77 milhão, enquanto as provas práticas passaram de 2,21 milhões para 2,83 milhões. As taxas de aprovação permaneceram praticamente estáveis: 98,2% nos exames teóricos e 96,6% nos práticos.
Segundo o Ministério, a plataforma CNH do Brasil já reúne mais de 65 milhões de usuários no aplicativo, 8,3 milhões de usuários na plataforma digital, 6,1 milhões de cursos iniciados e 3,7 milhões de certificados emitidos.
A CNC argumenta que a resolução promove mudanças que deveriam ser feitas por lei aprovada pelo Congresso Nacional, e não por norma administrativa do Contran.
Entre os principais pontos contestados estão a ampliação dos cursos teóricos a distância, a atuação de instrutores autônomos sem o modelo tradicional de credenciamento pelos Detrans, a flexibilização da formação de condutores e a inclusão automática desses profissionais na plataforma digital da CNH do Brasil.
Na avaliação da entidade, essas mudanças enfraquecem a fiscalização exercida pelos estados, comprometem a formação de novos motoristas e podem elevar os riscos de acidentes, além de gerar impactos econômicos sobre os Centros de Formação de Condutores (CFCs), especialmente em municípios menores.
O Ministério dos Transportes rebate essas críticas e afirma que o novo modelo não eliminou nenhuma etapa obrigatória prevista no Código de Trânsito Brasileiro. Segundo a pasta, candidatos continuam obrigados a realizar exames médicos, psicológicos, prova teórica e prova prática para obter a habilitação.
A discussão no STF representa o capítulo mais recente de uma das principais mudanças promovidas pelo governo federal na política de trânsito.
A proposta foi antecipada pela EXAME em outubro de 2025, quando o Ministério dos Transportes abriu consulta pública sobre o novo modelo. Na época, o governo defendia que a retirada da obrigatoriedade das autoescolas poderia reduzir em até 80% o custo da habilitação e ampliar o acesso ao documento.
Em dezembro de 2025, o Contran aprovou a Resolução nº 1.020 e lançou oficialmente a plataforma CNH do Brasil, permitindo que candidatos estudassem gratuitamente pela internet e contratassem apenas as aulas práticas que considerassem necessárias, mantendo obrigatórios os exames finais.