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Por que, no Brasil, a PM ainda bate em manifestante?

"Me surpreende que, na democracia, a polícia ainda use aparatos para enxotar massas", diz especialista. Protestos de professores no Paraná deixou 213 feridos.

Homem ferido durante confronto entre policiais e professores em Curitiba (Everson Bressan/SMCS)

Homem ferido durante confronto entre policiais e professores em Curitiba (Everson Bressan/SMCS)

Mariana Desidério

Mariana Desidério

Publicado em 7 de maio de 2015 às 15h21.

São Paulo - Há exatos 8 dias, um protesto de professores transformou parte de Curitiba, no Paraná, numa praça de guerra. As imagens de docentes sangrando e se defendendo de cassetetes chocaram o país.

Para conter os manifestantes, a Polícia Militar do estado lançou mão de balas de borracha, bombas de efeito moral, spray de pimenta e até cachorros treinados. O objetivo era impedir a todo custo que os professores entrassem na Assembleia Legislativa do Paraná. Com um saldo de 213 feridos, a meta foi alcançada.

No entanto, uma pergunta ficou no ar: Por que, no Brasil, em pleno ano de 2015, a Polícia Militar ainda lança mão da violência para reprimir manifestantes?

Para Roberto Livianu, promotor de justiça e presidente do MPD (Ministério Público Democrático), ocorre uma inversão de valores. “A polícia existe para proteger esses manifestantes, que estão exercendo um direto constitucional”, afirma.

O professor Másimo Della Justina, do Departamento de Economia da PUC-PR , concorda e questiona ainda o uso de instrumentos repressivos contra quem protesta. Para ele, a truculência não condiz com a democracia. “Me surpreende que, no contexto democrático, a polícia ainda faça uso de cães e aparatos para enxotar massas”, afirma.

Para mudar esse quadro, Della Justina defende uma mudança estrutural nas polícias. “Por que o Brasil ainda precisa de uma Polícia Militar?”, questiona. E completa: “O policial é pai de família, mãe, são pessoas que também têm consciência de cidadania. Porém, uma estrutura que permite o uso de instrumentos repressivos pode levar a atos inadequados num momento de desespero”, afirma.

De quem é a culpa?

O mal-estar gerado pelas imagens de professores feridos levou a um embate a respeito da responsabilidade sobre a ação da polícia. Na segunda-feira (4), o secretário de Segurança do Paraná, Fernando Francischini, que pode perder o cargo, disse que todo o planejamento da ação foi feito pelo comando da Polícia Militar.

Em resposta, 16 coronéis da PM divulgaram carta dizendo que Francischini participou, sim, do planejamento e “foi alertado inúmeras vezes” que pessoas poderiam sofrer ferimentos.

Na opinião de Della Justina, da PUC-PR, o correto seria que governo e PM assumissem juntos a responsabilidade pelo que ocorreu. “Seria um ato de grandeza política”, afirma.

Já para o promotor Roberto Livianu melhor seria se a truculência contra os professores viesse de atitudes individuais dos policiais. “Se foi uma orientação que veio de cima, significa que aqueles que têm a responsabilidade de decidir desrespeitaram as regras do estado democrático de direito”, analisa.

Enquanto as responsabilidades não se esclarecem, resta a dúvida: os policiais teriam escolha numa situação tensa como aquela? Na opinião de Della Justina, sim, teriam. “Em vez de agredir os professores, eles poderiam ter virado ao palácio e gritado junto”, defende. 

O que diz o governo?

Logo após o confronto entre PMs e professores, o governador Beto Richa (PSDB) defendeu a ação da polícia e afirmou que um grupo de black blocs atacou os policiais.

Dias depois, o secretário de Segurança Fernando Francischini disse que “nada justifica” a ação contra os professores, mas ressaltou que a polícia cumpria uma ordem da Justiça.

Ontem, o secretário de Educação do Paraná, Fernando Xavier, pediu demissão do cargo por motivos pessoais. 

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